Dois-bigos (ou umbigo dois)

Julgo que os cuidados a ter com o coto do cordão umbilical são sobejamente conhecidos. Limpar uma vez por dia com álcool a 70º até ele mumificar e destacar sozinho. Manter esses cuidados até a cicatriz ‘secar’. Admito que aquele pedaço de carne morta não é uma visão bonita no meio do quadro azul-bebé do recém-nascido. Seja como fôr, é proibido tapar o cenário com a fralda. E esta é mensagem que parece custar a passar.

[fonte: senado.gov.br]

O ambiente húmido e quente da fralda estimula o crescimento bacteriano e a inflamação crónica do coto umbilical. Após a queda do cordão fica uma zona de cicatrização que, quando sujeita a essa inflamação, desenvolve um tecido de granulação, o chamado granuloma umbilcal. Este granuloma é um tecido inflamatório que vai segregando um líquido purulento e, por vezes, sangra. O que fazer? Poder-se-á continuar a desinfectar com álcool  70º e deixar secar ao ar. Se não resolver numa semana, será necessário queimar com sulfadiazina de prata. Esta queimadura química é feito usando um bastonete impregnado com esta substância,  tendo o cuidados de tocar apenas no tecido de granulação. Ainda assim, a sua cicatrização poderá resultar num pólipo inestético que necessita de plastia posterior.

[fonte: healio.com]

De qualquer das formas, e dada esta explicação, o melhor mesmo é andar com o umbiguinho, dentro do body, fora da fralda, à mostra.

Queimaduras inspiradas no fim-de-semana

Lá fora, a chuva intensa, um frio cortante. Cá dentro, o calorzinho do fogão de sala e um chá quentinho na mesinha ao lado do sofá. O JM corre despreocupado por entre os perigos. Por alguma razão, existe um aumento exponencial das queimaduras nesta altura do ano, em especial nas crianças. O que fazer? Prevenir, prevenir, prevenir. Se o azar acontecer, saber o que fazer. É preciso que serve este post.

Primeiro, não entrar em pânico. Julgo que este deverá ser o primeiro conselho aos pais, numa situação de urgência. As crianças confiam nos seus pais e vêem neles um barómetro para a gravidade para a situação. Se os pais entram em histeria, a criança ficará nervosa e gritará desalmadamente.

[fonte: extension.org]
 

Segundo, lavar bem a área queimada com água corrente e fria. Não só serve  para aliviar a dor, como para parar retirar a sujidade do contacto (seja ele de um líquido a ferver, um ácido ou objecto quente).

[fonte: nationalmortgageprofessional.com]
 

Terceiro, dar um analgésico (ibuprofeno ou paracetamol) à cria e cobrir com uma compressa (ou equivalente doméstico) com água fria (ou soro fisiológico, se houver) ou com papel aderente (sem apertar).

[fonte: telegraph.co.uk]
 

Quarto, respirar fundo e levantar o penso, com calma. Se a queimadura tiver o aspecto de um 0vermelhão, semelhante ao escaldão da praia, trata-se de uma queimadura superficial (ou de primeiro grau). Basta aplicar creme gordo no local e hidratar bem, oferecendo líquidos à criança. De cada vez que o creme absorver, é preciso aplicar nova camada até a pele re-epitelizar. É provável que esta esteja completa, na manhã seguinte.

[fonte: umm.edu]
 

Se a queimadura desenvolver bolhas de ‘água’ (flictenas) ou a pele destacar, seja no imediato ou durante o processo de re-epitelização, deverá consultar um médico. Estas bolhas são sinal de uma queimadura de segundo grau, pois afecta a derme (que é a 2ª camada da pele). Nestes casos será necessário fazer um penso com antibiótico tópico e, eventualmente, com outros produtos que ajudem a uma cicatrização mais rápida da pele. A atitude do cirurgião pediátrico mudará consoante a profundidade, a extensão e o local da queimadura. Mas vá se preparado para várias visitas ou para a eventualidade de ficar internado.

[fonte: criasaude.com.br]

Umbigo Um

O umbigo reveste-se de um enorme simbolismo. Foi através dele que as nossas mães nos alimentaram, durante a gravidez. É, por isso, um símbolo da fertilidade humana e também da beleza, principalmente feminina. Sendo assim, é natural que, quando a menina nasce com uma bolinha no local do umbigo, os pais fiquem preocupados. Esta bolinha que geralmente aumenta e diminui, conforme a criança chora e contrai a barriga ou a relaxa, resulta de uma hérnia umbilical.

 

A hérnia do umbigo é a forma mais ligeira de um espectro de defeitos do encerramento da parede abdominal. No desenvolvimento fetal, existe uma fase em que a barriga não está completamente formada e o intestino flutua pelo líquido amniótico. Apenas pelas 10-12 semanas de gestação, ele entra na cavidade abdominal e esta encerra, deixando a cicatriz natural que tanto prezamos: o umbigo.

 

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[fonte: pinterest.com]

 

Nas crianças com hérnia umbilical sente-se um ‘buraquinho’ por baixo da pele do umbigo. É o tal defeito do encerramento dos músculos e aponevroses que constituem a parede abdominal. Quando uma porção de intestino entra por este buraco, o umbigo aumenta de tamanho e pode emitir sons característicos do conteúdo intestinal (também chamados ‘gorgulejos’). Apesar de ser raro na criança, o intestino pode ficar preso neste buraco (encarceramento), causando dor violenta, vómitos e inflamação do umbigo. O encarceramento é uma emergência cirúrgica e requer observação médica imediata. Felizmente, a maioria das hérnias umbilicais diminuem de tamanho e podem até desaparecer (isto é, encerrar completamente) até aos 4 anos de idade. Se isso não acontecer, terão que ser corrigidas cirurgicamente, através de um procedimento chamado herniorrafia.

 

A herniorrafia umbilical consiste no encerramento do defeito do umbigo, sob anestesia geral. É um procedimento que pode ser feito em regime de ambulatório, isto é, com saída no mesmo dia da cirurgia.

 

Tê-los no sítio II

Existe uma entidade bem mais frequente que a criptorquidia. É muitas vezes confundida com esta, mas raramente precisa de cirurgia. Trata-se do testículo retráctil. Ao contrário do que acontece na criptorquidia, nestes casos o testículo chega à bolsa escrotal, mas foge assim que é estimulado (pelo frio ou pelo toque). Tal deve-se ao reflexo cremastérico – o mesmo que faz com que os testículos ‘mirrem’ quando os pais mergulham na água fria do mar. Qualquer estímulo sensitivo no escroto ou na sua proximidade leva à contracção reflexa do músculo cremáster. Este músculo reveste todo o cordão espermático e o respectivo testículo, sendo responsável pela subida deste. Como ele é pouco desenvolvido até aos 2 anos de idade, é frequente os pais referirem que o menino «já os teve no sítio».

A boa notícia é que a maior parte destes testículos crescerão e voltarão a ficar permanentemente na bolsa, assim que a criança atingir a puberdade. Até lá, é necessária uma vigilância regular, pois alguns deles (7%) deixarão de vir à bolsa. Se cirurgião pediátrico ou o pediatra deixarem de conseguir trazê-lo até ao escroto significa que o testículo ‘retraiu’ e se comporta agora como uma criptorquidia, pelo que precisa de ser fixado cirurgicamente.

Tê-los no sítio I

Não é tão simples como parece. Os testículos dos meninos nascem dentro da barriga e têm que percorrer um longo caminho até às respectivas bolsinhas. É um percurso que é feito através de um canal na virilha, chamado canal inguinal, mais propriamente dentro de uma bainha muito fina (o canal peritoneo-vaginal). 3% dos meninos não têm um dos testículos (ou os dois) completamente descido ao nascimento, isto é, sofrem de criptorquidia (= testículo escondido) ou testículo não descido (undescendent testis). Até aos 9-12 meses de idade, o testículo pode ainda descer, pelo que pelo ano de idade, apenas 1% dos lactentes terão criptorquidia. Até esta idade o testículo deverá ser corrigido cirurgicamente, porque o testículo poderá sofrer alterações, tornando-se infértil ou (a muito longo prazo) dar origem a um tumor maligno. A cirurgia chama-se orquidopexia (= fixação do testículo).

[fonte: rch.org.au]

Normalmente, a bainha do canal inguinal por onde desce o testículo fecha por altura do nascimento, no entanto ela persiste aberta nos casos do testículo não descido. Para além da fixação do testículo é necessário encerrar esta persistência do canal peritoneo-vaginal, pois, para além de limitar o movimento do testículo, pode condicionar o aparecimento de uma hérnia, ou seja, uma porção do intestino pode ‘prender’ dentro deste canal. É por esta razão que na reparação cirúrgica do testículo não descido (orquidopexia), existirão sempre pontos no escroto e na região inguinal (virilha). Falarei de hérnias (ou forças como já muitas vezes ouvi chamarem-lhes) num futuro post.

Mas existem casos em que o testículo não se encontra. São os chamados testículos impalpáveis, pois não se palpam nos testículos, nem no canal inguinal. Nestes casos, é provável que o cirurgião pediátrico sugira uma laparoscopia diagnóstica, isto é, a introdução de uma câmara de vídeo pelo umbigo para procurar o testículo desaparecido. Encontrando-se, ele terá que ser fixo na bolsa escrotal (em uma ou duas cirurgias). Casos há em que o testículo não se formou ou atrofiou durante a descida. Nestes casos, colocar-se-á uma prótese pelo efeito estético.

Não faça

Na minha vida profissional, fui (e continuo a ser) testemunho da força dos pais de meninos e meninas com deficiência. Entre o que é doença física e doença mental, a deficiência tem vários espectros e a determinação destes pais excede o que poderíamos à partida esperar do ser humano. Hoje comemora-se o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. É um convite à reflexão sobre como pequenos gestos nossos poderiam melhorar (e muito) a vida daqueles que têm mais dificuldades a vivê-la. Para início de conversa, comecemos pelo mais fácil: coisas para não fazer, isto é, pequenas omissão que melhorariam (e muito, outra vez) a vida de quem tem deficiência e daqueles que os assistem.

Primeiro, não estacione em cima dos passeios nem das passadeiras. São só 5 minutos (que  nunca são), mas podem custar uma eternidade para quem não consegue ultrapassar o obstáculo e terá que procurar (sabe-se lá como) percurso alternativo.

Segundo, saia da frente. A pessoa com deficiência tem sempre prioridade. Não é preciso ter uma placa indicativa na caixa do supermercado. Para além da ansiedade acrescida, aquela espera pode significar uma ida à casa de banho que se perde (literalmente).

Terceiro, não crie mais obstáculos. No seu dia-a-dia, seja trabalho ou lazer, procure criar o menor número de obstáculos possível. A burocracia é obstáculo. Lixo no chão é obstáculo. Armariozinhos no caminho, decoração acessória, balcões altos, música demasiado alta, entre outros, são todos obstáculos. Não faça. É um favor que nos faz a todos, mas principalmente a quem é deficiente.

[fonte: idpwd.com.au]

Pombinhas

E porque ouvi algumas reclamações sobre o facto de estar a dar muita primazia aos assuntos dos rapazes, este post refere-se a um problema comum nas raparigas: a coalescência dos pequenos lábios. Trata-se de uma obstrucção (quase sempre) parcial da vagina e/ou da uretra feminina por ‘fusão’ dos pequenos lábios. Esta fusão é fruste, resultad de aderências frágeis entre os pequenos lábios de uma lado e do outro dos genitais femininos. É uma doença benigna, que se pensa resultar do ambiente pobre em estrogéneos associado a inflamação local, na infância (mais apartir dos 12 meses de idade). Situação essa que a criança só verá resolvida pela idade da adolescência. Até lá, a coalescência pode ser causa de infecções urinárias, inflamação local, prurido e má higiene local por urina que se acumula no seu interior, muito à semelhança do prepúcio (dos rapazes) que não retrai.

[fonte: rch.org.au]

O que fazer? Desfazer estas aderências. Mas é normal os pais terem receio de magoar a menina. Aplicar um creme corticóide localmente poderá ser a solução, pois diminui a inflamação e cria um ambiente rico em estrogéneos, levando à libertação das aderências. Se não resolver, a secção das aderências pode ser feita pelo cirurgião pediátrico. Nos casos mais complicados ou de crianças mais velhas poderá ter que ser feito sob anestesia geral (com a criança dormir). Em caso algum, dever-se-á fazer um descolamento traumático da coalescência. Primeiro, porque seria uma agressão genital que a criança poderia demorar a ultrapassar. Segundo, o mais provável seria os pais não conseguirem voltar a tocar na região, nem para aplicar o creme, por falta de colaboração da menina, pelo que voltaria tudo a ‘colar’ outra vez.

«O Jesus é filho do Pai Natal?»

Esta pergunta, feita há dias pelo JM, foi o sinal de alarme pare reunirmos o “Concílio Magno” cá de casa. Este ano é o primeiro em que o JM parece ter a plena percepção que está a viver o Natal. Com quase 3 anos, começa a perceber que existe uma grande azáfama  no mundo dos crescidos para a preparação desta festa. Mas tanta informação desconexa, obrigou-nos sentar à mesa e esclarecer a cabeça do rapaz.

Já o disse aqui. Não gosto do Pai Natal. Seja como fôr, não sou radical. Não destruirei as fantasias da criança e até posso alinhar com elas. Ser pai é também isso. O Pai Natal continuará a trazer presentes aos meninos que se portam bem (JM incluido), mas as visitas serão previamente agendadas em local a combinar: a escolinha, o shopping, a casa da bisavó. Sendo esta última de longe a minha favorita, pois o Pai Natal encarna num dos tios que bebeu para além da conta.

Mas cá em casa, o Natal foi e será uma celebração do nascimento de Jesus, da Família e do Amor. Julgo que pelo menos estas últimas se aplicam a todas as casas, mesmo as nãocristãs. Sendo assim, no dia 24 de Dezembro, a família trocará presentes, sinal do apreço que temos uns dos outros. No dia 25 de manhã, haverá uma bicicleta para o JM, trazida pelo o Menino Jesus, que acaba de nascer. Haverá o presépio e a árvore com a estrela que guiará os Reis Magos.

[fonte: orbita-bicicletas.pt]

Pilinhas III

Mais umas dicas, em relação à retracção prepucial. Muitas mães referem que não controlam o que o menino já crescido faz no banho, pelo que deixam de saber se ele tem dificuldade ou não em retrair a pelezinha para trás. Uma forma discreta de monitorizar se a criança o faz correctamente é a inspecção das cuequinhas. Os vestígios de urina na cueca podem significar que o prepúcio não está a ser puxado durante a micção. Ela acumula atrás do prepúcio quando o menino faz xi-xi, caindo posteriormente para a cueca.

O que fazer? Primeiro, quebrar o tabu lá em casa. Explicar ao filho que se trata de uma regra de higiene. Se não expuser completamente a glande, a urina e o sebo acumulado vão cheirar mal, vão dar comichão e serão fonte de infecções. Devem fazê-lo no banho e em cada vez que vão à casa de banho.

[fonte: celldweller.com]

Segundo, é perfeitamente normal que a entrada na adolescência provoque uma certa vergonha em relação às mudanças no corpo, pelo que a mãe terá dificuldade em ter esta conversa e muito mais em ver se a higiene é efectivamente bem feita. É preciso forçar o pai (ou figura em substituição) a entrar em acção.

Pilinhas II

Outra das razões pelas quais trago à baila o tema das pilinhas é o facto de haver um grande tabu à volta do pénis dos miúdos e dos graúdos. Numa sociedade em que a nudez e o sexo aparecem a cada passo na televisão e nas revistas, é estranho que caia uma cortina de vergonha, quando se chega a um assunto tão naif como a pilinha de uma criança. Qual a vergonha de discutir (reparem noutro trocadilho) o sexo dos anjos?

Para assuntos da pilinha, são quase sempre as mães que trazem os meninos à consulta. Muito raramente é o pai que vem e, quando vem, encolhe-se no canto do gabinete. Vergonha? Medo? Indiferença? Acredito que alguns achem que o tempo resolverá tudo, como eventualmente resolveu o seu caso. Outros ignorarão uma regra básica de higiene como é a retracção do prepúcio, tal é a cara de nojo perante a manobra explicativa no prepúcio do filho. Outros há, que se envergonham pelas perguntas que nunca fizeram em relação ao seu sexo, que vêm reflectido no sexo do seu menino. O tema daria um estudo sociológico interessante.