6 dicas para iniciar os primeiros passos

Esta semi-ausência deve-se, entre outros, a um pedido duma leitora que me encomendou um texto sobre como ajudar a criança a dar os primeiros passos. Como esse pedido já não era o primeiro dentro do género, achei que deveria escrevê-lo com mais afinco, o que me deu mais trabalho e, consequentemente, me tirou mais tempo. De qualquer forma, aqui está. Se gostar, partilhe.

As crianças dão os primeiros por volta dos 12 meses. ‘Por volta’ é o termo quase-técnico para dizer que algumas começam aos 9 meses e outros aos 21 meses. A criança começará andar quando o seu organismo, os seus músculos e a sua coordenação motora sentirem que estão preparados para o fazer. Teoricamente (ou seja,  o que vem nos livros), não há nada que os pais possam fazer para acelerar este desenvolvimento neuro-muscular. Deve-se dar tempo ao tempo, mas pai que é pai (e Mãe que é Mãe) não sabe ficar de braços cruzados. Além do mais, a marcha é uma das principais modalidades na competição entre progenitores. Não há sala de espera de pediatria ou encontro de Mães-amigas que o tema não venha à baila e ninguém gosta de ficar atrás. Repito: não há estudo nenhum que prove que as medidas que se seguem acelerarão o início da marcha do seu filho. Mas mal não fazem e nós pais não gostamos de ficar de braços cruzados…

1. No stress. Apesar das dicas que se seguem. Lembre-se sempre desta: não há duas crianças iguais. Umas comem tudo outras não comem nada, umas sorriem cedo outras só mais tarde, umas palram cedo outras mais tarde… O facto de a criança estar a atrasar o início da marcha não quer dizer que vá ser ‘atrasada’ em tudo o resto. Salvo em caso de doença neurológica ou muscular conhecida, a sua criança acabará por andar. Não deixe a ‘competição’ que falei em cima subir-lhe à cabeça e dê tempo ao tempo. Apressar as coisas pode ser prejudicial, porque pode provocar medo e insegurança à criança. Por isso, no stress.

2. Exercitar a coluna. Desde o nascimento, o bebé deve brincar algum tempo de barriga para baixo. Exercitar os músculos do pescoço e das costas previnem a morte súbita e servirão para ganhar força suficiente para (mais tarde) a criança se sentar e, depois andar.

3. Exercitar as pernas. Assim que a criança conseguir apoiar-se de pé, deve-se incentivar brincadeiras que ela possa fazer nessa posição. As mesas de actividades muitas vezes escorregam, mas colocar os brinquedos num sofá é uma solução acessível e disponível quase em qualquer lado. Os andarilhos são ‘proibidos’ pelos pediatras. Eu até gosto, mas de facto nada prova que eles aceleram a marcha. Aqueles brinquedos com rodas em que a criança se apoia e anda não parecem gerar polémica, mas cá em casa nenhum dos rapazes se deu com aquilo. De facto, ambos se estatelaram no chão e recusaram aquelas aventuras.

4. Motivar. Em média, as crianças que gatinham andam mais tarde do que aquelas que não gatinham. Isto acontece porque as crianças que gatinham arranjaram uma forma rápida de ir de um lado para o outro sem precisarem de andar, enquanto as que nunca gatinharam precisam da marcha para lá chegar. Assim, devemos criar incentivos para a criança se colocar de pé. Os brinquedos colocados sobre o sofá são uma forma de os obrigar a levantarem-se do chão. Mudar o brinquedo de posição pode ser uma forma de o fazer percorrer o sofá, e mudá-lo para a mesinha, uma forma de incentivar que a criança vá percorrendo a sala.

[fonte: haverleecolyer.blogspot.com]

5. Passear. Uma criança com os braços esticados para cima entre as pernas de um adulto que o segura é a imagem mais comum quando pensamos nos primeiros passos. Talvez por vício de profissão, essa imagem recorda-me sempre das centenas de cotovelos deslocados que já tive que corrigir (ler aqui sobre pronação dolorosa): Por outro lado, não parece nada fácil para as crianças equilibrarem-se com os braços esticados para cima. Daí, sempre apoiei (e não agarrei) os meus filhos pelo cotovelo e, para treinar os primeiros passos, preferia que eles andassem com os bracinhos abertos para o lado (muito ao estilo da imagem que se segue). O que se ganha em ergonomia para a criança, perde-se em dores de costas para os pais, porque obriga a que o adulto ande mais curvado.

[fonte: newswise.com]

6. Libertar as amarras. A certa altura a criança anda apoiada nos móveis lá de casa. Percorre o sofá, estica-se até à mesinha ao lado, tenta alcançar a peça de mobiliário que se segue. Está na altura de soltar as amarras. Isto não vem nos livros, mas a forma que sempre me pareceu mais lógico foi encostar os meus filhos de costas contra o sofá ou contra a porta a esticar-lhes as mãos para os agarrar. Nas primeiras centenas de vezes eles só mergulham, isto é, atiram-se para os braços paternais sem qualquer passo antes. Com o passar dos dias, lá se desenha o que parece ser um passo, e depois outro, e já são três… A certa altura eles dão os passos todos e nós já estamos na outra ponta da sala.

Uma última nota sobre o calçado. Os melhores sapatos para dar os primeiros passos são as solas dos pés. Andar descalço é a forma mais segura de garantir a estabilidade que a criança precisa para iniciar a marcha. Mas como nem sempre é possível ter as crianças descalças em casa e principalmente fora de casa, escolha sapatos ou botas que cubram o tornozelo e que nesta zona sejam duras o suficiente para que o pé não torça.

8 cuidados a ter com o Sol e as crianças

O Sol já começa a aparecer. Depois de dias e dias de chuva, a vontade de brincar ao ar livre foi acumulando. O Sol faz-nos bem. Entre muitas outras coisas, ajuda-nos à produção de vitamina D que é fundamental para o crescimento e manutenção da qualidade dos nossos ossos. Mas como em tudo na vida, o Sol deve ser tomado com moderação. Para além das queimaduras solares, os raios UV provocam alterações degenerativas na pele que levam ao envelhecimento precoce da mesma e, no limite, ao aparecimento de cancro. Assim, faz sentido recordar alguns cuidados a ter com os mais pequenos.

[fonte: palmbeachspraytan.com]

1. Evitar exposição solar durante longos períodos de tempo e na alturas em que o Sol está mais alto. As horas em que as suas radiações estão mais perpendiculares à Terra são as horas mais perigosas.
2. Usar chapéu com abas largas ou boné. Eles protegem a face e os olhos.

3. Ainda para proteger os olhos, a criança deverá usar óculos de sol. As crianças podem usar óculos de Sol em qualquer idade. Mais do que critérios de moda os pais devem certificar-se que as lentes têm qualidade. Pode ler mais sobre óculos de Sol, lendo este artigo escrito pelo Dr. Fernando Vaz.

4. Oferecer água, para evitar a desidratação.

5. Usar roupas frescas e claras. O vestuário funciona como primeiro filtro contra as radiações solares.

6. Em todas as zonas expostas, aplicar um creme protector adequado à idade da criança pode ser confuso. Existem protectores solares de 3 tipos: os de filtro físico, os de filtro químico e os mistos.  Se quiser entrar nos pormenores que distinguem os diferentes tipos de protectores, poderão ler este post aqui.  De forma muito breve, os filtros físicos formam uma película reflectora para os raios não penetrarem na profundidade da pele, enquanto os filtros químicos são constituídos por químicos que, depois de absorvidas pela pele, são transformadas em substâncias capazes de absorver os raios solares, impedindo que eles entrem nas camadas mais profundas da pele. Estas reacções dos filtros químicos parecem não acontecer eficazmente em crianças menores de 2 anos. Mais, os filtros químicos podem provocar irritação da pele das crianças mais pequenas ou das que têm peles mais sensíveis. Sendo assim,

  • Bebé <6 meses: proteger com creme 100% mineral nas zonas expostas e evitar ao máximo a exposição directa ao Sol.
  • Bebé entre os 6-12 meses: proteger com creme 100% mineral todas as zonas expostas.
  • Criança entre 12-24 meses: proteger com creme 100% mineral ou creme misto (filtro físico e filtro químico).
  • Apartir dos 2 anos: creme misto ou de filtro químico.

7. Não esquecer que o creme protector deverá ser sempre de ter um factor de protecção 30 ou mais e deverá ser renovado frequentemente. Alguns cremes referem que devem ser aplicados de 30 em 30 minutos.

8. Depois da exposição solar mais ou menos prolongada são necessários outros tipos de cuidado. Primeiro, hidratar o organismo com grandes quantidades de água e minerais. As frutas e os legumes têm ambos os componentes. Segundo, hidratar a pele, aplicando creme ou leite de corpo.

[fonte: texaschildrensblog.org]
Este texto foi originalmente publicado na Pumpkin.pt.

Refluxo vesico-ureteral (ou ‘xixi ao para trás’)

Nestes últimos tempos, tenho tido a necessidade de explicar esta patologia mais que uma vez. O Refluxo vesico-ureteral (RVU) é uma doença frequente na criança (1 a 2% de todasea elas). Na maioria dos casos, a evolução é benigna (favorável), mas pode ser necessário o cirurgião pediátrico. Assim, elaborei este pequeno grupo de perguntas para ajudar quem passa por aqui com dúvidas.

O que é o RVU? O refluxo vesico-ureteral é a passagem de urina da bexiga para os ureteres. Os ureteres são dois tubinhos que trazem a urina desde o rim até à bexiga. Em condições normais, depois de estar na bexiga, um mecanismo de válvula impede que a urina retorne para o ureter. Por uma série de causas – má posição do ureter, presença de um divertículo, cirurgia prévia, pressão intra-vesical (dentro da bexiga) elevada, entre outros – a urina pode refluir da bexiga novamente para o ureter.

[fonte: epharmapedia.com]

 
Quais os sintomas do RVU? A urina que reflui para os ureteres pode chegar até ao rim, aumentando a pressão dentro deste. Isto provoca uma dilatação do seu bacinete, que é uma zona onde se acumula a urina produzida antes de ‘cair’ pelo ureter. Entre de 17-37% das dilatações renais detectadas em ecografias pré-natais devem-se a RVU. As que não são detectadas dentro da barriga da Mãe, serão-o mais tarde na sequência de uma infecção urinária ou cólica abdominal. 25-40% das crianças com pielonefrite (infecção do rim) têm RVU.

Existe ainda uma pequena percentagem de crianças que são diagnosticadas porque um irmão ou um dos pais teve RVU. 30% dos irmãos de crianças com RVU têm também refluxo, pelo que o despiste está indicado.

Quais as consequências do RVU? O perigo do RVU não é tanto para os ureteres, mas sim para o rim. A passagem de urina até ao rim, detriora a função do mesmo por dois mecanismos: 1) o rim não está fisicamente preparado para aguentar com a pressão da urina 2) a urina pode trazer bactérias que infectam o ambiente asséptico do rim. Através de exames de imagem podemos ver a quantidade de urina que reflui até ao fim classificar o grau do RVU (ver mais à frente), ver se ele é passivo e/ou activo (durante o enchimento da bexiga ou só quando esta contrai) e se é uni- ou bilateral (de um ou dos dois lados). Quanto maior o grau de RVU, maior a probabilidade de desenvolvimento de insuficiência renal.

[fonte: tipdisease.com]

Como se diagnostica? Seja por causa de uma infecção urinária, seja por uma dor abdominal ou mesmo porque dentro da barriga da Mãe já haveria a dilatação renal, o primeiro exame que levantará a suspeita de RVU é a ecografia renovesical (rim e bexiga). Na ecografia, consegue-se ver dilatação do bacinete (mesmo que ‘piélica’) e ver como está o parênquima renal (os tecidos funcionais). Radiologistas mais experientes darão uma caracterização do ureter e a presença ou ausência de alterações da bexiga compatíveis com RVU.

Para confirmar a presença de RVU, dever-se-á realizar uma CUMS (cistourografia miccional seriada). Este palavrão serve para dizer que serão feitos Rx à medida que se enche a bexiga da criança e a esvazia. Para isso, a criança será algaliada para se introduzir um líquido contrastado (que ‘tinge’ o Rx). CUMS é o exame ideal para nos mostrar o grau do RVU, para além de permitir um maior detalhe anatómico e a caracterização da uretra.

 [fonte: nature.com]

É frequente também pedir-se uma cintilografia com DMSA (dimercaptosuccinic acid). Este agente nuclear permite avaliar a função renal e documentar a presença de cicatrizes renais.

Como se trata o RVU? O RVU pode resolver com o tempo. O crescimento da criança pode alterar a forma como os ureteres se implantam na bexiga, curando espontaneamente o refluxo. Tendo isto em mente, nos graus mais ligeiros, em que nem a ecografia nem o DMSA mostram cicatrizes renais, pode-se instituir uma antibioterapia profilática para manter o rim asséptico e ir vigiando (com ecografia, CUMS, DMSA). Nos graus mais graves, ou onde existe uma anomalia anatómica evidente, ou onde se mantêm as infecçõess urinárias apesar da antibioterapia dever-se-á ponderar a necessidade de cirurgia. Como é óbvio, é preciso juntar toda a informação clínica e imagiológica, pois cada decisão será individual.

Há 2 anos (ainda eu estava no Centro Hospitalar do Porto) publicámos no Journal of Pediatric Urology os nossos resultados com uma técnica minimamente invasiva. Através da introdução de um cistoscópico pea uretra (não há uma única cicatriz na pele) injecta-se um produto não absorvível (Dx/HA) por baixo do ureter afectado. Com a elevação do meato ureteral conseguimos curar 93.5% dos doente com diferentes graus de refluxo. Nos restantes, fizemos a cirurgia ‘aberta’ clássica. Esta consiste na reimplantação dos ureteres.

 [fonte: nature.com]

Explicações e dicas para iniciação ao ski

Serve o presente texto para responder às interrogações de uma leitora no post sobre a nossa ida a Andorra com o JM. Se a iniciação do pequeno no ski tinha corrido bem? Qual seria a idade ideal para começar? Começando pelo fim, ao que sei a maioria das estâncias têm aulas de iniciação apartir dos 4 anos. Algumas terão aulas mais cedo, apartir dos 3 anos, mas julgo que a título individual. Isto prende-se com duas coisas essenciais: 1) a capacidade física (misto de força e agilidade) para a criança se equilibrar e manter os pés na posição correcta e 2) a capacidade de cumprir ordens e respeitar movimentos sequenciais algo complexos, como ‘põe os pés em forma de pizza, agora aponta a mão para o topo da mantanha’, etc.

A primeira é óbvia. Uma criança que vai começar a esquiar precisa não só de se colocar de pé em segurança como precisa ter força suficiente para colocar os pés em cunha para travar e robustez suficiente para levar com o impacto das quedas. Acredito que a maioria crianças tenham estas capacidades físicas mais cedo que os 4 anos (e até antes dos 3 anos). O centro de gravidade dos pequenos é mais próximo do chão, pelo que a física trabalha em favor deles. Ou seja, equilibram-se com mais facilidade que os adultos e as quedas têm menos impacto/energia. Isto justifica o facto de não se magoarem (tanto).

A segunda condição acaba por ser a mais limitante. É entre os 3 e os 4 anos que as crianças desenvolvem a capacidade de cumprir as ordens complexas com uma sequência lógica e de repetir essa sequência a pedido de um professor (ou dos pais). Daí ser muito difícil iniciar um desporto a sério (qualquer que ele seja) antes desta idade. Antes desta capacidade de compreender e obedecer a sequências de movimentos repetidos que exigem alguma perícia física, a iniciação passa por brincadeiras mais ou menos aleatórias apenas para treinarem os movimentos que lhes serão mais úteis quando eles crescerem. Mais, a criança deverá ter a capacidade de receber a ordem, perceber o que lhe é pedido e ter vontade de cumprir. Nem sempre estas 3 características estão presentes (mesmo em crianças que já atingiram os 4 anos), mas sem elas dificilmente se conseguirá ensinar a prática de um desporto. No fundo, cabe aos pais avaliar a maturidade do seu rebento e perceber se a criança está preparada ou não.

Nesta primeira semana do JM esquiador, o rapaz mostrou-se fisicamente capaz de descer as pistas e aguentar com as quedas. Também mostrou entusiasmo em aprender, adorou simular o avião que ora levantava uma asa para virar para um lado, ora levantava a outra para virar para o outro e queria evoluir muito rapidamente (se calhar, demasiado rapidamente). Os professores que foram connosco mostraram ter uma paciência inesgostável, porque o pequeno a cada passo fugia-lhes entre as pernas. Queria descer a montanha «muito rápido». Destemido, não se calou enquanto não o levaram para a pista de saltos. No último dia, entre o olhar babado do pai e o olhar apavorado da Mãe, o JM lá foi para uma zona de saltos própria de iniciados e fez um figuraço. Acho que teve uma semana que jamais esquecerá (e nós também não).

Resumindo, guardem alguns conselhos e regras de segurança que vos poderão ser úteis para a próxima época de neve.

  1. Será a idade ideal? Todo este texto é sobre isso. Entre os 3 e os 4 anos, a criança poderá estar fisica-, pscicologica- e socialmente apta para iniciar a prática de um desporto de neve, mas não são todos iguais. Cabe aos pais perceber se eles são capazes e se estão motivados para tal.
  2. A criança deve estar bem físicamente. Isto é, uma criança bem nutrida, com uma compleição física saudável está protegida contra as quedas. Se a criança esteve recentemente doente, será má ideia sujeitá-las às agressões físicas que serão o frio e as inevitáveis quedas.
  3. As agressões físicas motivadas pelas quedas evitam-se com o uso de equipamento adequado. Este incluí vestuário  resistente e impermeável, luvas e capacete (indispensável).
  4. A protecção solar da pele e dos olhos é fundamental, mesmo quando o tempo parece encoberto. A neve é um potente reflector das radiações solares. (Podem ler aqui sobre protectores solares e aqui sobre óculos de sol.)
  5. Oferecer água constantemente. O excesso de frio e o excesso de calor propenciam à desidratação, principalmente quando estamos a praticar desporto.
  6. Ensinar convenientemente. Apesar de conhecer muitos pais que se sentem à vontade para ensinar os filhos a esquiar, eu acho que não há nada como os profissionais/professores certificados. Para além de eles aprenderem mais rapidamente, assimilam regras fundamentais de como cair bem, protegerem-se dos outros nas pistas, etc.
  7. Mil olhos serão sempre poucos. Quem já esteve numa instância já sentiu que facilmente se perde dos amigos. Os fatos e os capacetes tornam-nos todos muito iguais. Nos momentos de maior confusão, facilmente perdemos de vista os pequenos e eles também têm dificuldade em distinguir-nos no meio da multidão- E isto tanto é válido para as pistas, como para os restaurantes, lojas, parques, etc.
  8. A poderem escolher, tentem viajar no final da época. Para além das pistas estarem mais vazias, o tempo é mais quente. Nas férias da Páscoa, a neve está com menos qualidade para os grandes esquiadores, mas para os iniciados serve perfeitamente e, com o ‘degelo’ até fica mais fofa.

Cirurgia endoscópica transluminal por orifícios naturais, no tórax e híbrida?!

Sobre o doutoramento propriamente dito, o título estranha-se: Hybrid thoracic NOTES: a translational research project. NOTES significa natual orifice transluminal endoscopic surgery, ou seja, cirurgia endoscópica transluminal (que fura um órgão) por orifícios naturais. Confusos? É normal. Mesmo os colegas médicos pedem-me muitas vezes para explicar exactamente o que andei a estudar (alguns usam o termo «o que andas para aí  a inventar»). Este texto tenta responder de uma forma muito simplista a essas interpelações.

Basicamente, temos endoscópicos que fazem as famosas endoscopias digestivas altas e as colonoscopias que podem ser usados por orifícios naturais (no caso da minha tese era a boca, mas poderia ser o ânus, a uretra ou a vagina), para perfurar um órgão e dessa forma aceder à cavidade abdominal e/ou torácica sem fazer uma cicatriz na pele. No caso, e como queria fazer cirurgia torácica, perfurámos os esófago, para acedermos ao pulmão, ao coração, ao timo e a todas as estruturas que estão dentro da cavidade torácica.

Isto não é novidade, em ambiente experimental, desde 2007, mas até à data do início do meu doutoramento, em 2010, apenas procedimentos simples tinham sido tentados. Como devem compreender furar o esófago de dentro para fora não é fácil e comporta o risco de perfurar estruturas vitais como o coração, a aorta, os brônquios, etc. Daí, a introdução do conceito de cirurgia híbrida, isto é, para além da cirurgia transesofágica (thoracic NOTES) achámos que, se colocássemos uma pequena câmara de toracoscopia através da parede torácica, a introdução do endoscópico pelo esófago seria mais segura. Estaríamos a fazer uma ferida (e consequente cicatriz) na pele, mas, se queríamos fazer cirurgia mais complexa, teríamos sempre que contar com esta cicatriz, pois todas as cirurgias torácicas complexas exigem a colocação de um dreno pós-operatório (nem que seja por umas horas). No fundo, estaríamos a aproveitar uma ferida inevitável para fazer cirurgia torácica por orifícios naturais (hybrid thoracic NOTES).

O desafio destes 3 anos foi realizar procedimentos altamente complexos com sobrevida do animal de experiência. Fizemos lobectomias pulmonares, laqueação do apêndice auricular esquerdo (cardíaco) e timectomia, utilizando o endoscópio flexível introduzido pelo esófago e o toracoscópio introduzido pela pretensa ferida do dreno torácico. Pela semelhança anatómica com o humano, utilizámos o porco como modelo. Para as mentes mais sensíveis ao bem-estar animal (eu sou uma dessas) garanto-vos que todos os ‘doentes’ foram convenientemente anestesiados e analgesiados (sem dor) por uma veterinária credenciada. Para mais, utilizámos (utilizamos sempre) o número mínimo possível de animais, para provar o nosso objectivo. Os resultados que fomos obtendo foram excelentes e provam que este tipo de cirurgia poderá não estar tão longe quanto isso da prática clínica. Deixo-vos a apresentação que fiz: estão lá esquemas e vídeos para perceberem melhor em que consistiram as cirurgias, estão lá resultados, artigos de outros grupos de investigação a trabalhar na mesma área e até algumas experiências interessantes em humanos (vejam aqui o que é o POEM).

Acho que como explicação breve já chega. Assim que a tese completa estiver disponível no repositório da Universidade do Minho, aviso-vos para poderem ler na íntegra. Entretanto, se quiserem ver os artigos completos, podem consultá-los através da Pubmed. Como seria de esperar (cof! cof!) o candidato foi aprovado (não é atribuída uma nota de 0 a 20). Sem falsas modéstias (antes pelo contrário), acho que quer a apresentação quer a discussão correram muito bem. Saí muito satisfeito com o meu trabalho e pude ir de férias descansado. Deixo-vos uma fotografia do grande dia.

O júri e o julgado (da esquerda para a direita): Prof. Doutor Tiago Henriques-Coelho, Prof.ª Doutora Carla Rolanda, Prof. Jorge Correia-Pinto, Prof.ª Doutora Cecília Leão, (agora já) Prof. Doutor João Moreira Pinto, Prof. Doutor Adelino Leite-Moreira, Prof. Doutor Tetsuya Ishimaru e Prof. Doutora Maria Francelina Lopes.

Está quase…

Daqui a dois dias defenderei a minha tese de doutoramento. O título é inglês ‘Hybrid thoracic N.O.T.E.S.: a translational research project’. N.O.T.E.S. é natural orifice transluminal endoscopic surgery, que, traduzindo dá qualquer coisa como cirurgia endoscópica transluminal por orifícios naturais, ou seja, andamos a tentar fazer cirurgias no tórax sem deixar cicatrizes na pele, indo por orifícios naturais. A boca é o mais óbvio, mas há outros. É difícil, mas caminhamos para lá…

As provas serão públicas, pelo que estão todos convidados a aparecer. Será na Quinta-feira, dia 10 de Abril, às 10h30 no Anfiteatro 0.01 da Escola de Ciências Médicas da Universidade do Minho (Campus de Gualtar, Braga). O jurí será constituído por:

  • Prof.ª Doutora Cecília Leão, Prof.ª Catedrática e Presidente da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho, 
  • Prof. Doutor Adelino Leite-Moreira, Professor Catedrático de Fisiologia e Cirurgia Cardiotorácica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, 
  • Prof. Doutor Tetsuya Ishimaru, Assistant Professor from the Department of Pediatric Surgery, University of Tokyo, 
  • Prof. Doutora Maria Francelina Lopes, Professora Auxiliar convidada de Cirurgia Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra,
  • Prof. Doutor Tiago Henriques-Coelho, Professor Auxiliar convidado de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto,
  • Prof. Jorge Correia-Pinto (Orientador), Professor Catedrático de Fisiologia e Cirurgia Pediátrica da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho,
  • Prof.ª Doutora Carla Rolanda (Co-orientador), Professor Auxiliar convidada de Gastrenterologia da Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho.
Eu nem sou muito de stressar, mas o nervosismo vai crescendo… Tenho estado a ultimar a apresentação e a estudar MUITO. Salva-se o facto de entrar de férias logo a seguir. Só volto lá para dia 22. Tentarei vir aqui, quando puder, mas não estranhem a falta de notícias, por favor.

O Autismo, mitos e controvérsias!

A convidada especialista desta semana é minha amiga há muiiiiiitos anos (antes de eu ser médico, antes de ela ser psicóloga). A Dra. Ana Aires Martins é psicóloga clínica. Actualmente exerce no Centro Integrado de Psicologia e Saúde Mental. Tem especialização (e vasta experiência) na intervenção cognitivo-comportamental em contexto escolar, hospitalar e privado. Especializou-se em Neuropsicologia da Infância e Adolescência. Quem melhor para responder ao desafio da Sofia e escrever sobre o Autismo? Está tudo devidamente resumido no texto que se segue. Partilhem, porque conhecer é não descriminar (e até ajudar).

O Autismo, mitos e controvérsias!
Ana Aires Martins

O autismo é uma perturbação neurodesenvolvimental, ou seja, uma perturbação global do desenvolvimento com uma base biológica cerebral. Sabe-se que os fatores genéticos parecem ter um papel relevante, mas alguns estudos indicam que é muito provável que a causa não seja meramente genética e que outros fatores, como o ambiente, possam ter influência no seu aparecimento e na gravidade com que se manifesta. A variabilidade fenotípica das perturbações do espectro do autismo, refletem provavelmente a interação de múltiplos genes dentro do genoma individual e a existência de diferentes genes e de diferentes combinações de genes nos indivíduos afetados. Os estudos indicam que estas crianças apresentam níveis elevados de serotonina periférica, persistência de reflexos primitivos, macrocefalia e alterações ao nível do eletroencefalograma.

Um dos mitos comuns sobre o autismo é de que as crianças autistas vivem no seu mundo próprio, interagindo apenas com o ambiente que criam. Concomitantemente, existe também o mito de que a criança autista tem que ter necessariamente um atraso mental. Sabe-se que as perturbações globais do desenvolvimento apresentam défices graves em áreas de funcionamento no processamento de informação. Contudo, pode haver um funcionamento razoável noutras áreas. Usualmente, ocorre uma incapacitação generalizada grave, sendo que a mais conhecida é o autismo. As áreas habitualmente afetadas são: linguagem, interação social, atividades e interesses.

A possibilidade de ajuda e intervenção depende da gravidade e inclui intervenções muito específicas, individualizadas e de processo lento.

Asperger, Autismo, Perturbação de Rett ou Desintegrativa da Segunda Infância?
Das várias perturbações globais do desenvolvimento existentes, os pais podem ficar confusos ao procurar encontrar respostas para a problemática do seu filho. O autismo destaca-se da perturbação de asperger na sua especificidade, ou seja, quando falamos em asperger, falamos igualmente numa perturbação global do desenvolvimento com défice acentuado na linguagem escrita e falada. Em contraste com o autismo, os primeiros sinais ocorrem depois dos três anos de idade. A incapacidade social destas crianças torna-se mais notável com o tempo, ou seja, ao longo do seu desenvolvimento. No que concerne à perturbação de rett, o desenvolvimento da criança é normal até aos cinco meses e a partir dessa altura ocorre a desaceleração do perímetro craniano. Entre os dois e os cinco anos ocorre uma regressão ao nível do desenvolvimento. Contudo, a grande diferença encontra-se ao nível da prevalência, pois esta perturbação ocorre exclusivamente no sexo feminino. Enquanto que as alterações ao nível do autismo se verificam muitas vezes no primeiro ano de vida, a perturbação desintergrativa da segunda infância, aparece como uma grave regressão evolutiva após, pelo menos, um desenvolvimento normal até cerca dos dois anos de vida da criança.

Podemos definir a perturbação autística como uma perturbação que é caracterizada por um défice acentuado na interação e comunicação social, a par de um desenvolvimento acentuadamente anormal, nomeadamente ao nível social. A criança autista, apresenta um reportório bastante restritivo de atividades e interesses. O autismo é uma perturbação crónica mas não degenerativa.

As crianças autistas manifestam dificuldades acentuadas ao nível da interação, raramente manifestam alguma satisfação, apresentam dificuldades em ler e expressar sinais verbais e não-verbais, sendo geralmente desinteressadas.

Ao nível da linguagem, estas crianças não desenvolvem uma linguagem completa e madura, mas idiossincrática e por vezes sem sentido. Frequentemente, a criança autista recorre à linguagem metafórica, apenas compreendida pelos seus cuidadores diretos. Pode ocorrer com frequência a repetição de frases, sem que a criança compreenda o seu significado. A capacidade imitativa e jogo imaginativo estão também comprometidos.

Ao nível dos interesses, a criança autista pode ter algum interesse estereotipado, com dependência rígida de rotinas que não quebram (estão por exemplo muito interessados em datas e números de telefone, etc.). Frequentemente, observa-se uma necessidade muito grande por parte da criança em seguir rotinas, como ir para a escola sempre pelo mesmo caminho, reagindo por norma muito mal a qualquer tipo de alteração.

Ao nível dos movimentos corporais, a criança autista pode apresentar tendência para executar movimentos estereotipados e repetitivos, como bater palmas, estalar os dedos, balançar-se, inclinar-se, etc.

A intervenção com estas crianças, deverá ter sempre em conta a estimulação dos comportamentos sociais , interação no jogo e promoção de formas comunicacionais.

Sinais de Alerta
Existem alguns sinais de alerta que devemos ter em conta quando consideramos que o nosso filho apresenta alguma anomalia ao nível desenvolvimental. Estes sinais subdividem-se em três categorias: comunicação, interação social e comportamento.

  1. Comunicação:
    • Não responde quando se chama pelo nome
    • Não aponta
    • Não diz adeus
    • Tem atraso de linguagem
  2. Interação social
    • Não imita-prefere brincar só (não brinca com as outras crianças)
    • É muito independente (não chama a atenção do adulto)
    • Não tem sorriso social
  3. Comportamento:
    • Relação estranha com os brinquedos
    • Padrão de reatividade sensorial (hiper e/ou hiporeactividade)
    • É opositivo, não cooperante, hiperativo, apático

Autismo – o meu testemunho

Hoje, dia 2 de Abril, celebra-se o Dia Mundial de Conscencialização do Autismo. Há tempos recebi uma mensagem da Sofia, sugeria-me que falasse sobre esta doença. Dizia-me a Sofia: «Gostava tanto que as pessoas pudessem olhar para uma criança diferente, como o meu filho, e que a primeira abordagem não fosse de pena, nem de receio para com os filhos deles.» Aceitei a sugestão e o texto está já encomendado a uma ‘convidada especialista’. Ele aparecerá um dia destes, mas nesta vida tudo tem um preço. Daí, desafiei esta Mãe a deixar o seu testemunho. Eis o resultado.

O meu testemunho
Sofia (Mãe do Tomás)

Ser mãe de uma criança com autismo é em primeiro lugar amar o meu filho com todas as características que o definem, chama-se Tomás, tem 4 anos, e é feliz e bem disposto, adora música e ritmos, brinca muito, dança, adora passear e conhecer locais novos, é inteligente e meigo, é muito sensível. O autismo faz parte dele, mas não o define. Como mãe que sou, apaixonada por ele, não aceitei nem irei aceitar o autismo, destruiu a nossa vida, deixou-nos perdidos e a sofrer atrozmente, com o medo do futuro, com todas as dificuldades para conseguir concretizar situações que a qualquer outro pai e criança não é exigido, por ser naturalmente conseguido. A essas dificuldades superadas chamamos de vitórias. Tudo à volta fica iluminado nesses dias de vitórias! Mas não só, também quando dança, quando repetiu pela primeira vez ‘mamã’, quando entrou para a escolinha, quando abraça o pai ao chegar a casa, quando se ri sem parar, quando aceitou os óculos e quando começou a usar o dedo indicador para carregar num botão. Traz-nos felicidade e sorrisos todos os dias, vivemos para ele e para a sua felicidade.

Toda a realidade em que vivemos, não é feita nem pensada na diferença. Não há apoios do Estado nem do SNS. Todas as terapias, apoios e  acompanhamento médico são suportados por nós pais, todo o trabalho de inclusão, quer seja na escola ou noutra actividade, é sempre feita por nós, para que aceitem a diferença de forma natural, tendo sempre a atenção que todas as crianças têm direitos e diferentes formas de adquirir conhecimento e de crescer. E todas, todas têm o direito de ser respeitadas na sua diferença.

Para mim ser mãe de uma criança com autismo é lutar todos os dias para que o amem, para que ele ganhe autonomia para saber viver neste mundo que não foi feito a pensar nele, é criar condições para que se sinta feliz, é ser surpreendida por ele, é dançar e cantar lenga-lengas, é ensiná-lo a conhecer, é brincar e brincar e brincar, é amá-lo acima de tudo.

Obrigada aos avós e tio, à Olímpia, à Solange e às terapeutas que todos os dias o amam, obrigada a todos os meninos da escola que o ajudam a crescer!

Dia 2 de abril – Dia Mundial da Consciencialização do Autismo, vistam-se de azul, pesquisem e aprendam mais um pouco.

Por falar em (boas) equipas

Ontem tivemos um caso bem difícil no hospital de Braga. E foi com a ajuda de uma colega que não estava de serviço que conseguimos ultrapassar a falta de acessos venosos de uma menina que precisa de muitos antibióiticos e daqueles que só podem se administrados pelas veias. A Dra. que não quer ser identificada abdicou de uma tarde de descanso para juntos colocarmos o quase impossível catéter venoso central. Colegas assim fazem-me acreditar numa Medicina melhor, mais humana.

Sem querer entrar em pormenores, a criança em causa sofre de uma doença de pele terrível. A epidermólise bolhosa é uma doença genética e incurável. Toda a pele ‘rebenta’ em bolhas como fosse uma queimadura extensa, pelo que tem uma grande tendência em ganhar infecções cutâneas de muito difícil resolução. É uma doença que causa um grande sofrimento a estas crianças. Chegado a casa só me apeteceu apertar os meus filhos com muita força e não largar mais…

*para terem uma ideia do que esta doença é, podem fazer uma pesquisa nas imagens do google (não aconselhado a pessoas mais sensíveis). Também podem visitar (e talvez ajudar) a Associação Portuguesade Epidermólise Bolhosa.

Actualizado às 19h46.

Alergia às Proteínas do Leite de Vaca – a nossa história

A Marta Coelho é amiga cá de casa. É arquitecta e, como perceberão pelo texto, tem um filho quase da mesma idade do JM. A Marta e a nossa Mãe viveram a aventura de uma primeira gravidez juntas, o que daria uma série de posts engraçados. A encomenda que fiz à Marta foi de um testemunho na primeira pessoa da sua experiência como Mãe de um filho com Alergia às proteínas do Leite de Vaca (APLV). Achei que era altura de trazer ao blogue os conselhos de Mãe para Mãe que tantas vezes superam o que os médicos têm para dizer. Neste texto há recomendações de websties, bolachas e doces especiais e até uma receita de bolo de chocolate. Tudo para contornar a APLV.

Alergia às Proteínas do Leite de Vaca – a nossa história
Marta Coelho

Chamo-me Marta, sou casada, arquitecta de profissão e mãe de um menino desde Maio de 2010. O meu filho, já com quase quatro anos tem Alergia à Proteína do Leite de Vaca (APLV)… Como sei por experiência própria, a Alergia Alimentar pressupõe uma aprendizagem sobre o tema, pois as mães numa fase inicial não sabem o que fazer e as dúvidas são tantas que se sentem à deriva. Por isso, aqui vos conto um pouco da história de aventuras que eu e o meu filho passamos desde os seus primeiros meses de idade e que ainda hoje perduram.

Tinha o João cerca de 3 meses quando descobrimos a alergia… a partir dessa data, tudo mudou! Por indicação médica, uma vez que o leite materno não era suficiente para as necessidades alimentares do meu filho, introduzimos o suplemento alimentar. Não era a primeira vez que o tomava. Já antes, com poucos dias de vida, tinha-lhe sido oferecido leite, que não o materno, no hospital onde o tivera. Mas nessa altura nada tinha acontecido. Foi em casa, aos 3 meses, que ao alimenta-lo com leite que não o meu, vi o corpo do meu filho ficar todo vermelho, tipo um escaldão do sol… No dia a seguir voltei a dar-lhe o suplemento e passado 5 minutos ele ficou muito pior que a noite anterior. Foi então que o médico suspeitou da APLV! Aos 6 meses realizou-se exames ao sangue, IGE específico ao leite, confirmando a ALERGIA.

A verdade é que esta notícia foi um choque. Não sabia como reagir, o que pensar. O médico foi ajudando: orientou para o tipo de leite adaptado que o João deveria tomar, e no processo de diversificação alimentar, disse-me como escolher as papas, bolachas e iogurtes para o meu filho. Nomeadamente para ler sempre os rótulos dos alimentos, medicamentos, cremes, etc pois existia a possibilidade de ele ser alérgico a outros tipos de alimentos para além do leite e, mais tarde uma possível necessidade de dessensibilização alimentar quando este fosse um pouco mais velho.

À medida que o João crescia não podia comer nada com leite ou sequer com vestígios. Durante a nossa a aprendizagem descobrimos que o meu filho fazia alergia de contacto. É um menino que não pode ser beijado ou tocado com mãos que não sejam previamente bem lavadas! Mais tarde, com 1 ano e meio, o João fez uma reacção anafilática. Esta, é do ponto de vista da doença alérgica a reacção mais grave e ameaçadora da vida que algúem pode ter. Nunca descobrimos o que a desencadeou, mas descobrimos neste contexto, com novos exames ao sangue que este era também alérgico ao ovo, à amêndoa e ao pêlo de cão e gato. Devido à gravidade da alergia, passou a usar um Kit de Emergência com anti-histamínico, corticóide e uma caneta de adrenalina, que o acompanha sempre para todo o lado que ele vá, na sua mochilinha.

Os primeiros meses após a descoberta da alergia foram marcados por momentos angustiantes, assustadores e muitas dúvidas… desde a descoberta de produtos sem leite, à aventura do supermercado em ler todos os rótulos (alimentação, cremes, shampoos, medicamentos) ao convívio com as outras crianças, os baloiços, o cinema, as festinhas de aniversário e, claro, o grande dilema, A ESCOLA.

Hoje, o João tem quase 4 anos e continua altamente alérgico. Mas, é de notar que é uma criança muito feliz!!! Não se sente diferente das outras crianças e muito menos excluído. Aceita, respeita e tem consciência das suas restrições alimentares porque enfrentámos o problema de uma forma natural, transparente e frontal. O facto do João também estar a crescer ajuda muito: o João encara a doença com naturalidade e sem qualquer tipo de revolta. É uma criança normal afinal de contas. E sei que é assim que se sente. Actualmente encontra-se a fazer dessensibilização ao ovo. É uma festa para ele sempre que come um pedacinho de ovo cozido. E para nós também…

Existem imensos produtos para este tipo de crianças desde bolachas, chocolates, iogurtes, bebida de soja de vários sabores, queijos vegan, gomas, rebuçados, pipocas, batatas fritas, salsichas, fiambre, pão, gelados, etc. O João é uma criança que come de tudo, croissants, natas, bolos, gelatina, gelados, quiche, empadas, etc… não existe nada que ele não coma!!! Bem entendido, desde que não contenha leite ou vestígios, bem como produtos com ovo e frutos secos. Claro que muitas das coisas são cozinhadas em casa!!!

Por exemplo estas são as bolachas que o João adora e são bastante económicas (sem leite, sem ovos e frutos secos)!!!!

Só quem vive de perto esta doença é que percebe o “drama” e a “gravidade” da APLV. É entrar num mundo desconhecido e a princípio assustador. Hoje aprendi a conviver com as dificuldades… e tornou-se comum e normalíssimo! Os nossos pequenos são crianças normais que precisam somente de mais alguns cuidados especiais baseados essencialmente na prevenção… O seu dia-a-dia tem de ser planeado para não sermos apanhados de surpresa.

A ida para algum lugar – para a escola, passeio, a casa de algum amigo –  pressupõe levar sempre a alimentação de casa, um sabão adequado para o lavar em caso de contacto acidental com algum alergénio, uma fralda de pano para o limpar, levar sempre água límpida e o kit de emergência médica com instruções de utilização.

Aqui vai uma receita óptima de bolo de chocolate sem leite nem ovos: 3 Chávenas (chá) de farinha com fermento; 2 Chávenas (chá) de açúcar; 1 Chávena (chá) de chocolate em pó; 1 Chávena (chá) de óleo; 2 Chávenas (chá) de água morna; 1 Colher (sopa) de fermento. Para a calda: 2 Colheres (sopa) de açúcar; 2 Colheres (sopa) de chocolate; 2 Colheres (sopa) de água; 1 Colher (sopa) de margarina (marca Alpro).

Com uma colher de pau misturar todos os ingredientes secos peneirados. Acrescentar os ingredientes líquidos e misturar muito bem. Forrar uma forma com papel vegetal. Quando cozido o bolo retirar e regar a calda por cima e peneirar com açúcar em pó.

Por experiência pessoal, descobri que o Hipermercado Continente tem alguns produtos adequados à alimentação de crianças com alergia ao leite de vaca, designada pela “Área Viva”. Igualmente a própria marca “Continente” inspira muita confiança porque estão muito bem catalogados.

Para quem estiver interessado em procurar apoio mais específico dos profissionais de saúde, a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto  (FMUP) promove uma palestra denominada “O essencial sobre a Alergia Alimentar”, no dia 11 de Abril.   A entrada é livre mas a inscrição é obrigatória e deve ser realizada através do site http://caa2014.weebly.com/inscriccedilotildees.html.

Coloco-vos aqui também alguns sites úteis com todo o tipo de produtos:
http://www.alpro.com/pt
https://www.plamilfoods.co.uk
http://www.efeitoverde.com
http://www.celeiro-dieta.pt
http://vista-se.com.br/redesocial/surpreenda-sua-mae-com-um-lindo-bolo-sem-ovos-7-bolos-veganos-de-cair-o-queixo/