Em defesa dos andarilhos (I)

Antes de mais importa esclarecer que sempre fui contra a entrada de um andarilho cá em casa. O JM não teve um e não me pareceu que lhe fizesse falta. Quando, por artes mágicas, vi um andarilho (há quem lhe chame voador) a aterrar cá em casa olhei-o com desconfiança. Mas hoje vejo-o como um brinquedo como os outros e passo a explicar porquê.

Todas as sociedades científicas pediátricas desaconselham o uso de andarilhos e a Sociedade Portuguesa de Pediatria não é diferente. Os andarilhos são causa de muitos acidentes evitáveis (voltarei a este adjectivo, mais tarde).  No Canadá, eles foram mesmo banidos com direito a multa para quem os vende. A campanha foi tão dura que a dada altura se dizia que os andarilhos eram responsáveis por atrasos na marcha, o que entretanto se provou não ser verdade.
Porque é que eu decidi vir em defesa do andarilho? Porque me assustam as brigadas higienistas que, com o argumento de ser perigoso para a nossa saúde (ou, no caso, para a saúde das nossas crianças), vão talhando a nossa liberdade individual. (O exemplo mais recente dessas obsessões sanitárias é a limitação do número de animais domésticos, que alguns entendidos do Ministério da Agricultura queriam impor nos apartamentos dos seus concidadãos.)  Tenho medo que hoje se persigam os andarilhos e amanhã se proíbam as bicicletas, as trotinetes, os carros a pedais. Todos estes brinquedos que envolvem actividade física e aparelhos com rodas envolvem uma boa dose de risco de acidentes, mas se tiramos isto às nossas crianças ficamos com o quê? Queremos as nossas crianças obesas sentadas numa redoma em frente a um televisor a ver programas devidamente higienizados e certificadamente educativos (aposto que haveria comissões técnicas que se ofereceriam para tratar das aprovações)? Não, obrigado.
Voltando aos andarilhos, e pelo que vejo cá em casa, eles são bem mais divertidos do que perigosos. Como com qualquer brinquedo que se dá a uma criança, é preciso estar atento e manter a vigilância sobre o petiz. Aliás, parece-me que o maior defeito dos andarilhos é dar uma falsa sensação aos pais de que se pode deixar a criança entretida e virar costas. Voltando à analogia que referi atrás, um andarilho não é diferente de uma bicicleta, de uma trotinete ou de um carro a pedais. A criança vai-se divertir imenso, mas exige vigilância apertada e alguns cuidados:
  • impedir o acesso a escadas – a criança num andarilho move-se mais rápido do que pensamos e no instante se lança escada a baixo;
  • retirar todos os objectos potencialmente perigosos do alcance da criança (por exemplo, utensílios afiados ou cortantes ou peças pequenas o suficiente que a criança possa engolir) – no andarilho, a criança fica mais alta e conseguirá alcançar tudo o que esteja nos bordos das mesas e aparadores.
  • ter muito cuidado com as toalhas – em cima, costumam estar pratos que partem, chávenas que escaldam, entre outros objectos que estão só à espera de ser puxados pela criança.
  • proteger os cantos das mesas, onde a cabeça do petiz pode razar à passagem do andarilho.
  • proteger as tomadas eléctricas – repito, a criança num andarilho move-se mais rápido do que pensamos 
No fundo, estes cuidados são os mesmo que teremos com a criança que começa a andar com apoio. São regras quase universais, que todos os pais vão conhecendo. Os andarilhos causam acidentes, mas estes são evitáveis. Basta estar atento como temos sempre que estar.
[fonte: wikipedia.org]

Pilomatrixoma versus Malherbe

«Pilomatrixoma.» Por vezes saem da boca dos médicos, palavrões assim. Assustam os pais com um diagnóstico tão complicado. «Só pode ser grave», pensam. Mas não. Os tumores da criança são na sua maior parte benignos, principalmente os da pele (felizmente). O pilomatrixoma, também conhecido por quisto de Malherbe*, não foge a esta regra. Tratam-se de tumores calcificados, resultado de inclusões de células da pele nos planos mais profundos. Podem-se notar à nascença, mas o mais habitual é notarem-se já nos primeiros anos de vida. Um dia os pais passam a mão pela cabeça (ou pelo pescoço) e notam um ‘caroço’. (Talvez queira rever o texto ‘um caroço no pescoço’ que escrevi em Março).

O quisto de Malherbe é um tumor benigno e pode aparecer em todo o lado que exista pele. Não desaparece espontaneamente, mas a sua exérese cirúrgica confere cura definitiva. O seu nome deriva de A. Malherbe, o médico/patologista que descreveu este tipo de lesão benigna. Estes quistos nada têm a ver com as ‘rosas de Malherbe‘ – expressão usada para se referir às coisas efémeras. Estas rosas derivam de um poema trágico. Umas linhas que François de Malherbe (poeta francês do século XVII) dedicou a um amigo cuja filha morreu com apenas 5 anos*:

“(…) Mais elle était du monde où les plus belles choses
Ont le pire destin;
Et rose elle a vécu ce que vivent les roses,
L’espace dun matin.”
[Mas ela pertencia a um mundo em que as mais belas coisas
têm o pior destino;
e, rosa, ela viveu o que vivem as rosas,
O tempo de uma manhã.]

Pilomatrixoma é uma palavra que assusta. Mas entre este e Malherbe, venha o Diabo e escolha…

*Fonte: lugares comuns, da Antena 1 – um dos podcasts que me acompanham nas viagens Porto-Braga. Quem disse que não podemos enriquecer no trânsito?

Segredos para se manter em forma durante a gravidez

A história deste post começou no primeiro trimestre de gravidez Mãe-MM, ou seja, há pouco mais de um ano. A Mãe engordou um bocadinho demais durante a gravidez do JM (se traduzir aqui para kilogramas, ela mata-me). Por causa de uma greve de enfermagem, a cesariana foi feita pelo Dr. Cláudio Tomé Rebelo que estava de urgência. O Cláudio é um amigo dos tempos da faculdade, é pai do Pedro (4-quase-5 anos) e da Teresa (3 anos) e, como perceberão pelo texto que escreveu, tem uma forma de pensar e de ‘falar’ parecida com a minha. A obstetra que acompanhou a gravidez do JM, a Dra. Fernanda Caiano , foi sempre impecável connosco, muito profissional, tranquilizadora, uma amiga (de resto, continuo a recomendá-la a amigas e mães). Mas a simpatia e disponibilidade do Cláudio e o facto de dar consultas perto de nossa casa (na Medicil Porto*), fez com que optássemos por ele para seguir a gravidez do MM. Consciente do desvio de força gravitacional (vulgo peso) por que passou a Mãe na primeira gravidez, o Cláudio decidiu cortar o mal pela raiz na segunda. O discurso/puxão-de-orelhas/coaching que o Cláudio fez foi delicioso, porque foi motivador e, mais importante do que isso, resultou. De facto, a Mãe chegou com um corpo invejável no final da gravidez (aqui já posso dizer que engordou 10 kg). Pedi-lhe para verter aquele discurso para um texto. Eis o resultado.

Segredos para se manter em forma durante a gravidez
Cláudio Tomé Rebelo

A frase “sr. Doutor, mas eu tenho muita fome” dita pelas grávidas obriga-me sempre a retorquir “tem apetite, fome têm as crianças em África…”.

De facto a nossa espécie evoluiu perante a adversidade da escassez dos alimentos e agora (nos países desenvolvidos) debate-se com o problema da abundância e das doenças por ela causada. E a grávida? Ninguém informa a placenta das nossas grávidas que está em Portugal em 2013.

Ao contrário das avós e bisavós das gravidas de hoje que só tinham acesso à broa de milho ou centeio, à sopa, aos legumes e à fruta da época, nós temos agora a geração do Pão Quente (farinha de trigo refinada, fermentada, congelada) descongelado e cozido a cada hora que passa. Os biscoitos e biscoitinhos e respectivas prateleiras dos hipermercados. Todas as frutas possíveis e imagináveis. Os chocolates “recheados” com caramelo ou com mousse e os pasteis de nata “recheados” com chocolate.

Torna-se assim quase impossível esperar que a placenta perante toda esta felicidade calórica não aumente o apetite das nossas grávidas para assim aumentar a gordura de reserva. Sim, a placenta não pode adivinhar se na próxima semana vem a seca, as chuvas diluvianas ou outra desgraça que faça desaparecer os nutrientes disponíveis ao Bébé.

A placenta já cá andava e ainda não existia “O Açúcar”, não existia conservação de alimentos, não existiam refrigerantes ou pastelarias. Como culpar então as grávidas por cada Kilo do aumento de peso, pelas taxas de diabetes gestacional, pelas estrias e aventais abdominais, quando vivemos numa sociedade que criou o termo “desejos” para as desculpar?

Habitualmente aconselho a simples Regra de Seis às grávidas para que tudo decorra pelo melhor.

  • 6 refeições – pequeno almoço, meio da manha, almoço, lanche, jantar e ceia.
  • 6 proibidos – bolachinhas, doces, arroz e batata no mesmo prato, refrigerantes, molhos, fritos
  • 6 “amigos” – legumes e verduras, sopas sem batata nem massa, iogurtes, fruta (maça, pêra, laranja), água, cereais (pão escuro, fibra)

Tudo isto nos 6 dias da balança do Obstetra, 1 dia por semana de folga para as “loucuras” da grávida… Adicionar Actividade Fisica regular (as caminhadas diárias) e só assim vamos conseguir os desejados 10-12kg e a manutenção ou perda de peso nas grávidas obesas…

É uma luta diária para que no fim da caminhada elas orgulhosas possam aparecer às amigas “enfiadas” nas calças de ganga justas e as outras exclamem “é impossível que tenhas sido mãe há menos de um mês” – essas invejosas.

A Mãe e MM com 31 semanas de gestação.
[créditos fotográficos: soniabritophotography.com]

* O Dr. Cláudio Tomé Rebelo é ginecologista-obstetra no Hospital Pedro Hispano (Matosinhos). Tem consultório na Medicil Porto e na  Clínica Central da Areosa, mas opera no Hospital CUF Porto e na Casa de Saúde da Boavista. Tem-se diferenciado em Endometriose, Oncologia Ginecológica, Obstetricia em mulheres com comorbilidades (hipertensão arterial, doenças autoimunes, trombofilias, maus antecedentes obstétricos, Cirurgia laparoscópica e minimamente invasiva.

Finalmente…

…entregue.

O título da tese de doutoramento ‘Hybrid Thoracic NOTES: a translational research project’ significa grosso modo: projecto de investigação translaccional (isto é, que faz a ponte para a aplicação humana) em cirurgia toracoscópica por orifícios naturais híbrida (isto é, com auxílio de uma incisão torácica para a colocação de um trocar de 11 mm). Um dia explico em pormenor o que andei a fazer nos últimos 3 anos, mas agora preciso de desintoxicar e ver VER os meus filhos.

Duas boas desculpas para andar pela Baixa do Porto neste fim-de-semana

As recomendações para o fim-de-semana têm que sair mais cedo, porque pode haver a necessidade de tratar do babysitting para 6ª-feira à noite.

A Pólo Norte (aka Ursa aka MãeGyver) lançou o desafio Make the Homeless Smile. A ideia é oferecer um cobertor e um pequeno-almoço quente aos sem abrigo do Porto, no Sábado de manhã. Quem puder, junta-se para a distribuição, quem não puder, junta-se na véspera na BOA (Bombarda Oficina de Artes), sita na Rua Miguel Bombarda, 566, 1º, para preparar a acção. O ideal seria participar nas duas. Julgo que com alguma ginástica familiar consegue-se ir a pelo menos a uma delas. É uma acção de solidariedade pontual que enriquecerá a manhã de quem recebe e de quem dá. Podem recolher todas as informações aqui.

Também no Sábado, mas também no Domingo, acontece o Oporto Kids Market, no Palacete Pinto Leite (antigo Conservatório de Música do Porto, na Rua da Maternidade Júlio Dinis). Trata-se de um mercado com muitas marcas de roupa (e não só) para crianças, muitas delas de Mães empreendedoras. A entrada custa €1 que reverte na totalidade para a Liga dos Amigos, das Crianças e Famílias Rainha Maria Pia. Este organização sem fins lucrativos vem substituir a Liga do extinto Hospital Maria Pia, que apoiava a melhoria clínica do hospital e as condições sociais dos meninos crónicos que lá eram tratados. Estes meninos e meninas doentes passaram para o Centro Hospitalar do Porto (Hospital de Santo António) e, com eles, a necessidade deste apoio de proximidade.

Aí estão duas boas desculpas para andar pela Baixa do Porto neste fim-de-semana.

Febre, febre, febre, dente?!

E para continuar esta súbita obsessão por dentes, dou-vos notícia que rompeu o primeiro dentinho MM. Foi precisamente há 5 dias. No início dessa semana esteve com febrões. Uma amigdalite diagnosticada pelo pai e, posteriormente, confirmada pela nossa amiga e muito querida Dra. Teresa Mesquita Guimarães. Ou seja, repete-se a história de tantos pais: febre, febre, febre, dente. Mas então a erupção dentária dá febre?

A erupção dentária pode dar aumento transitório da temperatura do bebé. Este estudo realizado por um grupo de dentistas brasileiros provou-o. Eles acompanharam durante 8 meses, 47 crianças entre os 5-15 meses. Mediram-lhes a temperatura auricular e axilar, observavam a boca à procura de sinais de erupção dentária e faziam um questionário à mãe (ou pai) sobre sintomas genéricos: irritabilidade, recusa alimentar, alterações nas fezes, entre outros. E fizeram isto TODOS OS DIAS (que paciência).

Os investigadores verificaram que, nos dias imediatamente anteriores à erupção dentária, a temperatura subia qualquer coisa como 0.12ºC. Uma subida ligeira, que não é suficientemente alta para ser considerada febre. Por outro lado, no dia imediatamente anterior ou no próprio dia da erupção dentária os pais descreviam aumento de alguns sintomas, como alterações do sono, aumento da salivação, rash cutâneo (vermelhão), rinorreia (pingo no nariz), diarreia, perda de apetite e irritabilidade. Alguns destes relacionam-se com o estado pró-inflamatório que representa um ‘rasgão’ da gengiva. Como muito bem escreveu o Dr. Hugo Rodrigues, estas alterações inflamatórias podem fragilizar o bebé e torná-lo mais susceptível a infecções víricas, as quais são muito frequentes nesta idade.

Traumatismo dento-alveolar (II)

Traumatismo dento-alveolar (continuação)
André Santos Luís

Sendo agora mais sistemático. A abordagem vai ser diferente consoante o traumatismo ocorra em dentes de leite (decíduos) ou definitivos.

Nos dentes decíduos:
1. Se o dente não tem mobilidade, se não há fracturas visiveis, os cuidados a ter são de protecção (dieta mole p.ex.) e vigilância de complicações.
2. Se há fractura do dente, mas sem mobilidade,dependendo das estruturas do dente que foram afectadas, proceder-se-à à restauração do dente com ou sem pulpotomia (remoção de parte da polpa dentária) ou à extracção do dente (caso a restauração não seja possível).
3. Extrusões e luxaçãoes laterais: dependendo do seu grau, da maturação do dente, da cooperação da criança, etc, o tratamento pode ir desde a vigilância ou reposicionamento do dente (redução), até à extracção dentária.
4. Se houver luxação intrusiva, para posição que não sugira lesão do dente definitivo (esta sugestão varia com as escolas, desde a dimensão de coroa visível até critérios de imagem) aguarda-se e vigia-se, caso contrário procede-se a extracção.
5. Nos casos de avulsão (saída completa do dente) não se volta a re-implantar.
6. Fracturas alveolares –  fixação: há quem faça com compósito (o material de restauração dos dentes), com fio de aço e compósito ou com uns arcos metálicos que se chamam de “Erich”.

Nos dentes definitivos:
1. Se houver apenas impacto, sem fractura nem mobilidade – vigilância de complicaçõs e medidas de protecção.
2. Extrusão: reposicionamento do dente e fixação (2 semanas). Vigilância de complicações e medidas de protecção. Em casos  limite poderá ser necessário extraír o dente.
3. Luxação lateral: Redução e imobilização por 4 semanas. Medidas de protecção e vigilância.
4. Intrusão: Dependendo de vários factores, nomeadamente o grau de intrusão e o grau de maturação da raiz do dente, o tratamento poderá ir desde a vigilância até à necessidade de extracção do dente. Consoante os casos poderá ser ponderada a tracção ortodôntica (com aparelho).
5. Avulsão: Este é o ponto de menor acordo, principalmente pela viabilidade que alguns autores defendem que o dente terá em relação ao tempo que esteve fora do alveolo dentário. Alguns defendem que ao fim de 5 minutos a viabilidade a longo prazo é nula. É comumente aceite a re-implantação até uma hora após a avulsão, em dentes transportados em meio adequado (entenda-se que o mínimo aqui é o leite frio). O sucesso depende de vários factores como o tempo fora de meio adequado, do estado de maturação da raiz, do surgimento de complicações, nomeadamente reabsorções radiculares e infecção . Se necessário procede-se a tratamento endodontico.
6. Nas fracturas, caso não haja envolvimento da polpa, se possivel, procede-se a restauração, havendo lugar a outras técnicas se houver envolvimento também da raiz. Se houver envolvimento da polpa, o tratamento será diferente de acordo com o grau de maturação da raiz. O tratamento de alguns casos de fracturas pode passar por endodontia ou até por extracção do dente.
7. Nos casos de fractura apenas da raiz, dependendo do local de fractura, faz-se fixação durante, pelo menos, 4 semanas, sendo este também o período de fixação para as fracturas alveolares.

Apesar de tudo isto, cada caso é um caso, e a atitude mais indicada será ajustada pelo profissional de saúde responsável, sendo certo que por vezes é preferível extrair um (ou vários) dentes do que esperar por complicações que se prevêm mais graves.

A vigilância do aparecimento de complicações,  deve ser feita pelos pais ou pelo dentista assistente. Nos casos em que se justifique, essa vigilância será feita em ambiente hospitalar. Os sinais mais frequentes dessas complicações e  que devem colocar os pais em alerta são o escurecimento do dente, a formação de abcessos no dente com ou sem a formação de fístulas (pequenas bolas vermelhas na gengiva acima do dente), normalmente associados a necrose (morte) do dente e/ou a reabsorção da(s) raiz(es).  Com frequência será associado analgésico e antibiótico.

O objectivo final do tratamento de um traumatismo dentário é manter o dente em função e esteticamente agradável. O facto de se ter que fazer uma extracção dentária numa criança, principalmente de um dente definitivo, e às vezes anterior, é sede de ansiedade para os pais , para a criança e também para o profissional. O foco deve ser o de que uma extracção é sempre o último recurso para evitar complicações mais graves e que na maior parte dos casos será possível a obtenção de uma solução estética e funcionalmente boa.

Traumatismo dento-alveolar (I)

O convidado especialista desta semana é o Dr. André Santos Luís. O André é meu amigo desde os seus 10 anos (que, por coincidência eram os meus 10 anos também). Fizemos o ensino secundário juntos. Quando ingressámos em Medicina, ele seguiu para o Hospital de São João e eu para o Hospital de Santo António. Mantivemos o contacto e a amizade, porque ambos fazíamos parte das respectivas associações de estudantes. O André fez-se estomatologista. Trabalha na unidade de Cirurgia Maxilo-Facial do Serviço de Cirurgia Maxilo-Facial e Estomatologia do Centro Hospitalar do Porto. Exerce actividade privada no Hospital Privado de Braga. É pai do M., 6 meses.

Traumatismo dento-alveolar
André Santos Luís

Os traumatismos dento-alveolares (ou seja dos dentes e da sua estrutura de suporte, os alveolos dentários) são bastante comuns nas idades pediátricas. A sua etiologia é variada, sendo a mais comum, nas idades mais jovens, a queda, seguida pelos acidentes desportivos na adolescência, passando mais tarde pelas agressões e acidentes de viação.

Estes traumatismos assumem graus de gravidade diferentes consoante se limitem a pequenos impactos nos dentes dos quais resulta apenas dor (embora possam ter outras complicações no futuro,  às quais me referirei mais adiante) ou estarem integrados em traumatismos faciais complexos que inspiram outro tipo de cuidados e abordagens diferentes.

O propósito deste artigo prende-se com a abordagem a ter nos casos de traumatismos dentários ou alveolo-dentários isolados. Pretende-se aqui explicar um conjunto de atitudes que quem está a acompanhar a criança pode ter e que podem marcar efectivamente a diferença no prognóstico, bem como algumas das atitudes que vão ver no profissional de saúde e que muitas vezes intrigam os pais.

[fonte: carinhoacadapasso.com.br]

O cenário mais frequente: houve uma queda com um impacto na face, normalmente os incisivos superiores são as vítimas (são os que estão mais à frente…). A criança chora, os pais às vezes também, há sangue envolvido…e agora?

  1. Antes de mais (e tendo a noção como pai que às vezes não é fácil) tentar manter a calma e perceber se a criança respira bem, se o sangue e a saliva a atrapalham.
  2. Tentar ajudar a criança traquilizando-a e limpando o sangue. A maior parte das hemorragias são auto-limitadas ao fim de algum tempo, se necessário (e possível)  aplicar alguma compressão. Vamos assumir que o traumatismo foi só nos dentes/alveolos, sem feridas nos lábios ou face, sem impacto no mento (que nos chama a atenção para possíveis traumatismos dos côndilos das articulações temporo-mandibulares) ou outras regiões da face. 
  3. Ver se falta algum dente. Se faltar algum dente há que o procurar. Caso não o encontre não se preocupe em demasia com isso. O clínico deverá apenas excluir intrusão dentária (ver à frente) ou que a criança o tenha aspirado (com Rx torax) . 
  4. Se encontrar o dente (ou parte dele)  leve-o consigo dentro de leite frio, a menos que tenha um meio de transporte de dentes (leite frio é uma solução de compromisso aceitável), mas tenha presente que só uma parte significativamente pequena tem indicação para poder ser usada.

Põe-se agora a questão: onde recorrer? A minha opinião é que nos casos de trauma dentário exclusivo, sem feridas complexas, poderá dirigir-se ao Médico Dentista. Nos casos de traumatismos mais complexos, com envolvimento de vários dentes e feridas mais complexas, avulsões dentárias com dentes que não foram encontrados, deverá dirigir-se directamente ao Serviço de Urgência de um hospital. Se necessário será encaminhado para um com apoio de Estomatologia e /ou Cirurgia Maxilo-Facial.

O(a) Hipospádia(s)?

Os hipospádias são muito frequente. Estima-se que um em cada 250 meninos nascidos têm esta malformação do pénis. Ainda assim, é uma patologia que dá muita discussão. Começa logo na nomenclatura: será ‘o’ hipospádias ou ‘a’ hipospádias? De facto, ‘a’ hipospádias é uma malformação, mas, apesar de muitos médicos e doentes se ferirem ao hipospádias no feminino, os cirurgiões pediátricos referem-se a lele como o hipospádias. No Brasil, os cirurgiões tratam-na por ‘a hipospádia’ (no singular).

Depois, diz-se que a sua incidência está aumentar, principalmente no mundo ocidental. Seria da alimentação, dos pesticidas, dos contraceptivos orais? Tentou-se relacionar tudo com o aumento de diagnósticos de hipospádias no mundo desenvolvido, mas nenhum estudo conseguiu provar essa relação. Há quem diga que este aumento de incidência apenas reflecte a maior atenção dos médicos assistentes para esta patologia.

O hipospádias é uma malformação da uretra, que é o tubinho que traz a urina da bexiga até à ponta da pilinha dos meninos. Nos hipospádias, a uretra acaba mais cedo do que devia, pelo queo orifício de saída fica na face anterior do pénis. Pode acabar mais tarde (quase na pontinha) ou muito cedo (ainda no escroto). Quanto mais curta for a uretra, maior encurvamento terá o pénis. O prepúcio (a pele que recobre o pénis) fica aberto a meio, mas nos casos muito distais pode ter uma conformação quase normal. Daí, poder passar despercebido à nascença.

[fonte: bapras.org.uk]

A controvérsia continua na hora de operar. Existem muitas técnicas para a correcção do hipospádias. A cada artigo que sai, uma é melhor que outra. Há quem faça a reconstrução da uretra, do pénis e do prepúcio num só tempo, há quem faça em vários. Há quem reconstrua o prepúcio, há quem faça circuncisão. Há quem defenda operar antes dos 6 meses, outros que só lá para os 5 anos. A Sociedade Europeia de Urologia Pediátrica (ESPU) recomenda que a correcção seja feita entre os 6 e os 18 meses de idade. A minha experiência diz-me que nem todos são iguais. Cada caso é um caso e alguns beneficiam se crescerem mais um pouco.

Declaração de voto

Só para dizer-vos que hoje decorreu a eleição para os órgãos da Sociedade Portuguesa de CIrurgia Minimamente Invasiva e este que vos escreve foi eleito para a Direcção. O Presidente da respectiva é o Dr. Jaime Vilaça, um ilustre cirurgião geral e amigo. A Mesa da Assembleia é o não menos ilustre Dr. Novo de Matos, um senador. Vamos ao trabalho!

Para identificação da equipa espreitem aqui o FB.