Bola vermelha

Dói que se farta e assusta os pais. Quando o pequeno aparece com um dos testículo vermelho e inchado, tecnicamente, chamamos-lhe escroto agudo. Os três sinais clássicos são: dor, rubor e edema.   Podem aparecer os três ao mesmo tempo ou dois a dois e são mais que motivo de recorrer ao médico, pois pode tratar-se de uma emergência cirúrgica.

Existe um pequeno capítulo sobre escroto agudo escrito por mim para o Livro de Orientações Clínicas da UPIP (Urgência Pediátrica Integrada do Porto). Está disponível aqui (páginas 561 a 566), mas posso trocar por miúdos. O escroto agudo, isto é, a dor testicular súbita e/ou vermelhão e/ou inchaço do mesmo pode ser o (ou os) sinal (ou sinais) de uma torção testicular. A torção testicular acontece quando o testículo roda sobre o cordão espermático – conjunto de vasos (que o alimenta), ao qual se junta o canal deferente (por onde passam os espermatozóides). Dêem uma volta de 360º ao ‘pescoço’ de um balão e tentem enchê-lo (não dá), ou esvaziá-lo (também não dá). O mesmo acontece ao sangue que irriga o testículo: não chega lá. O que lá está fica parado e trombosa. Se o deixarmos assim torcido, o testículo acaba por morrer ‘asfixiado’ e necrosar. Não é boa ideia.

A forma de ver se o sangue chega ou não ao testículo é através de ecografia com Doppler. Quando é diagnosticada uma torção, a destorção imediata tem de ser imediata. Há quem a faça, manualmente com um movimento de ‘abertura de livro’ (uma vez que 2/3 dos testículos rodam medialmente, isto é, para dentro). Esta manobra pode ser tentada pelo médico antes de enviar ao cirurgião pediátrico e exige sempre um controlo ecográfico, para se certificar que a vascularização melhorou ou, pelo contrário, piorou. O cirurgião pediátrico terá sempre que destorcer o testículo (cirurgicamente) e certificar-se que ele não volta a torcer, fixando-o bem na bolsa escrotal (orquidopexia).  Como muitas vezes, a causa da torção é uma má implantação do testículo (há quem os chame de ‘badalo de sino’), aconselha-se a fixação também do testículo do outro lado.

Isto assusta, mas não é preciso estar sempre a olhar para as bolas dos meninos. Esta situação acontece (geralmente) à entrada da adolescência, pelo que o rapaz já se queixa (ai se queixa!). Nos mais pequenos (porque a torção testicular pode acontecer desde o recém-nascido), a dor vai dar desconforto e choro intenso. Daí que, perante um bebé com choro inconsolável, deve abrir-se sempre a fralda. O testículo vermelho pode ser sinal de torção mas também de outras coisas mais benignas, como a epidedimite/orquiepidedimite (duas formas de inflamação testicular que resolvem apenas com anti-inflamatório), a hérnia e/ou hidrocelo (falarei delas num futuro post, mas que raramente são urgências cirúrgicas) ou situações mais raras como apendicite aguda, dermatite, púrpura de Henoch-Schönlein, entre outros. Contas feitas, quando vir uma bola vermelha, o melhor é consultar o médico/pediatra assistente para ele rotular a coisa e encaminhar da melhor forma.

Atacar a constipação (conselhos práticos)

A maioria dos pediatras não gosta de prescrever anti-tússicos (vulgo xaropes para a tosse) em crianças e têm razões para isso. A maioria não são eficazes e alguns deles até produzem mais secreções, ‘encharcando’ a criança. Já há alguns anos que a Associação Americana de Pediatria (AAP) desaconselhou os os xaropes da farmácia em favor dos remédios caseiros. Este texto (em inglês) do website da AAP é muito útil, porque esclarece o que podemos e devemos fazer para a atacar a constipação em cada grupo etário. Eis o resumo com um twist de cirurgião:

  1. Nariz pingoso? Assoar, limpar e/ou aspirar. O uso de anti-histamínicos (Fenistil, Atarax, Aerius, entre outros) é controverso, pois parece ter apenas eficácia nas alergias. Pessoalmente, acho que tentar não custa (muito) e, quando há melhoria, mantenho.
  2. Nariz obstruído? Limpar com soro fisiológico. Isto pode ser feito através da instilação de gotas em cada uma das narina, seguido de aspiração, ou irrigação com spray de ‘água do mar’ (existem de diferentes forças, consoante a idade). A AAP não refere o uso de gotas de fenilefrina (vulgo Neo-sinefrina), mas eu uso no mais velho, ainda que só em desespero de causa.
  3. Tosse? Hidratar bem e ‘fazer vapores’ (com vaporizadores/nebulizadores ou apenas expondo a criança ao vapor de água do banho). Pretende-se com isto que as secreções se mantenham fluídas e que a criança tussa. Atenção! Nunca expor directamente nenhuma criança à água a ferver. É muito perigoso, porque, num instante, um movimento brusco leva a uma queimadura grave (ver aqui o que fazer). Se a criança tem mais que 1 ano, pode-se dar uma colher de mel à noite; se for maior de 6 anos, pode chupar rebuçados. (1)

Se a criança ainda não tem 3 meses, se a febre é de preocupar (ver aqui), se há a sensação de falta de ar ou se o seu ‘olhómetro’ lhe diz que não se trata de uma simples constipação, não tente isto em casa. Consulte o médico ou pediatra assistente.

[fonte: thefw.com]

(1) O artigo da AAP não refere, mas existe um estudo de 2010, afirma ainda que o uso de óleo de extractos de cânfora/mentol/eucalipto (vulgo Vicks VapoRub) aliviam a sintomatologia nocturna. No mesmo estudo, 46% apresentaram algum tipo de efeito adverso, geralmente irritação local ligeira. Mais, alguns receios de toxicidade limitam o seu uso a maiores de 2 anos.

Qual a melhor solução para hidratação oral?

Fui falando aqui e aqui que, na criança com vómitos ou recusa alimentar, é importante assegurar que ela não desidrata. Isto significa que temos conseguir fazer entrar no organismo pelo menos tanta água quanto aquela que sai. E ela pode sair sobre a forma de vómitos, diarreia, urina, suor, vapor de água na respiração (principalmente se existir febre), mas pode entrar apenas por uma via: a boca (naturalmente, uma vez que, artificalmente, podemos fazê-la entrar endovenosamente, isto é, pela veia). Posto isto, importa saber: qual a melhor solução para hidratação oral? Água, chá, solução de rehidratação à venda nas farmácias?

Vamos a uma aula de Medicina (Fisiologia do primeiro ano). A maior parte da água bebida passará pelo estômago e será absorvida pelas células do intestino delgado (os enterócitos), através de um mecanismo fisiológico simples: os gradiente osmótico. O corpo humano tende ao equilíbrio. Por isso, a água passará sempre de um meio menos concentrado para um meio mais concentrado, de forma a dissolver este último até ao ponto das concentrações ficarem iguais dos dois lados (equilíbrio osmótico).
[]fonte: http://web.ics.purdue.edu]
No intestino proximal (o mais perto do esômago), existe um transporte activo de nutrientes do interior do intestino (lúmen) para dentro do organismo. Assim, quanto mais glicose, sais minerais e aminoácidos chegarem lá, mais serão ‘atirados’ para dentro do organismo, onde vão ficando em concentração cada vez maior. O resultado imediato é dar-se a entrada de água para haver a ‘diluição’ destes nutrientes e consequente re-equilíbrio das concentrações. Esta é a razão pela qual as soluções de re-hidratação oral são mais eficazes do que a água pura e simples. As SRO contêm nutrientes em quantidade suficiente para puxar a água para o interior do organismo.
O problema das SRO continua a ser o seu sabor. Apesar de haver alguns com sabores de frutas, a verdade é que o salgado é difícil de disfarçar. Os miúdos acabam por torcer o nariz, embora a maior parte dos pais consiga ir dando as necessidades basais por seringa ou à colher. Quando aos vómitos se associa diarreia, pode-se dar SRO com próbióticos. O seu resultado na diminuição da diarreia é discutível e não é consensual que traga benefícios efectivos. Na dúvida, costumo tentar, porque, mal não fazem. As SRO são de venda livre.
No fundo as SRO são fórmulas medicalizadas de mezinhas como o chá com açúcar (glicose), a água de arroz, fervura de cenoura, ou receituário doméstico como uma colher de chá de sal (NaCl) para duas de sopa de açúcar e um litro de água. Se o problema for ligeiro (e as situações que não requerem ida à urgência terão necessariamente que o ser), a água por si ou uma destas receitas caseiras serve perfeitamente para manter uma criança hidratada. Nos casos mais graves, em que os vómitos já condicionaram algum grau de desidratação,  é provável que o médico prescreva uma SRO. Eis alguns exemplos.

[fonte: elsevierinstituciones.com]
[fonte: korangi.pt]

O fantasma do apêndice (III)

Escrevi aqui alguns benefícios da laparoscopia no tratamento da apendicite aguda. Esteticamente, a vantagem é óbvia, pois evitam-se cicatrizes na fossa ilíaca direita, como a clássica incisão de McBurney, e outras mais radicais, como a incisão xifo-púbica (da apêndice xifóide, que é a ponta do esterno, ao púbis), uma risca de alto a baixo. Na Universidade do Minho, temos estudado a forma de fazer a apendicectomia o menos invasiva possível. Tem que se lhe diga e, este ano, vamos organizar pela primeira vez um curso intitulado: ‘Acute appendicitis: the end of the McBurney’s incision“. O título é provocador. Um curso laboratorial, clínico e cirúrgico dedicado em exclusivo ao tratamento da apendicite aguda.

Cerca de 7% da população terá que ser submetida a apendicectomia, no decurso da sua vida. Recordo que os maiores benefícios, para o médico e para o doente, não é a estética, mas sim o menor impacto em termos de dor, melhor recuperação da anestesia e da agressão cirúrgica. De qualquer forma, é sempre gratificante não deixar qualquer cicatriz visível.

Tirei esta fotografia no final de uma apendicectomia laparoscópica. O umbigo é a nossa ‘cicatriz natural’ . A outra mais baixa (à direita da imagem) tem 5mm e ficará por baixo ou no limite dos pelos púbicos.

O fantasma do apêndice (II)

Depois de percebermos o que é, como evolui e como tratar uma apendicite aguda convém guardarmos na algibeira uns conselhos práticos de como lidar com a dor de barriga dos pequenos. Assim, o que devemos fazer perante uma dor abdominal?

[fonte: appendicitisinchildren.net]

Primeiro, contextualizar. Houve muitas lambarices no dia anterior? Vomitou? Tem febre? A subida térmica acompanha-se de algum grau de contracção dos músculos abdominais, o que simula uma dor de barriga que passa assim que baixamos a febre. Assim, passemos ao segundo passo: aliviar a dor.

A analgesia da dor abdominal (principalmente antes de ser avaliado pelo médico) deve ser feita com paracetamol (ver doses aqui). Os anti-inflamatórios, como o ibuprofeno (vulgo Brufen) fragilizam a mucosa gástrica, o que pode levar a agravamento da dor ou transferí-la para uma posição epigástrica (local do estômago). Para além disso, alteram (ainda que ligeiramente) a capacidade de coagulação do sangue, o que pode ser prejudicial na necessidade de cirurgia.

Como expliquei no post anterior, temos tempo. Depois do paracetamol, a febre (se existia) baixou, o que permite reavaliar se temos ou não uma verdadeira dor abdominal. Se a criança vomitava, tentamos hidratá-la com água ou chá açucarado, às colherzinhas. Para alguns estas duas atitudes podem ser surpreendentes, mas vos garanto que o paracetamol não oculta a tal contractura abdominal na fossa ilíaca direita (sinal inequívoco de apendicite aguda) e beber golinhos de água não protela a cirurgia mais que 2-4 horas (por razões anestésicas). Assim, peço-vos não deixem as crianças a sofrer com dor nem a desidratar, só porque querem ser vistos por um médico antes.

Finalmente, é preciso ir reavaliando, na expectativa de que apareçam um ou mais dos sinais de alarme de apendicite aguda. Os sinais de alarme, como o próprio nome indica, são sinais que nos devem fazer recorrer ao serviço de urgência, para ser avaliado por um médico. São eles:

  1. Dor abdominal que deixa de ser generalizada, tipo cólica, à volta do umbigo, e passa a ser fixa, à direita, geralmente dificultando a marcha. Tipicamente, a criança manca, de forma a evitar o contacto do pé direito com o chão.
  2. Vómitos persistentes ou recusa alimentar. Este último até tem maior significado clínico, pois a perda de apetite pode aparecer antes da dor abdominal. Mais, criança com fome muito provavelmente não terá apendicite aguda.
  3. Uma febre que começa após a dor abdominal e de início insidioso. Antes de perfurar, a apendicite aguda caracteriza-se por temperatura axilar entre os 37,5ºC e os 38,0ºC.
  4. Deterioração do estado geral. Uma criança prostrada, que segundo o ‘olhómetro’ dos pais, não está bem deve ser levada ao serviço de urgência, independentemente de qualquer outro sintoma.

O fantasma do apêndice (I)

Uma das maiores preocupações que os pais têm quando a criança tem dor de barriga é a de saber se pode ser o início de uma apendicite aguda e, consequentemente, ter de ser operada. Efectivamente a dor de barriga costuma ser o primeiro sintoma de uma apendicite aguda. Ela costuma iniciar-se à volta do umbigo e e ir descendo para baixo e para a direita (até à fossa ilíaca direita, FID). Geralmente, os vómitos aparecem depois. E a febre aumenta lentamente. (Sobre febres e o facto de as altas nos preocuparem menos que as baixas, leia aqui).

A apendicite aguda é uma inflamação de uma porção do intestino, chamado apêndice ileocecal, pois fica na transição entre a porção mais distal do intestino delgado (o íleo) e a porção inicial do intestino grosso (o cego). Esta inflamação pode ter várias origens: um fecalito (pequena porção de fezes duras) que encrava dentro do apêndice, um aumento das placas de Peyer (aglomerados de células imunitárias do intestino) que entope a base do apêndice, uma infecção por bactérias como acontece noutras partes do intestino (que pode acontecer também no apêndice), uma reacção auto-imune como acontece na Doença de Crohn, entre outras mais raras.

[fonte: webmd.com]

O importante é que o apêndice ileo-cecal, sendo uma estrutura tubular ‘cega’, vai ficando cheia de pús até explodir (perfurar). A partir desse momento temos, literalmente, o caldo entornado. O pús espalha-se pelo abdómen da criança e existe uma deterioração do seu estado geral. Felizmente, isso só acontece passadas 24 horas, na maioria das crianças. Esta história natural da apendicite aguda permite-nos estar a alerta mas ter uma atitude cautelosa ao mesmo tempo. Apesar de haver ainda quem defenda que existem estados de apendicite crónica, sabemos que as apendicites de instalação aguda não resolvem por si. Assim, os sintomas clássicos (a dor, a febre e os vómitos) descritos em cima vão se instalando progressivamente e piorando na sua intensidade. Este destino pré-traçado da apendicite permite-nos ir avaliando a criança periodicamente por um intervalo de tempo de quase um dia, com toda a segurança. Se a criança vai melhorando da dor de barriga é pouco provável que seja uma apendicite aguda.

Sobre isto, é importante saber que quer os marcadores inflamatórios pedidos nas ‘análises ao sangue’, quer a ecografia abdominal não nos dão o diagnóstico definitivo de apendicite aguda. É a palpação abdominal pelo médico seriada (ao longo do tempo), auxiliado ou não por estes dois exames, que indicará a necessidade de operar. A dor muito focalizada na FID com contractura dos músculos abdominais (um dos primeiros sinais de inflamação intra-abdominal) pode ser apenas notada passadas uma horas do início dos sintomas e são indicação para cirurgia.

Apesar de algumas vozes mais ‘tradicionailistas’, a abordagem cirúrgica inicial aceite como padrão é a laparoscopia. Isto é, a introdução de uma câmara de vídeo pelo umbigo permite confirmar o diagnóstico de apendicite aguda. Com a colocação de mais um ou dois trocares (vulgo furinhos), podemos introduzir e manipular os instrumentos necessários para fazer a apendicectomia (retirada do apêndice). Depois de tirar o foco infeccioso serão necessários fazer antibióticos para debelar completamente a infecção intra-abdominal.

[fonte: childrenshospital.org]

Não querendo entrar em demasiados pormenores técnicos, as vantagens da laparoscopia não são apenas estéticas. Estes poderão ser as que mais têm impacto nos pais. Mas, para a criança, a laparoscopia significa menos dor, menos carga anestésica, melhor recuperação da actividade normal no pós-operatório, uma ida mais precoce para casa.

Como dizer isto com suavidade?

O nascimento do segundo aproxima-se. Os preparativos para o parto incluem a programação da agenda de visitas: umas à maternidade, outras já em casa. Eis algumas considerações. O período neonatal compreende os primeiros 28 dias de vida do recém-nascido. É um período crítico, durante o qual o bebé está muito susceptível a infecções. Infecções essas que levarão sempre a hospitalização. Qualquer recém-nascido com febre exige visita hospitalar, para rastreio séptico e, muito provavelmente, internamento em unidade de cuidados neonatais.

 

Pensem nisto. O recém-nascido viveu os últimos nove meses debaixo de água. Recebeu sempre os nutrientes já digeridos e prontos a consumir. Pelos seus pulmões e pelo seu intestino, só circulava líquido amniótico. Os sons que ouvia eram filtrados pela barriga da mãe, que também o protegia de todas as agressões mecânicas. Todas estas ‘regalias’, ele perde de um dia para o outro. Este organismo fechado numa ‘redoma’ terá agora que lidar com ar (mais frio e mais seco, do que ele alguma vez sentiu), com a alimentação oral (leite que terá de digerir e ‘partir’ em todos as pequenas substâncias que fazem funcionar o corpo), com vírus e bactérias a gravitar à sua volta (a colonizarem-lhe a pele, o intestino, o nariz e a boca), com barulho, com frio, com calor. Passa de 8 para 80, em minutos, o que debilita o seu corpo frágil. Tem de ser o mais protegido possível.

 

Agora, o lado materno. A gravidez é um processo desgastante para qualquer mulher. Apesar de algumas não se sentirem fatigadas psicologicamente, socialmente e biologicamente o impacto é enorme. Sempre. As últimas semanas são de uma privação ao sono monstruosa. Privação esta que se manterá seguramente durante os primeiros meses de vida da criança. Depois há toda a adaptação do recém-nascido à mãe e da mãe ao recém-nascido. É uma aprendizagem que (dizem-me) é sempre nova. Não há filho igual ao outro. É o ‘pegar’ na mama (ou tetina), são as cólicas, as fraldas, as manchinhas, o choro por isto, o choro por aquilo, o choro por coisa nenhuma. Enfim, os primeiros dias de vida são difíceis. Bonitos de recordar, mas difíceis de viver.

 

Se em cima disto tudo, a Mãe tem que fazer boa cara para cumprimentar a prima, o bebé tem que se aperaltar para receber o tio da mãe da amiga, os dois têm que aturar uma sala cheia de gente a contar lugares comuns. O francisquinho nasceu assim, o outro parecia um leitão, a menina comia assado, outra nem por isso. Para além disso, existem patogéneos (vírus, bactérias, fungos) que transportamos inconscientemente nas mãos, nos cílios do nariz, na própria roupa, que entrarão em contacto com o recém-nascido frágil e com poucas defesas. Se existe alguma coisa boa (e acredito que seja das únicas) pelo facto de as famílias viverem mais isoladas, é o facto de poderem se proteger deste tipo de agressões.

 

Não me interpretem mal, porque quem tem um blogue gosta de socializar. Não sou excepção. São só 28 dias, para Mãe e bebé se adaptarem convenientemente a esta nova vida. Para mim, e para a maioria dos pediatras com quem trabalhei, é uma imposição médica:as visitas durante o primeiro mês deverão ser espaçadas no tempo e restritas no número de pessoas. Aos primeiros dias, só a família mais próxima. Os outros terão muito tempo para adorar o menino.


[‘La Madonna dei Garofani’, Rafael; fonte: nationalgallery.org.uk]

Preparação para o parto IV

As esperas nos consultórios médicos acabam por ser úteis. Numa das primeiras consultas desta segunda gravidez, folheava uma revista ‘para pais’ que apresentava uma check-list de coisas que os pais não devem esqueçer no dia do parto. Tomei nota:

  • Chocolates ou barras energéticas
  • Água
  • Moedas para as máquinas (de café, de comida)
  • Rebuçados para a mãe
  • Baton de cieiro e spray termal para a mãe durante o trabalho de parto
  • Telemóvel com bateria e carregador
  • Máquina fotográfica, câmara de vídeo e baterias
  • Medicamentos que tome habitualmente
  • Roupa fresca
  • Se ficar como acompanhante, uma muda de roupa, um pijama, chinelos e artigos de higiene pessoal.
Eu acrescentaria o iPad, que a Mãe quer mas vai se esquecer, e o portátil do pai, que vai tentar responder a e-mails, tentar trabalhar na tese de doutoramento, tentar postar novidades no blogue, mas provavelmente não vai conseguir.

Já não resta muito tempo, mas alguém tem sugestões a acrescentar?

On fire (II)

Convém agoras recordar as medidas gerais para combater a febre dos pequenos. Cá vão as minhas.

  1. Dar o antipirético. O paracetamol (vulgo Ben-U-Ron) pode ser dado na dose de 15 mg por kilograma (peso da criança) e repetido a cada 6 horas. Não esquecer de dividir esse valor pela diluição do xarope, que, no caso do Ben-U-Ron, é 40 mg/mL. Assim uma criança de 10 kg pode tomar 150 mg de paracetamol, isto é, 3,75 ml de xarope Ben-U-Ron (= peso da criança x 15mg / 40mL). O outro anti-pirético mais usado é o ibuprofeno. A dose 5 mg por kilograma é suficiente e pode ser repetido a cada 8 horas. Mais uma vez, tem que se dividir o valor obtido pela diluição do xarope, que, no caso do Brufen, são 20 mg/mL. No mesmo exemplo da criança de 10 kg, ela poderá tomar 50 mg de ibuprofeno, o que equivale a 2,5 ml de xarope de Brufen (= peso da criança x 5mg / 20mL).
  2. Despir a criança. Se queremos baixar a temperatura, temos que libertar o calor. Quando a criança está em subida térmica, ela terá tremores, mas, assim que eles pararem, é preciso tirar tudo e ficar apenas com a fralda ou a cuequinha.
  3. Ter paciência. O antipirético pode demorar 30 minutos a 1 hora até surtir efeito. Não adianta desesperar nem correr para a banheira para refrescar a criança nem insistir com a alternância de antipirético. Aliás, a água para arrefecimento não deve ser fresca mas sim à temperatura da criança (cerca de 37ºC, como no banho normal). O segredo está em deixar a água ir arrefecendo e, com ela, arrefecer a criança.
  4. Hidratar. Com o aumento da temperatura, existe perda de água pela pele, pela respiração, pelo metabolismo, etc.. É fundamental manter a criança hidratada oferecendo-lhe bastante água. Caso contrário, esta pode desidratar.
Mais uma vez, os conselhos de como lidar com a febre não são universais e variam de médico para médico. Estes são os que eu utilizo. Espero que vos sejam úteis.

[fonte: joeshusterawards.files.wordpress.com]

On fire (I)

Muitos amigos e familiares ficam admirados quando, vendo eu ‘pontinhos brancos’ nas amígdalas do JM, ou vendo eu o tímpano ruborizado quando lhe espreito o ouvido, não medico com antibiótico e deixo o rapaz ‘abandonado à sua febre‘. Se efectivamente suspeito de que a causa da febre é vírica, não há porque prescrever antibiótico. Existem amigdalites víricas e otites víricas. Na criançada, este tipo de infecções são bem mais frequentes que as bacterianas. Medicá-las com antibiótico só acrescentaria resistências ao mesmo, o que poderia ser um problema no futuro.

Não deve haver sinal mais simples de doença que a febre. Por outro lado, não deve haver tema mais difícil de explicar do que a febre. Primeiro de tudo, a febre não é uma doença em si. A febre é um sinal, um aumento da temperatura, resultante da circulação de substâncias inflamatórias pelo nosso corpo (e do bebé, claro). Convencionou-se chamar febre a um aumento da temperatura corporal superior a 37,5ºC, quando medido debaixo da axila, ou a 38,5ºC, quando medido no rabinho.

[fonte: pediatrics.about.com]

Segundo, as substâncias inflamatórias em circulação podem resultar de várias doenças, mas na criança (assim como no adulto) a febre é geralmente sinal de uma infecção. Felizmente, a maioria das infecções não precisam de uma visita ao médico. Isto é, a maioria das infecções causadoras de febre resultam de infecções por vírus (como é o vírus da gripe, o influenza, e tantos outros respiratórios). Ao contrário das infecções bacterianas ou micológicas (por fungos) que precisam de tratamento antibiótico e antifúngico (respectivamente), as viroses não precisam mais que uma boa hidratação e o controlo da febre com anti-piréticos (paracetamol e/ou ibuprofeno). O organismo encarrega-se de resolver o resto.

Mas como podemos saber se a infecção que o noso filhote tem é vírica? Não há uma regra de ouro. Existe, no entanto, um conjunto de factores que devidamente pesados nos podem apontar mais para uma febre de origem vírica, que, repito, será sempre a situação epidemiologica mais provável na criança. Quais são esses factores?

  1. A febre alta e de instalação rápida é a favor de virose. Ao contrário da crença geral, uma febre mais insidiosa que vai subindo devagar, é muito mais a favor de uma infecção bacteriana.
  2. Uma febre que cede bem aos antipiréticos, com uma criança que recupera a boa disposição, é mais a favor de causa vírica. A temperatura da criança não tem obrigatoriamente que baixar abaixo dos 37,5ºC. Geralmente, os anti-piréticos conseguem diminuir a temperatura em apenas 1-1,5ºC. Na infecção vírica, a descida de temperatura acompanha-se de uma recuperação do bom estado geral da crianças, o que é raro nas infecções bacterianas.
  3. Geralmente, a infecção vírica acompanha-se de outros sintomas ‘víricos’, como pingo do nariz (rinorreia), lacrimejo, tosse (sinais de constipação vulgar) ou de vómitos e diarreia (sinais de gastroenterite).
  4. A doença vírica resolve rapidamente e sozinha. Apesar de um início atribulado e com temperatuas altas nas primeiras 24-48 horas, a doença vai resolvendo com febre progressivamente mais baixa e picos mais espassados no tempo. A febre de origem vírica pode durar um dia ou ir até 5 dias. De qualquer forma, aconselho os pais a não passarem sem uma visita ao médico após 48 horas de febre, excepto se houver uma clara sensação que esta está a passar.

Posto isto, convém lembrar que é perfeitamente seguro aguardar estas 48 horas. Mesmo tratando-se de uma infecção bacteriana, o tratamento não sairá prejudicado por vir um bocadinho atrasado. Há, apesar de tudo, algumas excepções. Quando consultar o médico antes das 48 horas de febre?

  • quando se trata de recém-nascido (qualquer crianças abaixo dos 30 dias de idade deverá ser vista imediatamente);
  • quando a criança mantém mau estado geral, mesmo após o anti-pirético;
  • quando a criança vomita repetidamente, o que (associado á febre) constitui um perigo de desidratação;
  • quando se associa uma crise convulsiva ou outros sinais neuológicos;
  • quando aparecerem petéquias (manchinhas vermelhas, como pequenos derrames) na pele;
  • quando o médico disser que sim. Isto é, existem crianças com doenças crónicas e/ou malformações congénitas que podem necessitar de um rastreio séptico mais precoce. Se for o caso, o médico deverá dar indicação de quando recorrer ao serviço de urgência em caso de febre.
Aqui está a explicação possível para o tratamento da amigdalite vírica do JM neste fim-de-semana, por um cirurgião pediátrico que, por acaso, até é o pai dele. Os cuidados da Avó-enfermeira foram suficientes para o pôr bom.

NOTA: Como é óbvio, e basta uma pesquisa rápida na Internet para perceber, os conselhos de como lidar com a febre não são universais. Em Portugal, andam mais ou menos sempre à volta disto, mas variam de médico para médico. Estes são os que eu utilizo. Espero que vos sejam úteis.