Manchinhas de princesa

A Medicina tem isto de bonito. Como é que a simples observação dos efeitos laterais de um fármaco usado há dezenas de anos faz pequenas revoluções ainda nos dias de hoje.? Foi apenas há 5 anos, em Junho de 2008, que um grupo de médicos de Bordéus publicou uma carta ao editor do New England Journal of Medicine. Nela relatavam uma evidente diminuição dos hemangiomas de doentes com cardiopatias complexas tratados com o propanolol – um beta-bloqueador há muito tempo usado na prática médica e conhecido do grande público pela sua primeira marca comercial, o Inderal.

[fonte: nejm.org]
A imagem pode impressionar um bocadinho, pelo que clique aqui se quiser vê-la maior.

Os hemangiomas infantis são tumores vasculares. Os mais comuns na criança. Estima-se que afecte 5-10% dos bebés. São perfeitamente benignos, existindo apenas um ou dois casos relatados de degeneração maligna. A maioria aparecem na pele, embora possam aparecer noutras regiões do corpo, como o fígado, cordas vocais, etc. Muitos deles são pequenos e escondidos dos olhares alheios, outros são muito inestéticos, outros sangram, outros têm localizações incómodas ou que impedem o normal desenvolvimento da crianças. No exemplo dado pelos autores, o hemangioma impedia a abertura normal do olho, atrasando o desenvolvimento normal da visão, por falta de estímulo).

Os hemangiomas infantis têm uma história natural muito característica e curiosa. Eles podem aparecer como uma pontinha vermelha ao nascer, mas só se notam verdadeiramente quando começam a evoluir/crescer, já nos primeiros meses de vida. Esta fase de crescimento (fase evolutiva) pode durar até 8-12 meses. Posteriormente, todos eles regredirão. Daquele aspecto vermelho vivo e volumoso passarão a ter um aspecto de hematoma em absorção. Ele vai diminuindo e ficando pálido. No final, passados 4-7 anos (dependendo do tamanho), notar-se-á apenas uma excesso de pele local com uma pequena alteração da cor ou tecido vascular residual. Classicamente, apenas se tratavam os hemangiomas mais graves, os tais sangrantes, inestéticos ou incapacitantes para o desenvolvimento do bebé. Fazia-se com corticóides em altas doses com o preço dos efeitos laterais que eles acarretam para crianças tão pequenas, nomeadamente diminuição das defesas do organismo e atraso no crescimento. Aos restantes, esperava-se que aumentassem, depois diminuíssem e retirava-se o tal tecido residual (caso ficasse ‘feio’).

Desde o anúncio de que o propanolol diminui o crescimento (e eventualmetne acelerar a regressão) dos hemangiomas, há uma tendência a usá-lo em mais casos e desde o aparecimento do hemangioma, impedindo que ele cresça tudo o que cresceria. Tratando-se de um fármaco destinado a problemas cardiológicos é normal que possam haver efeitos laterais a esse nível. Daí, a maioria dos autores recomenda uma avaliação por cardiologia pediátrica, antes e depois de iniciar o tratamento. Em todo o caso, é necessário avaliar o risco-benefício para cada doente e discutir todas as opções terapêuticas com o cirurgião. Nas lesões maiores pode ser necessário associar os já citados corticóides, fármacos anti-neoplásicos ou até avançar para cirurgia mais precocemente. Em pequenas lesões, a terapêutica com laser pode ser opção. Segundo a imprensa, terá sido esse o tratamento utilizado na ‘manchinha’ da Infanta Leonor.

[fonte: everyone.web]
Imagem que correu Mundo e é responsável por ainda hoje chamarmos manchinhas de princesa‘ aos hemangiomas das meninas. 

Diversificação alimentar sob a perspectiva de uma pediatra que também é Mãe! (continuação)

Para além do excelente texto que publiquei esta manhã, a Dra FIlipa enviou-me este exxemplo práctico que podemos seguir para a introdução dos diferentes alimentos na dieta dos pequenos. Guardem esta cábula, que é uma preciosidade.

Diversificação alimentar sob a perspectiva de uma pediatra que também é Mãe! (continuação)
Filipa Vasconcelos Espada

(Supondo que vamos iniciar a diversificação alimentar aos 5 meses)

5 meses: 1 sopa de legumes. As restantes refeições de leite materno ou adaptado.

5 meses e 1 semana: 1 sopa de legumes e 1 papa de fruta (maçã ou pêra cozida, ou assada ou ao vapor). As restantes refeições leite materno ou adaptado.

5 meses e 2 semanas: 1 sopa de legumes + papa de fruta (a maçã ou a pêra já podem ser cruas desde que muito maduras). Ir introduzindo novos legumes de 3/3 dias. 1 papa de cereais láctea ou não láctea mas sempre sem glúten. 4 refeições de leite materno ou adaptado.

6 meses:  1 sopa de legumes + papa de fruta; 1 papa de cereais com glúten (introduzir o glúten nesta altura); 4 refeições de leite materno ou adaptado.

6 meses 1 semana: 1 caldo de carne (com frango ou peru) + papa de fruta (ir diversificando, lentamente as frutas); 1 papa de cereais com glúten; 4 refeições de leite materno ou adaptado.

6 meses e 3 semanas: 1 sopa com carne (progressivamente introduzir frango, peru, avestruz, coelho, pato, vaca, de acordo, também, com os hábitos da família); papa de fruta (ir diversificando, lentamente as frutas); 1 papa de cereais com glúten. 4 refeições de leite materno ou adaptado.

7 meses: 2 sopas com carne e legumes (quantidade total diária de carne 25 a 30g apenas numa sopa ou que pode ser dividida pelas duas sopas) + papa de fruta (ir diversificando, lentamente as frutas); 1 papa de cereais com glúten; 3 refeições de leite materno ou adaptado.

7 meses e 2 semanas: 1 sopa de carne e legumes + papa de fruta; 1 farinha de pau ou açorda com carne e legumes; 1 papa de cereais com glúten; 3 refeições de leite materno ou adaptado. Ir progressivamente diversificando os alimentos, introduzindo 1 novo alimento de 3/3 dias, e progressivamente alterar a consistência das papas e sopas para cada vez mais grumoso.

9 meses: 1 sopa de carne ou peixe com legumes; 1 puré de carne ou peixe com legumes e batata ou arroz + papa de fruta; 1 papa de cereais com glúten; 3 refeições de leite materno ou adaptado. Nesta data, a consistência dos alimentos deve evoluir lentamente de grumosa a pequeninos pedaços.

9 meses e 2 semanas: 1 sopa de carne ou peixe com legumes; 1 puré de carne ou peixe com legumes e batata ou arroz + 1 iogurte com ou sem fruta natural adicionada; 1 papa de cereais com glúten; 2 refeições de leite materno ou adaptado. A fruta pode ser fornecida após uma sopa ou em conjunto com o iogurte. A refeição do iogurte pode ser substituída por uma refeição de leite.

10 meses: 1 sopa de carne ou peixe com legumes, podemos introduzir pequenas porções de feijão fradinho, feijão branco ou preto bem demolhado e cozinhado); 1 puré de carne ou peixe com legumes e batata ou arroz + 1 iogurte com fruta natural adicionada; 1 papa de cereais com glúten; 2 refeições de leite materno ou adaptado. Fornecer os alimentos já em pequenos pedaços.

10 meses e 1 semana: 1 sopa de carne ou peixe com legumes, (podemos introduzir pequenas porções de feijão fradinho, ou feijão branco ou preto bem demolhado e cozinhado); 1 puré de carne ou peixe com legumes e batata ou arroz ou uma açorda com ¼ a 1/2 gema de ovo; 1 iogurte com fruta natural adicionada; 1 papa de cereais com glúten; 2 refeições de leite materno ou adaptado. Variar o conteúdo das refeições.

12 meses: 1 sopa de carne ou peixe com legumes (podemos introduzir pequenas porções de feijão fradinho, ou feijão branco ou preto bem demolhado e cozinhado); 1 puré de carne ou peixe com legumes e batata ou arroz ou uma açorda com 1/2 ovo (nesta açorda o ovo substitui a carne ou o peixe); 1 iogurte com fruta natural adicionada; 1 papa de cereais com glúten; 2 refeições de leite materno ou adaptado. Aos 12 meses já podemos fornecer ovo inteiro, devemos variar entre carne, peixe ou ovo.

Nota final: Este é um exemplo de diversificação alimentar, existindo muitos outros. Esta deve ser realizada, sempre, de acordo com as orientações do Pediatra assistente e sempre, adequada a cada lactente e sua família.

Amar é cuidar e cuidar também é alimentar (adequadamente)!

Diversificação alimentar sob a perspectiva de uma pediatra que também é Mãe!

A Convidada Especialista desta semana é Pediatra. A Dra. Filipa Vasconcelos Espada foi «Mãe pela primeira vez aos 40 anos», orgulhosamente. O seu menino nasceu pouco tempo antes do MM, pelo que as aventuras alimentares estão a começar de ambos os lados. Quem melhor para nos deixar umas dicas sobre a introdução dos novos alimentos durante o primeiro ano de vida? A Dra. Filipa trabalha no Hospital Pedro Hispano (Matosinhos) e no Hospital da Arrábida (VNGaia).

Diversificação alimentar sob a perspectiva de uma pediatra que também é Mãe!
Filipa Vasconcelos Espada

A diversificação alimentar é uma etapa fundamental para o adequado crescimento do lactente e para o seu desenvolvimento físico, psicomotor, sensorial e cognitivo. É o meio de transição do aleitamento para a alimentação em família e um meio de sociabilização. É à mesa da refeição, com muito amor, persistência e paciência, que se ensinam e se aprendem regras sociais, que se partilham experiências e problemas… É também, à mesa, que podemos promover a saúde e o crescimento do nosso filho e torná-lo, gradualmente, um adulto saudável, responsável, sociável e feliz … Mas para isso são precisas regras!

[imagem enviada pela autora]

Até aos 4 meses devemos manter, preferencialmente, o aleitamento materno exclusivo. O leite adaptado em exclusividade ou como complemento será por opção materna, doença ou insuficiência láctea. A introdução de novos alimentos nunca deve ser estabelecida antes dos 4 ou após os 6 meses. Varia, dentro deste intervalo, dependendo de condicionantes como o inadequado crescimento do lactente ou da necessidade da mãe voltar ao trabalho. Uma adequada introdução dos alimentos ajuda a prevenir uma série de doenças como alergias, obesidade, desnutrição, hipertensão arterial, doença celíaca, diabetes mellitus tipo 1…

Não existe uma base científica de recomendação da ordem de introdução dos novos alimentos. Esta depende das características do lactente, da presença de alergias, da área geográfica e dos hábitos familiares. Mas existem regras que devem ser respeitadas:

  • um alimento novo só deve ser introduzido quando o lactente estiver de perfeita saúde;
  • o horário da refeição deve ser respeitado;
  • deve-se privilegiar o uso da colher;
  • a introdução de novos alimentos deve ser gradual, com aumento progressivo da sua quantidade e consistência.
  • deve ser introduzido 1 alimento novo cada 3 a 7 dias;
  • não devemos forçar o bebé a ingerir a totalidade da refeição (come a quantidade que quiser);
  • a refeição deve ser um momento vivido em família, com diálogo, alegria, persistência, paciência e amor.

Como eu faço: Podemos sempre iniciar a diversificação alimentar com papa láctea sem glúten ou com sopa de legumes. Eu escolho iniciar com sopa de legumes porque o paladar para o doce é inato pelo que é mais importante treinar precocemente o paladar para sabores não doces.

Sopa de legumes
Como referi, pode ser a primeira refeição a ser introduzida. Entre os 4 e os 6 meses. Iniciar sempre com 3 legumes frescos e deve ser, idealmente, cozinhada no próprio dia. A sua consistência deve ser, inicialmente, cremosa e passando progressivamente a grumosa e depois com pequeninos pedaços.
Como fazer? Cozer abóbora, 1 cenoura média e 1 batata média ou 3 colheres de arroz; acrescentar 5 a 7,5ml de azeite < 0,5º de acidez no final da cozedura; nunca acrescentar sal. Introduzir mais 1 novo alimento à sopa inicialmente de 7 em 7 dias e depois de 3 em 3 dias. Destes podemos escolher: alface, curgete, couve-flor, couve coração, couve lombarda, alho francês, brocúlo, cebola, alho…

Ensino aos pais dos meus doentes uma mnemónica para saberem que alimentos não devem introduzir nesta idade: alimentos com folhas verdes escuras: espinafres, nabiças, grelos, agrião; alimentos vermelhos: tomate, pimento; alimentos roxos: beterraba, couve roxa, nabo; leguminosas: grão, feijão, ervilhas e favas.
Depois podemos, alterar a base da sopa de legumes de cenoura, batata e abobora para, por exemplo: curgete, couve flor e arroz e acrescentar mais um ou dois legumes.

Fruta
A fruta deve ser introduzida como complemento de uma refeição, habitualmente no final da sopa de legumes. Pode ser iniciada entre os 4 e os 6 meses, uma semana depois de ser introduzida a sopa de legumes. Deve ser fornecido um fruto de cada vez e não uma mistura de frutas. Nunca acrescentar açúcar.
Evolução semanal recomendada: maçã ou pêra cozida em puré; maçã ou pêra crua trituradas na varinha mágica ou esmagadas com um garfo (escolher fruta madura); banana madura; melão ou meloa; manga ou papaia; alperce… Os frutos vermelhos (morango, amora, mirtilhos, framboesa e tomate), o kiwi e o maracujá só devem ser introduzidos após os 12 meses.

Papa de cereais
A papa sem glúten pode ser introduzida, também entre os 4 e os 6 meses e pode ser láctea (para dissolver em água) ou não láctea (dissolvida no leite materno ou no leite prescrito pelo pediatra). A quantidade de farinha/papa recomenda é de 35 a 50g/dia. A papa com glúten só deve ser introduzida entre os 6 e os 7 meses, mas nunca depois dos 7 meses. Administrar uma vez por dia e nunca adicionar açúcar.

Carne
Iniciar após os 6 meses. A sua introdução começa pelo caldo de carne, que é feito cozendo peito de frango ou peru, sem pele ou gordura, no caldo de legumes e retirar a carne antes de passar com a varinha mágica.
Uma semana a 15 dias depois, já se faz a sopa de carne inicialmente com 10g de carne, aumentando progressivamente a quantidade para 30 a 40g por dia. Iniciamos com o frango ou peru, posteriormente o coelho, a avestruz ou o pato, de acordo com os hábitos familiares e finalmente a carne de vaca. A carne de porco só deve ser fornecida após os 12 meses.

Peixe
Introduzir aos 9-10 meses, começando pela pescada, abrótea, linguado, dourada, solha. Deve ser sempre peixe muito fresco ou congelado ainda em alto mar. É mais fácil escolher postas grandes para não terem tantas espinhas.

Ovo
A gema pode ser introduzida aos 9 meses e devemos administrar ¼ de gema em dias alternados. O ovo inteiro deverá ser administrado apenas perto dos 12 meses de idade.

Iogurte
Introduzir após os 9 meses, existindo no mercado vários com composição mais adequada ao lactente. Deve, a partir dessa data, ser consumida uma porção de 150 a 200ml de iogurte por dia.

Continua…

Qual é a pressa?

Um e-mail enviado por uma leitora a propósito da hiper-estimulação precoce na pré-escola fez-me recordar os tempos em que eu e a Mãe corremos Ceca e Meca à procura de um infantário para o JM. Alguns deles tinham programas pedagógicos de tal modo complexos que eu tinha medo que o pequeno não passasse da sala dos 6 meses para os maiores de 12 meses com ‘aproveitamento’.

Nem de propósito, o psicólogo Eduardo Sá esteve num colóquio organizado pela revista Pais&Filhos a falar sobre o tema. Eu não estive lá, mas tive o privilégio de o ouvir sobre o mesmo tema, num seminário que decorreu há uns 7 anos, no âmbito de um curso de formação contínua em Pediatria, no Hospital de Santo António. E aprendi bastante com o que ouvi. Cá em casa (como deduzo aí em casa também), queremos criar crianças felizes. Claro que isto não é tão simples como deixar fazer tudo o que elas querem, quando, como e onde elas querem. Além do mais, se queremos que as crianças felizes dêem adultos felizes, temos que as deixar bem preparadas para os desafios que terão durante a sua vida futura.

Como em tudo, é preciso bom senso e não cair em exageros. As crianças têm que ser crianças. Têm que comer, brincar e dormir, comer, brincar e dormir. E, comendo, brincando e dormindo, ir crescendo de forma saudável. Não adianta forçar aprendizagens para as quais elas não estão preparadas. Roubando umas frases ao Dr. Eduardo Sá, «o jardim de infância não é para aprender a ler nem a escrever»;  «as crianças antes de aprender a ler, aprendem a interpretar»; «não é por tornarmos uma criança um macaquinho de imitação que ela vai ser mais inteligente».

O JM nasceu em Janeiro e foi ponto assente, desde o início, que não iríamos forçar a entrada na escola primária com 5 anos. «Com uma avaliação da psicóloga, isso consegue-se», disseram-nos numa das visitas. Mas, para nós, tanto faz que o miúdo acabe a primária (e depois o ensino secundário) um ano antes ou um ano depois. Mais, se for vontade dele, seguir para o ensino superior, que perca lá o tempo que for necessário. Nós queremos é que ele seja feliz. Qual é a pressa?

Ainda roubando umas ideias ao Dr. Eduardo Sá, «o jardim de infância deve ser um local para a criança receber educação musical (“a música torna-os mais fluentes na língua materna”) e educação visual (“quanto mais educação visual tiverem, menos dificuldades têm de ortografia”)». É isto que queremos para os nossos filhos antes de entrarem na escola primária. Que brinquem, que cantem, que saltem e corram, que joguem à bola, às escondidas. Além do mais, só dando-lhes liberdade é que eles vão explorando os seus diferentes interesses e nós lhes vamos conhecendo os gostos e as aptidões. Daí que, mesmo já na escola primária a ler e a escrever, queremos que brinquem, pulem, esfolem os joelhos, experimentem flauta, piano, viola, natação, ténis, surf, rugby. Que sejam crianças. É tão bom ser criança… Qual é a pressa?

JM nos ‘ifufáveis’ de Esposende, este Domingo, a ser criança.

Depois de pegar na chupeta é difícil largar (ou mais 4 coisinhas sobre chupetas)

1) Existindo tanta oferta mercado, pode ser difícil aos pais escolher a melhor chupeta. Deixo-vos alguns aspectos que podem ajudar na escolha:

  • as chupetas de uma peça são melhores porque não há peças em risco de se soltarem e serm aspiradas
  • as chupetas deverão ser maleáveis quanto baste para se adaptarem à boca do bebé, mas não frágeis o suficiente para se desfazerem
  • as de borracha exigem uma troca mais frequente, porque começam a largar partículas
  • o aro à volta da tetina deverá se grande o suficiente para impedir a introdução total na boca da crianças e ter aberturas para a passagem de ar, caso isso aconteça
  • a forma da ponta pode ser variável e umas dizem-se mais anatómicas que outras. Não encontrei estudo nenhum que me diga que uma forma é melhor para o desenvolvimento dentário ou entermos de aceitação pelo bebé que outra, pelo que o melhor é comprar, experimentar e dar-lhe a que ele gostar mais.
Com vêm nem sempre a chupeta mais bonita será a mais segura para o bebé, mas, como em tudo, temos que ter bom senso. Cá em casa, não deixámos de comprar chupetas com o nome do JM ou umas do Mickey (que ele adorava), apenas porque não eram de uma só peça. Obrigou apenas a que estivéssemos mais vigilantes quanto às condições do material.


2) Outro conselho que deixo sempre: tenham muitas chupetas disponíveis. Trocar de chupetas frequentemente é uma questão de higiene (muitas vezes não temos onde as lavar) e de segurança, porque as partículas que se soltam podem ser aspiradas pelo bebé. Mas é também uma forma de evitar que a criança se ‘vicie’ numa chupeta específica, não aceitando qualquer outra. Tinha uma tia que teve que coser várias vezes uma chupeta velha e praticamente podre, porque a minha prima não dormia senão com aquela chupeta (imaginem o perigo!). O mesmo se aplica às tetinas do biberão. Podem ler aqui o que passámos com o JM.

3) Para quem quer amamentar, aconselha-se a introdução da chupeta após o bebé ter aprendido bem a mamar,  o que deverá acontecer até às 3-4 semanas de vida. Repito, o uso da chupeta tem-se provado benéfico na prevenção da morte súbita.

4) Outra vantagem do uso da chupeta é que ela é mais fácil de ‘desmamar’ do que o dedo. Este último está sempre disponível, enquanto a chupeta pode desaparecer de vez em quando. Não há fórmulas mágicas para o fazer. Os pais terão de encontrar a melhor altura e a melhor estratégia para ajudar a criança a deixar a chupeta.

Nota final.  Um dos objectivos deste blogue é dar ferramentas aos pais para poderem tomar as decisões respeitantes aos seus filhos por eles próprios e não seguirem apenas ordens médicas ou regras pré-estabelecidas, que tantas vezes são provadas e depois refutadas ao sabor dos tempos. Um dos meus primeiros textos neste blogue descreve a estratégia que usámos para o JM deixar a chupeta. Um texto a que dei o título ‘pai imperfeito‘ e que me deu muito gozo escrever. Representa outro dos objectivos deste blogue: há histórias que não quero esquecer;  há histórias que mostram quão imperfeitos podemos ser. E isso é tão bom.

Evitar a morte súbita do lactente com a chupeta (mas não só)

Ainda no que diz respeito às chupetas saiu outro estudo muito interessante. Na última Pediatric Academic Societies Meeting, a Dra. Rosemary Horne apresentou os resultados de um estudo feito em 37 lactentes, em que mostra que o uso de chupeta no acto de adormecer provoca variações da frequência cardíaca e da tensão arterial maiores durante o sono, o que pode ter um papel protector na prevenção da morte súbita..Há muito tempo que se sabe que o uso da chupeta ajuda na prevenção do Síndrome de Morte Súbita, mas o mecanismo exacto pelo qual ela actua é ainda desconhecido. De facto, sabemos hoje que, para além da falta de ar, tão ou mais importante na génese da morte súbita do lactente poder estar uma má resposta do sistema cardiovascular a variações da tensão arterial. Daí, as recomendações clássicas:

  • Deitar o bebé para dormir sempre de costas. Uma grande luta, pois é difícil convencer os pais (e principalmente os avós) que a criança tem a mobilidade necessária para virar a cabeça se se engasgar durante a noite. Confiem, é muito mais perigoso que eles estando de lado ou de barriga para baixo rodem a cabeça e a prendam contra o colchão.
  • Prender o bebé de forma a que ele não vire durante a noite. Repito, o pescoço é suficiente móvel para o bebé reagir a qualquer vómito ou acesso de tosse que surja. Cá em casa, usamos aqueles sacos-cama com suspensórios, em que a criança fica literalmente vestida com a roupa de cama. Permite que o MM mexa livremente as mãos e os pés, mas de forma alguma se consegue virar.
  • Quando acordado, deitar o bebé de barriga para baixo alguns minutos por dia, para que ele faça exercício e fortaleça os músculos do pescoço. Assim, se durante a noite, ele virar de barriga para baixo, terá força para rodar a cabeça e respirar.
  • Não deitar o bebé na cama com os pais. Muitas vezes, os pais adormecerão primeiro que a criança, correndo o risco de sufocá-la, seja pelo excesso de calor na cama ou com o peso do seu próprio corpo. Muito cuidado com a amamentação na cama.
  • A cama do bebé deverá ter um colchão firme e livre de bonecadas que lhe possam tapar a cara.
  • Não sobreaquecer o ambiente do quarto nem a cama. O sobre-aquecimento relaciona-se com uma diminuição da tensão arterial e uma maior dificuldade em respirar.
  • Usar chupeta para adormecer. Ela cairá passados uns minutos de adormecer, mas não é necessário voltar a colocá-la.
  • Manter o bebé (a dormir ou acordado) longe do fumo. Já escrevi um bocadinho sobre os malefícios do tabaco, quando recomendei uma aplicação para ajudar os fumadores (aqui).
[fonte: ikea.pt]

No website da Sociedade Portuguesa de Pediatria existe informação mais completa sobre o Síndrome de Morte Súbita do Lactente e tudo o que podemos fazer para evitar. Passem por lá, porque é sempre bom recordar.

Cuidados com as cicatrizes

Perguntam-me muitas vezes como disfarçar uma cicatriz. Antes de mais, é importante perceber que as cicatrizes inestéticas evitam-se, começando com os cuidados antes da incisão (no caso de ser uma cirurgia programada) ou no acto de sutura (se tiver sido uma ferida acidental). Os cirurgiões pediátricos têm uma grande responsabilidade sobre eles, porque as cicatrizes que deixam são para toda a vida. Por isso, existe sempre uma preocupação estética no que diz respeito ao local e ao tamanho das incisões que fazemos. Para além da escolha de zonas menos visíveis, o cirurgião pediátrico fará as incisões em pontos de menos tensão da pele (por exemplo, nas pregas naturais que a pele faz), para que o processo de cicatrização seja mais fácil, e a cicatriz não ‘alargue’. Outros cuidados têm a ver com o tipo de fios usados, o ponto dado, o tipo e tempo em que o material estará incorporado no tecido, mas entraria numa discussão técnica que não interessa para o caso.

Depois do ‘estrago’ feito, os tecidos serão aproximados (suturados) de forma a que a cicatrização da pele se faça da forma mais natural possível. Existe uma fase inicial de inflamação que dura 2-5 dias. Depois, segue-se a fase de regeneração das fibras de colagénio (matéria que dá suporte e elasticidade à pele), que mais tarde (numa terceira fase) vão rearranjar a sua arquitectura até dar o aspecto definitivo da pele cicatrizada. Posto isto, como devemos cuidar da ferida para que a cicatriz não fique feia?

1º Cumprir as ordens médicas. As feridas são muito diferentes. Para além de causas diversas, os locais, os fios de sutura usados, a profundidade do corte, entre outros pormenores irão influenciar os cuidados necessários. Daí, cumpra o que lhe disserem. Se o penso é para levantar passados 5 dias, levante. Se os pontos são para tirar passados 10 dias, tire. Se lhe derem a indicação para aplicar Betadine ou uma pomada com antibiótico, aplique. Estes cuidados iniciais são fundamentais para que a ferida não infecte nem abra antes do tempo. É o primeiro passo para uma boa cicatrização.

Tirados os pontos e estando a crosta formada, é tempo de massajar a cicatriz. A massagem com um creme gordo 2-3x ao dia, ajuda a amolecer a fibrose (endurecimento) dos tecidos por baixo da cicatriz. Para além disso, hidrata uma pele que está sensível, ajuda a retirar as células descamativas da crosta e alivia algum prurido (comichão) que possa existir na zona da cicatriz.

3º Proteger muito bem da luz. A cicatriz passará por várias cores. Saída a crosta, fica uma linha ruborizada que vai escurecendo até ficar castanha, clareando de seguida até ficar branca (ou pelo menos mais clara que a pele normal à sua volta). Até chegarmos até esta fase mais clara é importante proteger muito bem do Sol. De outra forma, vai haver muita estimulação dos melanócitos (células responsáveis pela produção do pigmento da pele), fazendo com que a cicatriz fique escura. Esta fase pode demorar 6 meses a um ano, pelo que pode apanhar os meses de calor. Assim, proteger sempre muito bem com um bom protector solar, reforçado várias vezes ao dia.

Havendo uma preocupação estética (dado o local da cicatriz) ou historial de cicatrizes que ficaram muito feias (quelóides ou cicatrizes hipertróficas) é aconselhável aplicar um gel de silicone. Apesar de poder ser usado como tratamento de cicatrizes inestéticas, o gel de silicone tem maior efeito se usado assim que cai a crosta. O gel cria uma película protectora, deixando por baixo um ambiente ideal para a cicatrização. Esta camada dura 24 horas, mas, se for em zonas de fricção, convém reforçar a meio do dia. No mercado português, existem duas marcas: o Dermatix (€40,90) e o Kelo-cote (€31.05), sendo que este último tem uma versão ‘solaire’ que incluí uma protecção SPF 30 (€40,13). É um dois em um ideal para aplicar nas zonas expostas ao Sol. O preço é caro para a bisnaga mínima que contém, mas a película a colocar deve ser mesmo transparente. Os 15g deverão durar os três meses do tratamento.

Uma opinião sobre Educação

O Convidado Especialista desta semana apresenta-se como “marido, pai de 3, irmão de 6, tio de 15, pediatra”. O Dr. José Sizenando Cunha é um velho amigo e aceitou o desafio de escrever um texto livre para este blogue. Surpreendeu-me com esta bela opinião sobre a Educação (assim com letra maíscula). O Dr. Sizenando (é por este nome que é conhecido) trabalha no Instituto CUF e no Hospital da Arrábida. Não escreve em blogues, mas é muito activo no facebook, onde partilha pensamentos e artigos. A sua timeline é pública, pelo que podem e devem seguí-la.

Uma opinião sobre Educação
José Sizenando Cunha

As principais causas de mortalidade infantil preveníveis são os acidentes (dos quais os rodoviários são uma fatia importante) e os suicídios (4,5 mortes/ ano /100 000 crianças dos 10-19 anos, nos EUA). E estes são certamente a ponta de um iceberg de desilusão, em que drogas e outras fugas estarão incluídas.

Parece brutal iniciar assim uma crónica mas, objectivamente, o que queremos para os nossos filhos é que SEJAM felizes! E parece óbvio que isso implica uma boa saúde e estrutura mental. Porque SER feliz não é TER casa, cama e roupa lavada, nem sequer é obrigatório ser fisicamente saudável ou ter comida na mesa. Vi em Moçambique crianças extremamente felizes TENDO muito pouco. Será que ser feliz é estar em equilíbrio com o meio envolvente?

No boletim de saúde infantil, na consulta dos 12 meses, diz: aprendizagem de regras sociais. Porque a nossa liberdade acaba quando começa a dos outros, e as experiências de crianças com liberdade total não têm tido finais felizes. Entre o autoritarismo e a permissividade há um meiotermo que temos de descobrir e adequar à nossa família, à nossa cultura e à personalidade (congénita) da criança. Para chegar ao equilíbrio uma ferramenta que temos é a Educação.

Os filhos do Dr. Sizenando: M., P.e J. (6, 0 e 4 anos).

Gosto de pensar na Educação como um caminho que queremos que o nosso filho percorra. Se não houver balizas, limites, como é que ele sabe por onde ir? Se definirmos esses limites como muros, podemos escolher se o caminho é mais estreito ou mais largo. Se for muito estreito, só aprenderam uma direcção a seguir, quando saírem dos nossos muros; se for largo, fica muito incerto o caminho que escolhem em adultos.

Podemos escolher se esses limites são de pedra ou aço ou bambu, esponja ou mesmo daqueles plásticos com bolhinhas. Porque vai haver choques /birras. E o modo como aprendem a comportarse nesses confrontos ajuda a criar resiliência. Podemos definir a altura desses limites e as brechas, as vezes que se foge à regra. Depois, temos de desenhar, nesses muros, portas, cancelas e janelas (de música, de arte, de desporto, de religião, de escolaridade), em número e tamanho que achemos adequados, a aparecerem no caminho com regularidade, com maior ou menor dificuldade de abertura. E decorar esse caminho de amor, carinho, com setas a apontar a direcção que julgamos correcta, com metas intercalares, prémios de montanha (afectivos), empurrões nas subidas mais difíceis, travões nas descidas mais íngremes. Mas ensinar o valor do esforço, estimular a confiança nas suas capacidades.

E esse caminho, esse chão, é feito de quê? Areia, grama fofinha? Terra batida? Auto-estrada com via verde? Para mim, o chão é a família, que apoia e ampara, nmas também com pedras e obstáculos a superar. Para chegar aos 18 anos e saber para onde ir, e como lá chegar, com que companhia.

Confusos? Eu também ainda um pouco, mas é só uma opinião.

P.S. “Quanto ao resto, gosto da ideia do caminho que vamos balizando. Sugeria 2 coisas que me parecem importantes. Uma é a luz que vamos colocando nesse caminho, que pode salientar o melhor ou o pior dos nossos filhos. A outra é que nós estamos a caminhar com eles, e eles também olham para nós. Dois princípios: a atenção e a modelagem.

A resiliência também é outra conversa, pois além de se desenvolver/estimular, depois existem aquelas coisas inatas, como os pés do Cristiano, ou do Kelvin (maldade!), ou o talento para algo, que faz com que algumas crianças, em condições adversas superem obstáculos.

E depois também temos a personalidade dos miúdos, e a história (fantasmas) das famílias, e os tempos históricos, e tantas outras coisas. Mas sem duvida, que muito, ou alguma coisa, está mesmo nas mãos dos pais, e por isso podem pôr as mãos na obra”: por João Guerra, pai de 3, irmão de 1, tio de 1, pedopsiquiatra.

P.P.S. Faltam ainda 1 noção importante: “ o 1º princípio da parentalidade é cuidar de si como pessoa” e cuidar do casal. Se este for feliz o resto vem por arrasto. E é esta base emocional de felicidade que assegura que com erros e enganos lá vamos indo no sentido certo.

Mãos muito suadas

Hoje tive uma visita que me encheu o coração de alegria. Uma adolescente sofria de hiperidrose palmar (sudorese excessiva das mãos), há vários anos. Fizemos-lhe uma simpaticacetomia toracoscópica bilateral e o resultado, segundo a própria, foi excelente. Vinha com uma atitude mais positiva, menos envergonhada, confiante.

A hiperidrose (ou hipersudorese) é a produção de suor em excesso. Na maioria das vezes ela é palmar (palma das mãos), mas pode afectar também os pés e as axilas, é uma doença altamente incapacitante. A hiperidrose palmar primária é o nome específico que damos quando não existe causa aparente para este excesso de suor. Em 40-50% dos casos há um pai ou uma mãe que sofrem da mesma perturbação. Esta doença manifesta-se no início da adolescência. O/a adolescente pinga literalmente das mãos, o que o/a  limita em gestos quotidianos tão simples como escrever, manipular objectos, praticar certos desportos, dar a mão aos amigos. Todos nós passámos pela adolescência e sabemos que não é uma fase fácil, quanto mais se tivermos limitações que nos impedem de ter uma vida plena. A hiperidrose palmar primária tem um impacto enorme na auto-estima destas crianças. Já se imaginaram tão novinhos a ter que abandonar um desporto que gostavam, a ‘borratar’ os papéis da escola, a não poder dar  a mão a(o) namorado?

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[fonte: dermcarecharlotte.com]

Talvez por ser vista como uma fatalidade («já o teu pai é assim»), a hiperidrose palmar primária é sub-diagnosticada. Estima-se que 1-3% da população sofra desta doença, mas o número de doentes tratados não corresponde a este número. Nem todas as situações terão a mesma gravidade e existem soluções não cirúrgicas para os casos mais leves. Mas, de facto, a única solução definitiva é o palavrão que escrevi mais acima: simpaticectomia toracoscópica bilateral. Por toracoscopia (isto é, utilizando uma câmara de vídeo introduzida no tórax, através de uma incisão de 5mm na axila) e com mais uma incisão de 5mm (logo abaixo da anterior), corta-se a cadeia nervosa simpática, responsável pelo reflexo de hipersudorese. Faz-se isto bilateramente, isto é, dos dois lados, pelo que a adolescente fica com 2 mini-incisões por baixo da axila em cada lado. É uma cirurgia com anestesia geral, mas a alta é dada logo no dia seguinte.

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[fonte: sweatthroughit.com/]

Os resultados são de facto imediatos. No próprio dia da cirurgia as mãos já estavam completamente secas. Hoje, considera que sua menos dos pés, embora a experiência de outros casos nos diga que pode haver alguma hipersudorese compensatória noutras regiões do corpo, nomeadamente os pés.  Ela gosta muito de escrever e o suor nas mãos dificultava-lhe muito. O ânimo dela agora é tanto, que acho que ela vai melhorar as notas (que não eram famosas). Eu já lhe encomendei uma redacção: como correu a minha operação. Depois peço-lhe autorização para colocar aqui uns excertos.

Cortes e esfoladelas

Ficou prometido desde a semana passada que escreveria sobre feridas. A semana passou rápido, mas ainda há tempo para explicar duas ou três coisas sobre as feridas. A premissa mais importante é que para um cirurgião existem dois tipos principais de feridas: as feridas incisas (vulgo corte), em que existem dois bordos definidos que romperam e precisam de uma sutura que os volte a unir; e as escoriações (vulgo esfoladelas), em que a pele foi raspada e perdeu algum tecido, mas não existem bordos livres para suturar. Claro que entre os dois, há várias gamas de cinzentos:  bordos de um incisão esfolados ou escoriação com zonas profundas que se podem aproximar.

Exemplo de ferida incisa [fonte: http://lifeat169.blogspot.pt%5D
Tendo isto em mente, o que fazer perante uma ferida? Primeiro, não entrar em pânico. Quando olhar para uma poça de sangue ou uma mancha enorme na roupa, mantenha a calma. O sangue assusta, mas, na realidade, o que se perde nunca será tanto quanto o que parece visualmente. A criança está aos berros, porque está assustada. Uns pais serenos e com a cabeça no lugar serão fundamentais para os passos a seguir.
Segundo, expor a ferida (tirar a roupa se for preciso) e lavar abundantemente com água fria corrente. Este passo é fundamental por duas razões. Um, limpar a ferida ajuda a tirar poeiras e microrganismos que, à medida que a ferida vai maturando (‘secando’) vão ficar agarradas ao leito ou aos bordos, dificultando a sua remoção mais tarde, no serviço de urgência. Dois, a água fria é vasoconstrictora, isto é, ajuda o mecanismo natural dos vasos sanguíneos de se contraírem para ‘estancar’ o sangue.
Terceiro, é preciso ajudar a parar a sangria. Depois ou enquanto se limpa já se percebe que tipo de ferida temos: ferida incisa (bordos definidos) ou escoriação (raspado). Em qualquer dos casos, o importante é apertar com força, tapando com uma compressa (ou à falta de melhor, um lenço de papel ou pano). E não dói? A compressão da ferida não dói mais do que o contacto com o ar dos terminais nervosos, que a ferida deixou expostos. Nesse sentido, o choro da criança pode até diminuir, caso a criança se sinta mais segura e calma.
Quarto, limpa a ferida e controlada a hemorragia, é tempo de ir com calma e sem atropelos para o serviço de urgência mais próximo. Aí apresentará uma ferida bem tratada e mostrará quão bom/boa pai/mãe é. Como disse em cima, as feridas incisas necessitarão provavelmente de sutura. Felizmente, existem agora suturas com cola biológica (o bem-amado octilcianoacrilato) que facilitam muito o trabalho na pediatria. A necessidade ou não de anestesia (local ou geral), assim como de pontos de aproximação dos tecidos profundos e plastias com retalhos, variam de caso para caso (e até de cirurgião para cirurgião). Tratando-se de uma escoriação, o mais provável é não haver sutura. O penso pode ser fechado e com pomada de antibiótico, para as escoriações mais profundas; ou aberto e com aplicação frequente de um antisséptico localmente, para as escoriações mais superficiais.
Exemplo de escoriação superficial [fonte: topnews.in]
De facto, as escoriações superficiais são muito fáceis de diagnosticar e tratar. Os pais mais experientes e/ou com filhos muito experimentados acabam por dispensar a visita ao serviço de urgência. Cumprindo os três primeiros passos, e tendo a hemorragia controlada, aplicam eles mesmos a solução de iodopuvidona (vulgo Betadine) ou outro antisséptico qualquer. Não usar álcool ou produtos com base alcoólica, por que dói (e há castigos melhores que a tortura física). Convém também saber que, quando a ferida é mais profunda (usar o critério dado nas queimaduras), o melhor é ir ao serviço de urgência fazer um penso fechado.