Cirurgião pediátrico e/ou cientista maluco

São nestes momentos que eu tiro o chapéu aos professores do ensino secundário. Manter uma turma de adolescentes do 9º ano atentos durante uma hora não é tarefa fácil. E eu que só tinha de apresentar o nosso laboratório de ciências cirúrgicas.

No âmbito da semana aberta à comunidade do ICVS – ABC da Cirurgia, fui falar ao Agrupamento de escolas Prof. João de Meira, em Guimarães. O ICVS – Instituto de Ciências da Vida e da Saúde – é o laboratório da Escola de Ciências da Saúde, Universidade do Minho. Tem um vídeo institucional muito catita com que abri a apresentação.

[fotografia gentilmente cedida pela professora Manuela Nunes do Agrupamento de escolas Prof. João de Meira, Guimarães]

Calados e bem comportados até estiveram, mas acho que não convenci ninguém a enveredar pela carreira de cirurgião pediátrico nem de ‘cientista maluco’.

Ébola – breve explicação para pais

Um dos temas quentes das últimas semanas tem sido o ébola. Tenho visto muitos pais preocupados com este vírus. De facto, o vírus ébola tem uma alta taxa de mortalidade e o facto de dar sintomas demasiados inespecíficos (até à fase em que aparecem as hemorragias, os sintomas são muito parecidos a uma gripe normal) deixa os pais preocupados com uma sensação de impotência perante uma ameaça que pensávamos estar restrita aos países africanos. A verdade é que só existe um caso de transmissão na Europa (a já famosa auxiliar de enfermagem) e, no resto do mundo ocidental, os casos que apareceram são também profissionais que tratavam os doentes. A estratégia da OMS para controlar a epidemia na sua origem parece estar a resultar. Mas pai que é pai (ou Mãe que é Mãe) preocupa-se, pelo que resolvi estudar mais a fundo e (claro está!) escrever uma breve explicação. Eu acredito que ter uma informação clara do que se está a passar é meio caminho para as pessoas ficarem um pouco mais tranquilas.

 
[fonte: huffpost.com]

O vírus ébola provoca uma infecção sistémica (vírica), pelo que tem os sintomas de tantas outras viroses. Inicialmente, febre, fraqueza e dores musculares, dores de cabeça ou de garganta e vómitos. Só mais tarde, como o avanço do processo infeccioso, aparecem hemorragias internas e externas, insuficiência renal e hepática, que são quase sempre fatais.

O vírus ébola transmite-se entre pessoas através do contacto (pensa-se que basta o contacto da pele) com fluídos corporais (sangue, urina, suor, secreções, etc.) de doentes. E esta informação é muito importante. Ao contrário de outras viroses que se propagam entre indivíduos assintomáticos (ou seja que aparentam não estar doentes), o ébola transmite-se quando há contacto com um doente sintomático, isto é, quando o doente apresenta sinais e sintomas característicos da doença (ver no parágrafo anterior). Isto facilita o trabalho das autoridades de saúde, porque (1) o próprio doente que suspeita ter ébola pode isolar-se e evitar contágios (2) todas as pessoas que estiveram com o ele quando ele já manifestada sintomas podem ser estudadas.

Outra característica que facilita o combate ao vírus ébola é o facto do seu período de incubação, ou seja, o tempo que vai desde o contacto com uma pessoa infectada até à manifestação da doença ser relativamente fixo não ultrapassa os 21 dias. Isto permite aos médicos terem a certeza que uma pessoa com sintomas de gripe que não teve contacto com um doente com ébola nos últimos 21 dias não tem ébola. Assim, só deve pensar se você ou o seu filho tem ébola se estas duas condições se verificarem:

  1. Sintomas gripais como: febre, fraqueza e dores musculares, dores de cabeça ou de garganta e vómitos.
  2. Viagem a um dos países afectados nos últimos 21 dias. São eles: Guiné Conacri, Serra Leoa, Libéria, Nigéria e Mali.*.

Se uma destas não se verificar, esqueça. Provavelmente trata-se de uma gripe comum. Não vá para o hospital, porque a gripe trata-se em casa: antipirético, hidratação quanto baste e repouso. Se as duas condições se verificarem, NÃO VÁ PARA O HOSPITAL.É muito importante passar esta informação: se suspeita ter ébola deve ligar para a Saúde 24 (808 242424). O INEM irá buscá-lo a si e ao seu filho a casa com as medidas de isolamento correctas.

 
[fonte: dgs.pt]

Em jeito de conclusão deixo aqui algumas ligações, para quem quiser saber mais sobre o ébola. O primeiro é o explicador do observador. Cada vez gosto mais deste jornal online. É de uma qualidade acima da médica. O El País (espanhol) tem também duas infografias muito interessantes sobre o tema: El ciclo del ébola e Casos y tratamiento de ébola en España. Para informações sobre o ébola em Portugal, a DGS oferece informação técnica sempre actualizada e reponde a muitas perguntas aqui. Por fim, deixo-vos um vídeo produzido pela CNN que, embora em inglês, permite ficar a conhecer o ébola em 2 mintuos.

*A pergunta que algumas pessoas colocam colocam é: como sei que eu ou  um dos meus filhos não tive em contacto com ninguém com ébola que não sabia que não tinha ébola? Primeiro, se não viajaram para fora de Portugal, pode ter a certeza que não teve. Portugal não teve nenhum caso confirmado de ébola. Segundo, se viajaram para fora do país e tem medo que tenha tido contacto com alguém em escala no mesmo aeroporto, não se deve preocupar. Todas as pessoas originárias ou que tenham feito escala nestes países afectados são criteriosamente monitorizadas para sinais de ébola, assim que colocam um pé na Europa. Se houver um caso suspeito de ébola, ele é isolado imediatamente. Não anda a passear pelo aeroporto. Mais, o trajecto dessa pessoa é estudado e todas as pessoas que possam ter contacto com esse doente são avisadas e eventualmente testadas para a hipótese de ter a doença. Se não recebeu nenhum telefonema nos últimos 21 dias, pode ficar tranquilo. As únicas pessoas que devem ficar mesmo preocupadas são aquelas que estiveram elas próprias em países afectados. 

Obrigado Jonas Salk!

Repararam no doodle de hoje? É um agradecimento a Jonas Salk por ocasião do centésimo aniversário do seu nascimento. Este médico investigador inventou a vacina contra a poliomielite. Esta vacina faz parte do nosso plano nacional de vacinação há várias décadas e surgiu numa altura em que a doença afectava cerca de 58000 pessoas por ano (só nos EUA). O vírus da poliomielite infectava sobretudo crianças, deixando sequelas neurológicas graves (paralisias) na maioria e matando muitas outras. Quando em Abril de 1955, Jonas Salk anunciou que a vacina era eficaz e segura para ser dada a toda a população, perguntaram-lhe quem tinha a patente. Ele respondeu:«There is no patent, Could you patent the sun?». Segundo a revista Forbes, a vacina valeria 7 biliões de dólares, se tivesse sido patenteada. Com esta decisão, Jonas Salk, salvou (e ainda hoje salva) milhões de crianças por todo o Mundo. Como contabilizar estas vidas em biliões de dólares?

[fonte:amazon.com]

Moleirinhas, craniossinestoses e plagiocefalia posicional – o que devemos saber

Numa tentativa de retomar a rúbrica dos convidados especialistas, convidei a Dra. Joana Oliveira, neurocirurgiã pediátrica que trabalha no Hospital de São João e no Hospital da Arrábida. É Mãe de uma menina de 8 anos. Pedi que me respondesse a algumas perguntas que me têm chegado ao e-mail sobre as deformidades do crânio. O texto está uma categoria e parece que a maioria das dúvidas sobre as moleirinhas, as plagiocefalias posicionais e as craniossinestoses ficarão esclarecidas. 

Craniossinestoses
Joana Oliveira

A craniossinostose é uma condição patológica que resulta do encerramento precoce de uma ou várias suturas cranianas, podendo, para além da questão estética, levar ao aparecimento de complicações neurológicas, mais frequente quando existe envolvimento de mais de uma sutura.

O crânio desenvolve-se a partir da interposição óssea ao longo das linhas de sutura, assim, quando uma sutura encerra precocemente, o crânio não cresce na direção perpendicular a esta sutura, resultando numa deformidade do crânio, que variam de aspecto conforme a sutura envolvida.

O normal é que, ao nascer, o recém-nascido apresente os ossos do crânio separados por suturas e duas aberturas no topo, denominadas fontanela anterior e posterior, conhecidas popularmente como moleirinhas. As principais funções dessas estruturas são: facilitar a passagem do feto pelo canal vaginal no momento do parto e permitir o crescimento adequado do cérebro. Posteriormente estas aberturas fecham-se naturalmente.

O formato da cabeça pode variar de indivíduo para indivíduo, de acordo com características familiares. Aquando do nascimento, é  comum o recém-nascido apresentar deformações na calota craniana que são consequentes da compressão no parto ou da utilização de auxílios no parto (ventosa). Contudo, dentro do primeiro mês a cabeça retoma o formato normal.

Durante o primeiro ano de vida, o cérebro atinge metade do tamanho que terá quando adulto e finaliza o seu crescimento no final do segundo ano de vida. A fontanela anterior é maior do que a posterior e também é a que encerra posteriormente, ocorrendo por volta do 9° ao 15° mês de vida, enquanto que a fontanela menor normalmente encerra no 2° mês de vida.

As craniossinostoses dividem-se em sindrómicas (associadas a síndromes e frequentemente envolvem mais que uma sutura) e as não sindrómicas. A grande maioria das craniossinostoses são esporádicas (não sindrómicas). Esta patologia ocorre mais frequentemente em crianças do sexo masculino.

O diagnóstico é realizado por meio do exame físico da cabeça do recém-nascido, juntamente com o exame radiológico e avaliação por neuroimagem. Estes exames evidenciam o encerramento da sutura e as possíveis malformações dos ossos da face e/ou do sistema nervoso.

Conforme a sutura envolvida existem diferentes tipos de craniossinostoses. Assim , existem as seguintes craniossinostoses:

  • Escafocefalia (sutura sagital): 40-55 %
  • Plagiocefalia anterior (sutura coronal, unilateral): 20-25%
  • Braquicefalia (sutura coronal, bilateral): 10%
  • Trigonocefalia (sutura metópica): 5-15%
  • Plagiocefalia posterior (sutura lambdóide): 0-5%

Todas as crianças com suspeita de craniossinostose devem ser avaliadas pelo neurocirurgião pediátrico. O tratamento das craniossinostoses é na grande maioria das vezes cirúrgico, no qual se cria espaços ou suturas entre os ossos do crânio. A avaliação pelo neurocirurgião determinará o melhor timing, sendo geralmente realizada antes do ano, ano e meio de vida.

A cirurgia é necessária por basicamente 3 motivos: risco de aumento da pressão dentro da cabeça e sofrimento cerebral que pode levar a regressão do desenvolvimento neuro-psicomotor; alterações oftalmológicas que podem cursar com perda de visão; e por estética. Este último motivo é de extrema importância, mesmo que de maneira inicial possa ser relevado pelos familiares, pois estudos psicológicos mostram que as crianças sofrem com perda da auto-estima e dificuldade de aceitação pela sociedade.

A cirurgia apresenta bons resultados em mais de 80% dos casos e técnicas modernas de anestesia, e do próprio procedimento permitem que este seja feito com segurança, apesar da pouca idade da maioria dos pacientes.

A craniossinostose posicional – plagiocefalia posicional – é a presença de uma deformidade que se assemelha a uma das formas descritas, não havendo contudo encerramento da sutura. A grande maioria das plagiocefalias posicionais não necessitam de tratamento cirúrgico e corrigem com o crescimento do cérebro e as seguintes medidas:
  • Mudanças de posição de dormir
  • Correção torcicolo (nos casos em que há diagnóstico de torcicolo congénito)
  • Almofada ortótica
  • Capacete ortótico
Quando há suspeita de deformidade craniana a avaliação e orientação pelo Neurocirugião pediátrico determinará o correto diagnóstico e tratamento.

As crianças absorvem mais radiações dos telemóveis que os adultos. E agora?

Este artigo do  Journal of Microscopy and Ultrastructure deixou-me algo apreensivo. Os autores pertencem ao Environmental Health Trust, uma ONG americana que se dedica a estudar os perigos para a saúde pública do tabaco e, mais recentemente, das radiações dos telemóveis e outros dispositivos móveis. Apesar de poder haver algum viés de avaliação, o artigo cita estudos científicos claramente independentes e algumas conclusões deixam-nos a pensar:

  1. As crianças absorvem mais radiações micro-ondas do que os adultos. Isto não é completamente novo, pois pela sua composição, já sabíamos que a exposição a radiações ionizantes (como as presentes nos Rx e TAC) eram mais absorvidos pelos cérebros das crianças.
  2. As radiações micro-ondas penetram mais profundamente nos cérebros das crianças. Isto acontece porque as crianças têm pele menos espessa, o crânio mais fino e uma cabeça mais pequena.

 
[fonte: ehtrust.org]
Quais as consequências destas micro-ondas? Segundo os autores as radiações micro-ondas provocam cancro e alterações irreversíveis no sistema nervoso central. Este tipo de radiações são emitidas por telemóveis e todos os dispositivos wireless e foram classificados pela OMS como carcinogéneos classe 2B (possible). Nesta classe estão produtos como o clorofórmio, DDT, chumbo, gasóleo ou gasolina. Em boa verdade são produtos que não temos a certeza que sejam carcinogéneos, mas que, ‘pelo sim, pelo não,’ convém evitar exposições prolongadas.

Os autores chamam também a atenção para os efeitos das micro-ondas sobre os organismos vivos. Num exemplo, a exposição de fetos de ratos a telemóveis durante a gestação resultaram em alterações do tipo das encontradas em crianças com hiperactividade e défice de atenção. Os autores também citam alguns estudos que relacionam o início precoce da utilização/propriedade de um telemóvel em crianças e adolescente com o aparecimento de tumores cerebrais. Em adultos, a exposição do telemóvel pode estar relacionada com tumores da mama (aparentemente, existe um hábito muito americano de as raparigas o usarem preso no sutiã), tumores das glândula salivares e infertilidade.

Como disse anteriormente, este artigo foi escrito por membros de uma ONG que está convicta que os telemóveis estão a aumentar a incidência de cancro na população. Apesar de ter passado pelo crivo dos revisores duma revista prestigiada como o Journal of Microscopy and Ultrastructure, os autores não citam uma série de artigos que contradizem esta teoria (ver por exemplo esteeste) e, a páginas tantas, dão a entender que são as empresas telefónicas que tentam calar os investigadores (o que também não abona a favor da credibilidade de quem escreve um artigo que se quer científico).

Para mim é ponto assente que toda a tecnologia que dispomos hoje – sejam telemóveis, computadores ou outros dispositivos wireless, têm feito mais para salvar vidas do que as eventuais consequências negativas para a saúde que estão por provar. De qualquer forma, e não havendo conclusões claras sobre se a exposição aos telemóveis e outros equipamentos wireless são ou não prejudiciais é preferível tomarmos a atitude da OMS e tê-los como eventuais carcinogéneos.  Assim, não custa nada ter em mente algumas recomendações que os autores deixaram em entrevista à Medscape.

  • A distância ao corpo destes equipamentos deve ser mantida sempre que possível, a mais de 15 cm, mesmo em conversação. «Um telemóvel a 15 cm da orelha reduz o risco de carcinogénese em 10 mil vezes». Suponho que falar em alta voz seja preferível. Na mesma linha, parece-me preferível ter um tablet pousado numa mesa do que no colo.
  • Os telemóveis transmitem sempre radiação, mesmo quando fora de conversação, pelo que devem ser guardados na bolsa ou na mochila. Evitar os bolsos das calças. E, à noite, mantê-los longe da cabeceira.
  • Tablets e telemóveis devem ficar fora dos quartos das crianças. Muitos, especialmente os mais velhos, adormecem com eles debaixo da almofada.
  • Os monitores de bebé não devem ficar dentro do berço da criança.
  • Routers e outros dispositivos wifi-fi devem ficar longe dos locais onde adultos e especialmente crianças permanecem a maior parte do tempo.
[fonte: ehtrust.org]

Cólicas do lactente: sinal precoce de enxaqueca?

Desde o início deste blogue que tenho fugido ao tema das cólicas do lactente. A principal razão é elas não terem uma causa completamente esclarecida. Há quem diga que o desconforto abdominal se deve a uma intolerância (ainda que temporária) às proteínas do leite de vaca ou à lactose presente em alguns leites adaptados (‘leite de farmácia’). Por outro lado, não está provado que os bebés que bebem leite materno tenham menos cólicas que os bebés alimentados com leite adaptado. Apontam-se muitas outras causas possíveis: sistema nervoso imaturo e hipersensível a alguns estímulos, refluxo gastro-esofágico (comum nos primeiros 6 meses de vida), espasmos do sistema digestivo em crescimento, acumulação de gases, circulação de hormonas (o que explicariam alterações do humor do bebé a certas horas do dia), etc. Tantas teorias diferentes podem sugerir que não existe uma causa única para as cólicas, mas provam antes de mais que sabemos muito pouco sobre as ditas. E é por isso que não temos uma fórmula milagrosa para as tratar.

Para desespero dos pais, que vão tentando tudo… Será do leite? Começam um suplemento e depois mudam de fórmula para uma hipoalergénea ou para uma anti-cólicas, alguns acabam no soja. Será refluxo? Toca a elevar a cabeceira, muda novamente a fórmula. Serão gases? Troca o biberão, junta uns pró-bióticos para ajudar a digestão, estimulação rectal para ver se saem uns ‘punzinhos’. E andam nisto até aos 4 meses, altura em que a maioria das cólicas passam… espontaneamente.

Ultimamente, têm surgido alguns estudos que apontam para as cólicas do lactente como um sinal precoce de enxaqueca. O Medscape tem uma reportagem interessante sobre isto, a propósito de uma conferência da Dra. Amy Gelfand, uma neuropediatra que se tem dedicado a este tema. Um estudo seu de 2012, baseia-se em 154 entrevistas para conlcuir que Mães com história de enxaquecas têm 2,6 maior risco de gerar um bebé que sofresse de cólicas. Sabido que a enxaqueca tem uma forte penetração familiar, a autora achou que esta cólica não seria mais do que uma forma de enxaqueca manifestada pelo choro do bebé. Por isso, fez uma meta-análise (basicamente, pegar em vários estudos sobre o mesmo tema e trabalhar com números maiores) e concluiu que crianças e adolescentes com enxaqueca teriam entre 3,6 e 6,5 vezes maior risco de terem sido bebés com cólicas. Isto aponta novos caminhos na compreensão da causa (e eventual tratamento) para as cólicas do lactente.

[fonte: thewellnessdirectory.co.nz]

À falta de melhor conhecimento científico, o tratamento das cólicas do lactente manter-se-á um tratamento muito personalizado, avaliado caso a caso pelo médico ou pediatra assistente. Pode realmente ser necessário mudar o horário da amamentação, ou trocar de leite, ou juntar algum próbiótico, ou acrescentar algum truque que o médico do seu filho tenha na manga (podem ler aqui alguns desses truques). Não procure na Internet uma solução milagrosa (muito menos neste blogue). De qualquer forma aliviar a dor está ao alcance de qualquer um:

  • massagens na barriga são uma forma fácil e instintiva de dar conforto bebé, 
  • paracetamol é um analgésico perfeitamente seguro nesta idade, 
  • Aero-OM. As chamadas ‘gotinhas cor-de-rosa’ contêm simeticone (o mesmo princípio activo do Infacalm e Infacol). Segundo a empresa as ‘gotinhas’ são «anti-espumantes» (talvez anti-gaseificante fosse demasiado visual,) mas estou convencido que é o facto de serem extremamente doces que faz com que os circuitos da dor sejam inibidos,
  • colo e passeio, pois o sentir os pais e trepidar do carrinho ajudam tranquilizar a criança.Pode haver o tal perigo da habituação, mas às vezes é um preço que teremos que pagar. Já acreditei mais nesta coisa do ‘não habituar ao colo’, porque as crianças estão em constante mudança e adaptação a novas situações. 
  • muitas crianças tranquilizam com barulhos graves e ritmados. Pode ser o cochicho dos pais, mas sei de casos tão bizarros como o secador, a máquina de lavar e até o aspirador. Não tenho explicação científica para isto…

Acabo este texto com dois conselhos para os pais de um bebé com cólicas. 1. Mantenham sempre presente que é uma situação que vai passar por ela. Por mais desesperante que seja, o choro vai passar. Não acabaram de gerar um ser possuído por um qualquer demónio (embora para já pareça). As cólicas vão passar pode ser aos 2-3-4-5 meses. Mas vão passar!

2. Revezem-se. Quantas vezes na urgência me apareceram dois pais com olheiras ‘até ao chão’ desesperados com o choro do petiz. Choro esse que na maior parte das vezes tinha passado, embalados com a viagem de carro. O sono em excesso leva-nos a discussões, a berros e, sobretudo, a más decisões. Não adianta estarem dois a tentar consolar uma criança aos berros. O melhor é um ficar com o bebé (eventualmente até sair de casa com ele), enquanto o outro descansa. Assim, quando um estiver exausto, trocam posições. Haverá sempre alguém com lucidez suficiente para gerir a crise.

Dar ou não dar a nova vacina contra o Meningococo B?

Na última consulta do Pediatra (sim, os meus filhos vão ao Pediatra), ele recomendou-nos a toma da vacina contra o meningococo B, a Bexsero (assim se chama formulação disponível em Portugal). Tratando-se de uma vacina extra-plano, ou seja, não incluída no Plano Nacional de Vacinação (PNV), está na mão dos pais decidir se querem ou não dar esta vacina aos seus filhos. Talvez por isso, tenho recebido algumas mensagens a perguntar se eu aconselho ou não a toma desta vacina

[fonte: novartisvaccines.com]
Antes demais convém esclarecer que, (tal como acontecia nas gastroenterites), as meningites são causadas por muitos agentes diferentes. As meningites são inflamações das meninges (uns folhetos que recobrem o cérebro e a espinal medula) provocadas por vírus e bactérias. Entre estas últimas, encontra-se a Neisseria meningitidis (ou meningococo) que, por sua vez, tem vários serotipos – A, B, C, Y, W135 e X1.

As meningites por meningococo são responsáveis pela forma mais agressiva desta doença. Ele circula entre nós no trato respiratório dos seres humanos, podendo passar de um portador assintomático para uma criança, deixando-a doente. A forma mais eficaz de controlo da infecção meningocócica é a vacinação. Na Europa, predominam o meningococo B e o C. Para este último, nós já tínhamos a famosa Meningitec, incluída no PNV desde 2006. Muito à custa desta vacina, a chamada doença meningocócica tem diminuído de frequência (0,8 por 100 mil habitantes em 2011). Ainda assim, leva à morte em 5% a 14% dos casos, sendo que 11 a 19% dos doentes sobrevivem com alguma sequela a longo prazo – sequelas neurológicas, perda de audição, alterações cognitivas, cicatrizes cutâneas e amputações. Também à custa da vacina contra a estirpe C. a percentagem de meningococos do tipo B cresceu nos últimos anos, sendo actualmente 72% dos N. meningitidis isolados. É neste contexto que agora surge a Bexsero, para prevenir estes meningococos do tipo B.

[fonte: soc.ucsb.edu]

A vacina testada em laboratório e ensaios clínicos e demonstrou ser imunogénica e segura. Pode ser administrada em simultâneo com as outras vacinas do PNV e também com a pneumocócica. São esperados efeitos secundários, como febre (10 a 15%) e reacções locais (não mais que as vacinas do costume). O esquema de vacinação proposto é o seguinte:

[fonte: spp.pt]

Agora, as más notícias. A Bexsero tem um PVP de €98,36! Os menores de 6 meses de idade, que são os que mais beneficiam da vacina, precisam de fazer 3 doses mais uma de reforço, o que chega a quase €400! Mas de facto esta vacina serve para evitar uma doença realmente grave que pode matar ou deixar graves sequelas nas crianças. Inclusivamente, o presidente da Direcção Geral de Saúde já admitiu que estão a pensar acrescentá-la ao Plano Nacional de Vacinação. Quando? No dia 1 de Junho, a TSF dizia «dentro de meses, a Direcção-Geral de Saúde vai apresentar uma revisão do calendário nacional de vacinação», mas até hoje ainda não saiu nada… Até novas notícias, acho que os pais que tiverem condições financeiras devem abrir os cordões à bolsa e dar esta vacina, especialmente se a criança tem menos de um ano. Os lactentes são os mais afectados por esta doença, logo, são os que mais beneficia com a sua prevenção.

Leitura complementar: Parecer da Sociedade Portuguesa de Pediatria sobre a Bexsero; Artigo sobre Meningite do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga no EducarePerguntas e respostas do Center for Diesease Control and Prevention (em inglês); Doença Meningocócica Invasiva em Portugal – Relatório do INSA 2011.

Preparar a criança (e os pais) para uma cirurgia

A forma como uma criança acorda da anestesia depende muito da forma como adormeceu. Julgo que todos os pais já tiveram a experiência de uma criança que adormece a chorar, aborrecida com alguma coisa ou (mesmo sem ser a chorar) agarrada a um brinquedo. A primeira coisa que essa criança faz quando acorda é perguntar pelo brinquedo ou mesmo continuar a birra em que estava. O mesmo se procede com a indução anestésica. Se a criança adormece agitada, assustada com o que lhe está a acontecer, é muito provável que acorde da mesma forma, a chorar, a espernear, a bater em tudo à sua volta. Assim, é muito importante que os pais preparem a criança para o que vai acontecer no dia da cirurgia.Um conjunto de dicas (ou serão mais regras?) para tornar a cirurgia menos traumatizante.

Primeira dica (neste caso, uma advertência), NUNCA mentir aos filhos. Uma coisa é fantasiar à volta do que vai acontecer – exemplo: vão te colocar uma pomada mágica nas mãos para não sentires a borboleta a picar. Outra coisa é mentir – exemplo: vens ali com o pai que eu é que vou ser operado. Imagine-se a ser despido numa sala cheia de monitores, luzinhas e alarmes a apitar por todo lado e ser levado por 2 ou 3 adultos de pijama. Imagine que a única pessoa com quem poderíamos contar lhe mentiu, atraiçoou-o e entrega-o para a mão destes desconhecidos. É o pânico. Mentir é feio. (Não é isso que ensina às crianças?)


[fonte: abcnewsradioonline.com]

Segunda dica, crie um ambiente tranquilo e seguro para a criança. As crianças são colaborantes com os profissionais de saúde desde que se sintam seguros. É importante os pais estarem confiantes e não transparecer o nervosismo. A melhor forma de o fazer é esclarecendo todas as dúvidas previamente com o cirurgião e com o anestesista. A maioria dos mitos criados à volta da anestesia geram ansiedade escusada aos pais. Lembre-se que os pais são o ‘porto de abrigo’ dos filhos e, saber que podem contar com eles tranquiliza-os. Se os pais estão preparados para o que vai acontecer, podem até entrar na sala de operações e assistir à indução anestésica. Se os pais não são capazes (e não é vergonha nenhuma não o ser) ou o bloco operatório em questão não está preparado para essa dinâmica, a criança que se sente em segurança não se importa de ‘ir ali ao lado e voltar num instante’. Ainda no tema da confiança que se procura transmitir à criança, levar um boneco ou qualquer outro objecto de ligação/transição (aqui se incluem as chupetas) ajuda.

Terceiro, explique com antecedência. Dependendo da idade, mas sobretudo da maturidade de cada criança, é bom ir explicando nos dias anteriores o que vai acontecer: que vai haver luzes esquisitas, alarmes inesperados, gente vestida com pijamas esquisitos,  etc. Não ser apanhado de surpresa no próprio dia, ajuda a não cair nos erros explicados no ponto um e ponto 2. Quem melhor que os pais para adaptarem a informação e a linguagem ao perfil dos seus filhos? Pode fazer teatrinhos com os ursos de peluche, pode fazer programas para fazerem juntos assim que saírem do hospital, podem ver vídeos na internet…  Nesse sentido, parece-me bastante útil o vídeo que se segue do clube de anestesia regional (autoria de Rita Lopes).


Quarto, prepare a malinha com o seu filho. O pijama deverá ser fácil de vestir/despir. Preferir 100% algodão, pois as fibras poderão interferir com alguns dos aparelhos. Mas o mais importante é a criança achar-se bonita com ele. Não esquecer a escova de dentes e outros acessórios da higiene diária, principalmente se ficar internado. Deixe-o escolher um ou dois brinquedo.

Quinto, não esquecer do tempo de jejum. O jejum é fundamental para a anestesia decorrer de forma segura. Se o cirurgião não disse qual o tempo de jejum que quer, fique a saber que genericamente o tempo de jejum necessário após a ingestão de uma refeição por mais leve que seja, sólida ou líquida (o que inclui o leite de farmácia) são 6 horas; de leite materno são 4 horas. A criança pode beber líquidos translúcidos (água, chá com açúcar) até 2 horas antes.

Sexto, trate atempadamente das burocracias. Informe-se atempadamente na escola e no seu emprego, que tipo de declaração, atestado, baixa e/ou certificado será necessário para o pós-operatório.  No dia da cirurgia não se esqueça de o pedir ao cirurgião ou alguém da equipa, porque, no stress do acontecimento, às vezes os ‘papéis’ ficam esquecidos.

Nota: Estas dicas de preparação aqui deixadas. Não dispensam as informações de cuidados pré- e pós-operatório do seu médico.

Mais uma ideia salva-vidas (desta vez de uma Mãe)

Lembram-se da Sofia, mãe do Tomás, um menino com autismo? Ela escreveu-me esta mensagem que reproduzo na íntegra:

Hoje pensei em colocar ‘cá fora’ um adereço essencial e muito importante em situações de emergência, que criei e que uso. 

Todos os dias levo o meu filho à escola de manhã. Vamos os dois sózinhos no carro. O meu filho tem 4 anos e uma perturbação do espectro do autismo, ainda não é verbal, e não tem a maturidade de uma criança neurotípica da idade dele. Um dos meus grandes receios é o facto de ele não se conseguir expressar numa situação de emergência. Ele é o meu maior cuidado. Ele é quem quero proteger mais. Porque se todas as crianças são indefesas, ele é mais. E se quando for a conduzi, eu não me sentir bem e desmaiar? ou outra situação. Como vão os paramédicos saber o que se passa com ele, caso ele fique magoado ou mesmo se não ficar? 

 Não quero sequer imaginar tais situações. Mas lembrei-me e cortei um papel e escrevi o nome do meu filho, colei uma foto pequena dele, a data de nascimento, o grupo sanguíneo, contactos de urgência do pediatra, pais, avós, o nome de medicamentos que porventura possa tomar, e outras observações, no caso dele: Autismo – Não verbal. Colei o papel num dos lados da cadeirinha do automóvel. 

Contactei a Escola Nacional de Bombeiros, via facebook, que com a minha ideia, criaram o cartão de emergência da criança. Qualquer pessoa pode utilizar este cartão, que não serve só para a cadeirinha do automóvel, mas também para a mochila da escola, ou em passeios de escola, nas férias, etc. 

Achei importante partilhar.

Eu também achei. Achei importante partilhar assim como copiar a ideia e fazer o mesmo. De facto, não custa nada: é imprimir e colar na cadeirinha. É que nunca sabemos o que nos pode acontecer na estrada…

[carregue sobre a imagem para ampliar]

Todos pais e Mães deveriam ver este vídeo

O vídeo que se segue vídeo apareceu na minha timeline do facebook, mas, mais do que replicar, acho que merece destaque aqui no blogue. Sou pai de dois rapazes, mas fiquei muito sensibilizado com a esta campanha, porque ela faz todo o sentido. A Always (uma marca de pensos higiénicos americana) lançou este vídeo que promete tornar-se viral. Nele, pedem a adolescentes e a mulheres jovens que demonstrem por gestos ou palavras o que quer dizer «correr como uma rapariga», «lutar como uma rapariga», «atirar como uma rapariga», etc. Depois, fazem as mesmas perguntas a crianças de 10 anos e o resultado é surpreendente. Apartir de que idade rebaixamos/ridicularizamos o papel das raparigas na nossa sociedade? De quem é a culpa? Pensem nisto…