O meu filho fez (ou vai fazer) uma plastia sublingual. E agora?

Este texto inclui as recomendações que deixo aos pais após realizar a plastia sublingual ao seu filho (ou filha, claro). As informações que aqui deixo dizem respeito à forma como eu, João Moreira Pinto, penso e prescrevo na minha prática clínica e às dúvidas que os pais geralmente colocam. Outros cirurgiões pediátricos podem pensar de forma diferente, pelo que é a opinião e a prescrição do cirurgião do seu filho que deve prevalecer. 

1- O que é a plastia sublingual? 

A plastia sublingual é um procedimento cirúrgico destinado a libertar a língua do pavimento da boca, de forma a permitir a boa mobilidade na mesma. Na idade pediátrica, ela realiza-se quando o lactente ou a criança têm o que nós chamamos anquiloglossia ou freio curto da língua.

Dependendo da idade e da gravidade da anquiloglossia, o procedimento pode consistir apenas num corte na porção mais distal (pontinha) da língua (frenectomia ou frenulotomia) ou obrigar a uma cirurgia mais complexa com retalhos de avanço e /ou sutura com pontos absorvíveis.

2- Que tipo de anestesia?

Quando a cirurgia consiste apenas num corte duma membrana transparente que existe na pontinha dalguns bebés, o procedimento pode ser feito sem anestesia. É um procedimento indolor, porque esta porção não tem enervação.

Nos bebés mais velhos ou com anquiloglossias que exijam procedimentos mais complexos, a cirurgia é realizada sob combinação de anestesia geral com anestesia local. Tratando-se de uma criança saudável, a anestesia não exige intubação nem curarização, isto é, a criança estará a dormir mas a respirar sozinha apenas com o suporte de uma máscara facial. Ainda assim, é necessário cumprir o jejum instituído pelo protocolo de anestesia: 6h para os alimentos normais e leite de fórmula, 4h para leite materno, 2h para água e líquidos claros. Existe sempre um contacto prévio da equipa do bloco operatório que dirá a hora para estar no hospital e a hora para a última refeição.

3- O que pode comer?

Após a plastia sublingual, o bebé em amamentação deve voltar ao seu ritmo de refeições normal. As crianças mais velhas devem manter uma dieta líquida/mole e fresca durante as primeiras 24 horas.

4- Dói muito? 

Como expliquei mais acima, o procedimento realizado em consulta ou na sala de pequena cirurgia deverá ser completamente indolor. Aqueles que precisaram de ir ao bloco operatório, poderão ter o desconforto normal de quem fica com uma “afta” pois esta é a forma normal da mucosa cicatrizar. Se o desconforto for grande, pode dar-se analgésico (paracetamol ou ibuprofeno), mas não é habitual.

5- Pode usar chupeta?

Tenho visto muitos vídeos nas redes sociais contra o uso de chupeta após a plastia sublingual, mas não existe nenhum artigo científico que contra-indique a sua utilização. Assim, como eu entendo que a chupeta é um bom “apaziguador” (pacifier, em inglês), dou liberdade completa aos pais para darem a chupeta.

6- Vai precisar de terapia da fala?

Um terapeuta da fala, para além de tratar dos problemas da fala, é o especialista qualificado para ajudar nos problemas da deglutição e adaptação à amamentação. Se o bebé veio por dificuldades na amamentação e a plastia sublingual resolveu o problema, então acho desnecessário recorrer a um terapeuta da fala. No entanto, se o problema persistir, essa ajuda deve ser começada o mais rapidamente possível.

As crianças mais velhas, que geralmente já vêm ser submetidas à cirurgia por problemas na fala, vão precisar de continuar (ou iniciar) o acompanhamento pelo terapeuta da fala. Não é expectável que a cirurgia resolva os problemas da fala de um dia para o outro. A plastia sublingual é uma pequena ajuda para um processo de recuperação mais complexo.

7- Restrições à escola e desporto?

Não existem restrições à frequência da escola ou ao desporto, salvo nos casos em que crianças mais velhas, submetidas a procedimentos mais invasivos, precisem de 1-2 dias para recuperar do ‘inchaço’ local.   

8 – O que não esperar/sinais de alarme?

Não são de esperar: dor ou um edema grande que impossibilite a alimentação, vómitos ou febre, uma hemorragia não controlável com compressão local. Se tal acontecer, deve contatar o cirurgião responsável ou dirigir-se a um serviço de urgência.

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