Como evitar e como tratar a unha encravada?

Eu sei que o tema enoja muita gente, mas tenho visto muitos erros em relação a esta matéria e numa pesquisa rápida na Internet não vi nenhum local onde explicassem isto de forma simples. Porque é realmente uma coisa simples. A unha encravada (onicocriptose, para quem quiser dar ares de intelectual) resulta do crescimento patológico da unha por baixo da pele que limita os cantos da mesma. Geralmente afecta um ou os dois cantos do dedo grande do pé (hálux). Quando a unha se ‘enterra’ nesses pedacinhos de pele, causa uma reacção inflamatória, por sua vez desencadeia a formação de um tecido de granulação. Aquela pele vai ficando cada vez maior, mais gorda, e a unha terá cada vez mais dificuldade em vencê-la, enterrando-se cada vez mais neste tecido esponjoso. Entra-se num ciclo vicioso de dor, inflamação, infecção. Algumas crianças chegam à consulta com os dedos do pé numa miséria. Em desespero, alguns vêm de sandálias em pleno Inverno.

[fonte: eorthopod.com]

Primeiro, como evitar? Há crianças que parecem ter uma tendência natural para ‘encravar’ os cantinhos das unhas. Os meus filhos, tinham os dois, o que dá uma incidência de 100% na amostra cá de casa. Fiz o que aconselho sempre os pais fazerem nos primeiros meses de vida (mesmo nos bebés que não têm unhas marotas)?

  1. cortar as unhas com uma tesoura recta, deixando os cantos claramente maiores que a porção central da unha.
  2. depois do banho, massajar a pele que recobre a unha para os lados. Como que moldando a pele, tirando-a do caminho.
E quando a unha já encravou? Isto é muito frequente nas crianças mais velhas que já cortam as unhas sozinhas ou sofreram algum traumatismo do dedo. Primeiro, consultar o médico ou uma enfermeira que verifique se há sinais de infecção secundária. Nestes casos, é necessário o tratamento com antibiótico tópico (ou mesmo oral) em penso fechado. Se lhe disserem que não há infecção, que é só ‘inflamado’, como ‘desencravar’ a unha daquele tecido gordo que se lhe pôs à frente? Para além das duas medidas descritas em cima (deixar os cantos compridos e massajar a pele no sentido lateral),
  1. passar com uma pinça por baixo do canto da unha. Começa-se do centro e percorre-se com a pinça para os lados.
  2. tentar (digo tentar, porque nos primeiros dias pode não ser fácil) deixar um bocadinho de compressa debaixo do canto afectado. Como é um procedimento algo invasivo, costumo aconselhar uma desinfecção com iodopuvidona (vulgo Betadine).
Isto não resolve à primeira. Por vezes, são precisas semanas de tratamento. É preciso esperar que o tecido inflamatório vá regredindo e a pele que recobre o canto da unha vá voltando a normal. Muitas vezes, é necessário recorrer a um podologista treinado em pediatria. Os casos graves ou recorrentes necessitarão de cirurgia para retirar a porção da unha causadora do problema (a chamada plastia ungueal). É aí que entra o cirurgião pediátrico.

Tiques – O que saber!

A convidada especialista desta semana é pedopsiquiatra e mãe (uma menina «linda, de 10 meses»). A Dra. Lia Moreira tem-se dedicado à neuropsiquiatria (áreas como autismo, doenças orgânicas com sintomas psiquiátricos, etc.). Quem melhor para nos vir falar de uma situação tão comum mas que levanta tantas dúvidas? Os tiques são voluntários? São sinal de doença grave? Vão passar sozinhos? O que podemos fazer para combatê-los? A Dra. Lia responde a estas e a muitas outras perguntas, num texto que está excelente. A Dra. Lia Moreira trabalha no Hospital Padre Américo (Penafiel) e na Clínica do Capitólio (Porto).

Tiques – O que saber!
Lia Moreira

Desafiaram-me para falar sobre tiques, um quadro clínico relativamente frequente e na sua maioria com sintomas ligeiros. Um tique é um movimento súbito, repetitivo, rápido e involuntário, que usualmente mimetiza um comportamento normal. Os tiques surgem frequentemente por impulsos com intervalos livres de sintomas entre eles. Podem ser simples ou encadeados numa sequência orquestrada. Há tiques motores simples, como piscar os olhos e complexos, como expressões faciais ou gestos com os braços ou a cabeça, aparentando movimentos voluntários. Os tiques vocais podem ser simples, como limpar a garganta a complexos, como sons ou palavras.

Por volta dos 10 anos de idade as crianças com tiques já conseguem ter a perceção de uma urgência premonitória que antecede o tique, isto é, uma sensação numa determinada região do corpo onde o tique vai ocorrer. A maioria dos jovens descreve também uma sensação de alívio após tique. Estas características contribuem para que algumas crianças sintam que os tiques são voluntários e na verdade até conseguem ser suprimidos por curtos intervalos de tempo, mas na realidade, acabam por acontecer mesmo contra a sua vontade.

As perturbações de tiques podem ser transitórias ou crónicas se duram menos ou mais de 1 ano, respetivamente e são 5 a 12 vezes mais frequente em crianças de que em adultos. Sao também mais frequentes nos rapazes do que nas raparigas, cerca de 2:1. Estão frequentemente associados a outros problemas comportamentais como impulsividade, agitação, desantenção e sintomas obsessivos-compulsivos. Devem ser sinal de preocupação quando provocam um mal-estar significativo na criança e/ou na família, prejuízo escolar ou social.

Os tiques iniciam-se geralmente entre os 3 e os 10 anos, com um curso intermitente, isto é, com fases de agravamento e fases sem sintomas e graus variáveis de gravidade e intensidade. Tipicamente tendem a agravar em períodos de maior ansiedade ou preocupação. O Síndrome de Gilles la Tourette é a forma mais grave de perturbação de tiques e combina tiques motores múltiplos e tiques vocais.

Actualmente pensa-se que as perturbações de tiques são resultado da disfunção de determinadas áreas cerebrais, os circuitos fronto-estriados e os familiares de primeiro graus de pessoas com tiques têm maior risco de desenvolver também a doença. Os tiques tendem a melhorar no final da adolescência e início da idade adulta.

[fonte: doutordecriancas.com]

O diagnóstico é clínico, baseado na história natural da doença, observação dos comportamentos e história familiar. Não são aconselhados quaisquer exames analíticos ou de imagem.

A intervenção deve ser global e envolver a família e a escola. Para o tratamento há apenas uma única regra de ouro: nunca criticar, nunca humilhar, nunca castigar, nunca culpar. Estes comportamentos só aumentam o stress na criança e consequentemente aumentam os tiques, baixa a auto-estima e podem conduzir a sintomas depressivos.

Se os sintomas são intensos e provocam significativo mal-estar é importante proteger a criança e evitar que se exponha a situações socialmente humilhantes, como por exemplo, ser gozada pelos colegas na escola. Educar os professores e os colegas para promover um ambiente securizante e protetor é fundamental para o progresso da criança. A criança pode também aprender a fazer relaxamento, ajudando assim a controlar a ansieade e portanto a diminuir os tiques.

Em situações de grande sofrimento para a criança pela intensidade dos tiques pode ser útil a utilização de psicofármacos por períodos breves de tempo. Os fármacos não curam o problema mas aliviam temporariamente os sintomas.

Como podemos ensinar os nossos filhos a fazer as pazes?

Hoje celebra-se o Dia Internacional da Paz. Todos os 21 de Setembro, a Nações Unidas pede aos países que cessem os conflitos e pousem as armas. (Como isso fosse assim tão fácil…) Este ano, o secretário-geral Ban Ki-moon centrou a sua mensagem na necessidade de educar para a Paz, de começar por ensinar os mais pequenos a serem melhores adultos, sem guerras.

 

Há tempos, cruzei-me com este texto: «Teach our kids peacemaking skills». Eric Dawson é o fundador da Peace First, uma ONG que combate a violência nas escolas. A acção da Peace First não se limita a educar para a Paz, pois tenta ser mais abrangente. A sua filosofia é tornar cada criança um ‘agente multiplicador’ de paz. Ou seja, não basta ensinar o ‘make love not war’, é preciso dar competências aos mais pequenos para que eles resolvam os seus conflitos ‘a bem’ e tornarem-se eles próprios exemplos para que os seus colegas aprendam a manter um ambiente de paz entre si.

 

Então, como podemos ensinar os nossos filhos a fazer as pazes? Segundo este especialista em peacemaking, bastam 4 passos muito simples:

  1. Cultivar a empatia. O primeiro passo na resolução de um conflito é imaginarmo-nos no lugar da outra pessoa. Tentar compreender o ponto de vista da outra parte, é meio caminho para chegarmos a um acordo. A capacidade de entender a perspectiva do outro treina-se. Durante a leitura ou outras brincadeiras, faça perguntas abertas como: «porque achas que ele fez isto?»; «o que é que tu farias nessa situação?».  E não nos devemos limitar aos bons da fita, mas também tentar perceber os ‘maus’: «porque é que o Joker está zangado?»
  2. Tornar a dávida um hábito. Transforme o acto de dar – seja nas latinhas para a cruz vermelha, seja durante a missa – num acto em família. Explique porque damos dinheiro às instituições, onde é que o dinheiro vai parar, estimule ela própria a tirar uma moeda da sua semanada.
  3. Inspire os seus filhos a servir. Fazer voluntariado é uma óptima forma de trabalhar com e para os outros. Tente procurar uma actividade relacionada com um tema que a criança goste. Estimule a criança a arranjar novas soluções para os problemas sociais, a ser criativa.
  4. Seja um modelo de Paz. As crianças copiam tudo o que os pais fazem. (A campanha Children see, children do mostra bem isso.) Quantas vezes vamos no carro a barafustar com o carro ao lado? As crianças apanham esses momentos de agressividade, rapidamente os absorvem e usá-lo-ão mais tarde. Tente controlar-se nas situações de potencial conflito. É bom para si e é bom para os outros.

 

Uma nota final, porque sei que sou lido por muitas professoras. Para elas, chamo a atenção para esta secção do website da Peace First, onde são sugeridas actividades para as escolas que queiram promover esta filosofia do peacemaking. Espreitem, porque estão lá muito boas ideias. Quem sabe não vos inspira para começar uma ONG deste tipo em português?

 

[fonte: kindredgifts.com.au]

Como ‘vestir’ o estetoscópio?

Hoje, começam as aulas aqui na Universidade do Minho. No que à Fisiologia diz respeito, os futuros médicos vão suar com a aprendizagem meticulosa dos sistemas cardiovascular e respiratório. Numas pesquisas que andava a fazer na internet médica, deparo-me com este artigo: «The efficacy of stethoscope placement when not in use: traditional versus “cool”». A questão que intrigava os autores desta investigação era se a moda cool de pendurar o estetoscópio ao pescoço desleixadamente e na transversal traria alguma vantagem sobre a forma clássica de o prender com as olivas (a porção auricular) à volta ao pescoço. As fotografias exemplificativas (à direita, o cool; à esquerda, o tradicional) foram retiradas do artigo. A forma como cada um dos médicos usa o boné não é inocente.

Para os autores, a forma tradicional pareceria ter uma vantagem óbvia, que é o facto do reposicionamento do estetoscópio nos ouvidos apartir da ‘posição de repouso’ clássica poder ser feita com uma só mão, possibilitando que a outra mão fique livre para (e cito os próprios autores) «afastar ou sentar um doente desobdiente.» Partindo disto, foram estudar qual das formas de pendurar o estetoscópio é mais eficiente, isto é, qual delas permite o reposicionamento na posição de auscultação mais rapidamente.

Recrutaram 200 médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde que usassem (ou tivessem usado no passado) estetoscópio: 100 para cada grupo. Os cirurgiões foram excluídos, por (e, mais uma vez cito os autores) «a maioria não encontrou o velho estetoscópio dos tempos de escola» (enfiei o barrete :)). Para comporem o grupo clássico tiveram que recorrer a muitos lares de idosos, pelo que a diferença de idades entre os dois grupos era notória. A média de idades no grupo dos clássicos era 67,4 anos, enquanto no grupo cool a média era 38,7 anos. Ainda assim, os ‘clássicos’ foram mais rápidos no reposicionamento do estetoscópio para a posição de auscultação. A média de tempo entre a posição de repouso e de auscultação foi de 1,9 segundos no grupo dos clássicos. Já o grupo cool demorou em média 3,2 segundos . A diferença de médias foi de 1,3 segundos e teria significado estatístico…

…e económico. Os autores estimam que a moda de usar o estetoscópio à cool, no universo dos profissionais de saúde do Canadá pode significar uma despesa de 256750 segundos (71,32 horas) por reposicioniamento do estetoscópio, por pessoa, por ano. Assumindo que 80% dos profissionais aderiram à moda cool e que cada um deles usa o estetoscópio 20 vezes por dia, poderemos estar a falar de 273869 horas de tempo desperdiçado, o que ao preço/hora practicado no Canadá em 2000 (data do estudo), se pode traduzir em 20,5 milhões de dolares deitados ao lixo.

Obviamente, este artigo tem um lado lúdico forte, mas a componente científica está lá. Os autores autores são William Hanley, Professor Emérito e Médico Honorário do Departamento de Pediatria da Universidade de Toronto, e Anthony Hanley, Professor Auxiliar de Epidemiologia e de Nutrição da mesma universidade. Desconheço o grau de parentesco destes Hanley, mas imagino uma galhofa familiar à volta de uns copos depois de um almoço de Domingo alegre e bem disposto. Leiam como acaba o artigo (negrito meu):

Acknowledgements: We were unable to obtain funding for our study from any respectable granting agency. The participating volunteers and the research assistants were, however, rewarded (after the testing) with a shot (90 mL) of 12-year-old Cardhu Single Malt Scotch Whisky (Cardhu Distillery, Knockando, Moray, Scotland) (traditional group) or a pint (568 mL) of Sleeman Honey Brown Lager (Sleeman Brewing and Malting Co., Guelph, Ont.) (cool group). We thank the distillery and brewery for their significant contributions to this important research. After all, the idea for this project was formulated one Sunday evening after having ingested a quantity of the above-mentioned libations. It all seemed like such a good idea at the time. 

Competing interests: None. The authors are equally fond of several other brands of single malt Scotch and beer (see Acknowledgements).

Deveríamos fazer mais ciência desta.

Buracos no diafragma

Chegaram à redacção algumas dúvidas relacionadas com esta notícia aqui. Então em Coimbra «fizeram uma descoberta inédita» e baptizaram uma hérnia? No diafragma? Primeiro, vamos lá ver o que é uma hérnia diafragmática. Uma hérnia  é a protusão de intestino (ou outro conteúdo visceral) por um buraco ou fraqueza anatómica. Pode ser pelo umbigo (ver aqui a hérnia umbilical), pode ser na virilha (ver aqui as hérnias inguinais), pode ser em qualquer zona onde o músculo deveria fechar e fechou de forma incompleta ou ineficaz. Ora, o diafragma é um músculo. Ele separa a cavidade abdominal da cavidade torácica. É a contracção do diafragma que puxa os pulmões para baixo, forçando a expansão dos alvéolos, e permitindo que o ar seja aspirado (ou melhor dizendo, inspirado).

[fonte: childrenshospital.org]

Quando existe uma parte do diafragma que fechou mal, existe uma entrada de conteúdo abdominal para dentro da cavidade torácica. Pode passar para o tórax praticamente tudo: estômago, baço, fígado, intestino delgado, cólon (vulgo intestino grosso) e  o respectivo apêndice. Trata-se de uma doença congénita, isto é, que nasce com a pessoa (por isso, se chama hérnia diafragmática congénita). O diagnóstico é feito in utero em cerca de 90% dos casos e pode ser feito desde a ecografia das 12 semanas (altura em que é suposto o diafragma estar completamente formado). Ainda assim, alguns podem manifestar-se apenas a seguir ao nascimento, com falta de ar, infecções respiratórias ou oclusão intestinal no recém-nascido. Só muito raramente a hérnia diafragmática se manifesta na criança maior e, muito menos, em adulto.

[fonte: coloradofetalcarecenter.org]

A hérnia diafragmática congénita aparece em 1 de cada 2000-5000 mascimentos. 80% aparecem do lado esquerdo, 20% à direita e muito raramente dos dois lados. Os rapazes são mais afectados que as meninas e os filhos de mães com baixo peso (para a sua altura) também têm maior risco. Isso poderia dar-nos pistas para a causa desta doença, mas ainda pouco se sabe porque é que este defeito do encerramento diafragma acontece. Como acontece na maioria das doenças congénitas, haverá uma componente de predisposição genética associada a uma exposição ambiental que despoleta a alteração anatómica. Infelizmente nem uns nem outros estão identificados.

O defeito no diafragma tem que ser corrigido, seja por via abdominal – laparoscópica ou via aberta (laparotómica) – seja por via torácica – toracoscópica ou toracotómica. É preciso encerrar o buraco (defeito herniário), nem que seja com uma prótese. Só assim o conteúdo abdominal deixa de se enfiar no tórax e o pulmão pode trabalhar melhor. Melhor, porque raramente se consegue um pulmão perfeito. Sabe-se hoje que associado à malformação do diafragma existe uma malformação dos próprio pulmão, que condiciona hipoplasia e hipertensão pulmonares. Aliás, controlar este dois factores antes e depois da cirurgia tem sido um dos focos de investigação do laboratório de ciências cirúrgicas do ICVS. O meu chefe (o Professor Jorge Correia-Pinto, que vocês já conheceram aqui) doutorou-se nesta área na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Quando veio para a Universidade do Minho, criou uma equipa que tem dado continuidade a esse trabalho.

Agora, vamos ao baptismo das hérnias. Na sua grande maioria, as hérnias diafragmáticas são postero-laterais (isto é, atrás e de lado). Apesar da primeira descrição ser de um Dr. McCauly em 1754, este tipo de hérnia foi amplamente estudada por um cirurgião chamado Bochdalek. Mesmo com o facto de muita da embriologia e opções cirúrgicas sugeridas por este professor de Anatomia checo estarem erradas, ainda hoje se chamam às hérnias postero-laterais (direitas ou esquerdas), hérnias de Bochdalek. Muito raramente, o defeito do diafragma é anterior (à frente do coração). Estas levam o nome de quem as descreveu a primeira vez – hérnias de Morgagni.

[fonte: courses.md.huji.ac.il]

Agora, voltando à notícia, o que os colegas de Coimbra trataram foi uma hérnia de Bochdalek direita ,onde estava inserida a transição do intestino delgado e cólon, e o respectivo apêndice iloceal. A presença do apêndice ileocecal nas hérnias de Bochdalek não é raro Raro é elas chegarem à idade adulta sem nunca terem sido detectadas. Segundo o artigo publicado pelo grupo, foram reportadas na literatura científica apenas 26 hérnias de Bochdalek no indivíduo adulto e nenhuma teria o apêndice-ileocecal dentro do tórax. A hérnia publicada pelos colegas será a primeira hérnia de Bochdalek direita com apêndice ileocecal torácico no adulto. Diagnosticar e saber resolver o problema à senhora é um mérito que lhes pertence, porque não deve ter sido nada fácil. Infelizmente. não será o suficiente para destronar Bochdalek e passar a chamar-lhe hérnia de Almeida-Reis.

Leite: questões comuns

Com tantas opções de leites para lactentes, para antes e depois dos 6 meses, e mais tarde para depois dos 12 meses, enriquecidos com isto e aquilo, torna-se confuso (e eventualmente desnecessário) para os pais tanta informação cruzada. A convidada especialista desta semana é Professora Auxiliar e Chefe de Serviço de Pediatria no Hospital de Braga e na Escola de Ciências da Sáude da Universidade do Minho. É responsável pelas Unidades da Medicina da Adolescência e da Gastroenterologia Pediátrica do Serviço de Pediatria do Hospital de Braga. Tem um currículo demasiado extenso para caber nesta introdução. Seja como for, a Prof. Doutora Henedina Antunes fez um resumo das ideias chave que trasmitiu num dos últimos programas da Sociedade Civil dedicada aos benefícios e eventuais malefícios do leite. Trata-se de um resumo. Para aprofundar o tema aconselho seriamente assistirem ao programa na íntegra. O painel é de grande qualidade.

Leite: questões comuns
Henedina Antues

O leite deve ser o único alimento até aos 6 meses de vida do bebé, de preferência, o leite materno. Se não for possível, o leite 1 (ou leite para lactentes 1) em sua substituição, que é leite de vaca muito modificado para se adaptar as necessidades do bebé. Esse leite tenta ser parecido com o leite da mulher.

Porque é só parecido? Porque não fica com sabores diferentes conforme a dieta da mãe. Porque não se modifica durante a refeição como o leite da mama. Por exemplo, o teor de gordura modifica-se durante a mamada para o bebé ficar saciado e parar de mamar. Por outro lado, a mama não é transparente ao contrário da maioria dos biberons. Por isso, na mama, a mulher tem menos tendência a insistir para o bebé “beber o leite até ao fim”. No biberão os pais não devem cair na tentação de insistir com o bebé para acabar o biberão. Se está saciado é para parar. O bebé ao biberão não tem culpa que o biberão seja transparente. Se fosse a mama não bebia o último bocadinho de leite.

Outra diferença é que ainda não se consegue pôr no leite todos os componentes do leite materno, nem modificar a proteína tanto quando seria desejável para ser igual ao leite de mulher. Em compensação o leite materno tem alguns “defeitos” é pobre em ferro e vitamina D, pelo menos para o padrão de peso dos bebés actuais.

[fonte: agrotec.pt]

Aos 6 meses devem ser introduzidos outros alimentos, mas o leite até aos 12 meses deve continuar o mesmo, materno ou o leite 1. Não é importante mudar para o leite 2 mas pode fazê-lo.

Entre os 12 meses e os 36 meses há leite com mais teor em ferro que se aconselha para os bebés. São leites habitualmente mais doces e mais caros. Não aconselho estes leites até aos 3 anos. Têm algum interesse até aos 2 anos, por causa de serem suplementados em ferro, mas depois é habitualmente difícil tira-los a criança.

  • Em “troika”, gaste o seu dinheiro no leite 1 até aos 12 meses (se não amamentar) e poupe dinheiro para o próximo bebé ter, se necessário, o leite 1. Leite de vaca até aos 12 meses, não, com troika ou sem troika.
  • Após os 12 meses, recomendo o leite meio-gordo em todas as crianças. Depois dos 3 anos, se tiver hipercolesterolemia, pode fazer leite magro. Não dê leite de vaca a substituir refeições de almoço e jantar e não beba leite a estas refeições. Não dê mais de 500 ml de leite de vaca ou produtos lácteos (como iogurtes, etc.) ao seu filho(a) pelo menos até aos 10 anos.
O leite sem lactose é mais caro e as crianças, sem doença comprovada, não beneficiam destas modificações da natureza.

Mas que história é essa dos percentis?

Para saber o que é um percentil basta ir à wikipédia: «Em estatística descritiva, o k-ésimo percentil Pk é o valor x (xk) que corresponde à frequência cumulativa de N k/100, onde N é o tamanho amostral.» O que em língua portuguesa pode ser traduzido para: o percentil é o valor que divide a amostra num determinado ponto. Por exemplo, podemos dividir as as crianças com a mesma idade e o mesmo sexo em função do seu peso. Assim, o percentil 25 (P25) divide as crianças de tal forma que 25% das crianças ficam abaixo do P25 (ou seja, pesam menos que o P25) e 75% ficam acima desse valor. No mesmo exemplo o percentil 50 (P50) divide a amostra em duas metades: 50% das crianças terão um peso abaixo do P50 e a outra metade terá uma peso superior ao P50. O percentil 75 (P75) divide a amostra em 75% que pesam abaixo de P75 e 25% que pesam mais que o P75.

Com esta informação é mais fácil interpretar as curvas dos percentis que aparecem no boletim de saúde infantil. Primeiro foram realizadas milhões de pesagens a crianças saudáveis, ao longo do seu crescimento. A partir dos valores obtidos calcularam-se os percentis para cada idade. Depois, foi só marcar no gráfico os valores do percentil 5 para cada uma das idades e ficou desenhada a curva do P5. Fez-se o mesmo para o P10, P25, P50, e por aí fora. Com esta curva podemos fazer o raciocínio ao contrário, isto é, podemos pegar no peso das nossas crianças e ver em que percentil ele calha.


Por hipótese, se o meu filho com 8 meses, pesa 9,6 kg (960 g), o peso dele corresponde ao P75. Logo, eu sei que 75% das crianças com 8 meses são mais leves do que ele; e 25% são mais pesadas. Posso fazer o mesmo para o comprimento/altura e para o perímetro cefálico, nos respectivos gráficos.* 

Agora, o facto de ele ter um peso no P75 faz dele gordo? Não obrigatoriamente. O peso depende da altura e, se ele for alto, pesará mais. O mesmo se passa para percentis baixos. Um menino que tem um peso próximo do P5 não quer dizer que esteja magrinho. Pode  ser apenas mais pequeno que a maioria da população. De facto mais importante do que olhar para o percentil de peso numa determinada idade, interessa ao médico ver a evolução do percentil da criança ao longo do tempo. Ou seja, uma criança que cresce ligeiramente acima do P10 de peso a vida toda, mas que a certa altura começa a descer e cruza para baixo da curva do P5 (ver a curva vermelha no gráfico acima) deve preocupar o médico e obriga a uma investigação aprofundada para a causa da perda de peso. Esta regra de ‘cruzar dois percentis’ é uma regra de ouro que se aplica também ao aumento súbito do peso (da altura e do perímetro cefálico).

* Nota o gráfico acima corresponde às tabelas de percentis antigas que já deveriam ter sido substituídas nos boletins de saúde infantil de todos os nascidos de 2013 (segundo notícia do Público), mas não foram. Elas baseiam-se em estudos americanos, onde os bebés estudados eram maioritariamente caucasianos e alimentados com leite adaptado. Em 2006, a OMS sugeriu curvas mais realistas, baseada numa população mais heterogénea e alimentada com leite materno. São estas as utilizadas por uma grande parte dos pediatras (e podem ser consultadas aqui).

ACTUALIZAÇÃO 9/2017. NOVOS BOLETINS JÁ TÊM AS TABELAS ACTUALIZADAS.

Que cuidados e prioridades devemos ter na escolha de um infantário?

Sexta-feira foi o último dia do JM no Alcofinha. O infantário (ou escolinha como lhe chamamos) vai até aos 3 anos. Apartir de hoje, o rapaz crescido já vai para a pré-escola (ou escola dos grandes como ele lhe chama). Foram 3 anos de uma relação perfeita entre nós (pais) e o Alcofinha, ele (JM) e o Alcofinha e nós (pais) e o JM. De facto, o Alcofinha facilitou-nos muito a função de sermos pais do JM. Foram elas que nos ajudaram a dar-lhe alimentos sólidos (e os líquidos), a tirar-lhe a fralda, a melhorar as suas artes plásticas, entre outros desafios que foram surgindo ao longo deste tempo todo. Se eu mandasse, todos os pais teriam um Alcofinha disponível para os ajudar na tarefa de serem pais. Enquanto eu não mando, deixo-vos algumas dicas para tentarem encontrar um infantário à altura.

Há dois factores que são prioritários na escolha do infantário. Refiro-me o local (de preferência na rota de um dos pais) e o horário de entrada e de prolongamento (que permita conjugar a hora de entrega e de recolha com o horário dos pais ou familiares). Digo que estes são prioritários, porque o tempo precioso que se gasta em filas de trânsito para levar e buscar o petiz no infantário XPTO pode bem ser usado a chegar a casa (ou sair, conforme o caso) 30-45 minutos mais cedo e ter tempo para brincar com os pais. Esse tempo é bem mais importante do que grandes planos educativos que se vendem por aí. O preço acaba por ser determinante também, embora aqui pelo Porto, o preço dos infantários não varie assim tanto.

Depois, existem as comidas. A generalidade dos infantários pede que os pais tragam o leite adaptado e as papas que costumam fazer em casa, para não haver mudanças. Mas alguns exageram, obrigando que até ao primeiro ano os pais tragam as refeições preparadas de casa. Tirando algumas regras na introdução dos alimentos (podem ler aqui), durante o tempo que estão no infantário, os bebés podem comer sopas básicas e papas de maçã, pera e banana, deixando as coisas mais elaboradas para as refeições em casa. A ordem é para simplificar. Escolham um infantário que não complique a vida aos pais.

Voltando aos planos educativos, até aos 3 anos, existem muitas actividades que as crianças podem fazer, mas também muitas pelas quais eles não desenvolverão qualquer apetência. Só pais de primeira viagem caem no encanto que o infantário dos 4 meses aos 3 anos vai colocar a criança a cumprir um programa linguístico completo, a contar para a frente e para trás, a cantar em português e inglês. Podemos hiperestimular as crianças e até treiná-las para pequenas habilidades (quais macaquinhos de imitação), mas até aos 3 anos, a criança precisa é de brincar e, com a brincadeira, aprender organizar o seu corpo, a sua mente e o seu espaço social. A haver um plano pedagógico este é o único que importa até aos 3 anos. Lembro-me de um infantário biligue (português, inglês) que visitámos onde as educadoras elencavam uma lista infindável de habilidades que o petiz seria capaz (teria de fazer) ao passar para a sala dos 12 meses, que eu fiquei com medo que o JM reprovasse. Para quê complicar?

E, para brincadeira, é preciso espaço. Salas amplas onde os mais pequenos gatinhem à vontade e os crescidos possam correr (sim correr) é fundamental. E um jardim. Um jardim ou parque, que sejam efectivamente utilizados. Porque o pânico que eles se magoem é tão grande, que não deixam os pequenos desenvolver-se livremente. Se houver uma queda ou uma turra, qual o stress?

Na sequência do ponto anterior aparece outro, que acabou por ser vital na escolha do Alcofinha. Pode parecer contraditório, mas o que mais me chocou nas visitas que fizemos a outros infantário foram os protectores de calçado na entrada, as visitas a horas previamente marcadas (regra que seria para manter caso lhes confiássemos o infante), o ambiente pseudo-medicalizado de locais que deveriam estar cheios de bagunça própria das crianças.  O ambiente hospitalar de um dos infantários que visitámos chegava ao ponto de cada criança ser acompanhada de um diário de bordo onde eram registadas as mamadas ou refeições e os repectivos xixis e cócós. Até aí aceitaria, não fosse o caso de os pais terem que continuar a registar as entradas e saídas,  durante as horas passadas em casa. No fundo, um contínuo do ambiente das nossas casas. Para além disso, tenho sempre a sensação que esta obssessão pelo ambiente ultra-higienizado resulta em chamar os pais para ir buscar o bebé mais cedo ao primeiro espirro, a exigir atestados médicos por tudo e por nada, ou seja, a complicar. Repito, a ordem é para simplificar. O ambiente deve ser cuidado mas relaxado quanto baste. 

Finalmente, a experiências prévias. Pais felizes com o serviço e crianças bem-educadas são os melhores cartões de visita de um infantário. Nós fomos visitar o Alcofinha por conselho de uns amigos cujos sobrinhos andaram por lá. Entrámos, limpámos os pé no tapete da entrada e nada de protecores de bloco operatório. Falámos com a Isabel e (upa!) vamos lá ver as instalações (sem marcação prévia!!!). Subimos as escadas de madeira e, lá em cima, o que fazia sentido: duas salas grandes (uma para quem gatinha, outra para quem já caminha com mais à vontade) e um quarto onde ficavam os lactentes dorminhocos até serem suficientemente rijos para se sentarem no meio da barafunda dos que já gatinham. Este critério funcional e adaptado ao que a criança consegue aguentar (e não pelos meses de idade) conquistou-me de imediato. As salas estavam obviamente fechadas com gradeamentos (eles não sairiam de lá e os nossos pés ‘de fora’ não calcariam o chão imaculado. Em baixo, o ambiente era de pré-escola. Era Verão e as crianças de 2 e 3 anos corriam entre a sala de actvidades e o recreio. À entrada lavavam-se as mãos e a cara, à saída colocavam-se os chapéus. Vi crianças verdadeiramente felizes por ali estarem. À saída, a decisão estava tomada.

Ficámos de ligar mais tarde. Ligámos, queríamos pagar a pré-inscrição. «Pagar? Basta darem o nome que pretendem dar ao bebé. Quando ele nascer, passem por cá a inscrevê-lo.» E se ficarem sem vagas? «Não. Está guardado para o JM, está guardado» E se eu desistir? Pode ficar a perder o dinheiro… «Telefone-me. Ainda consigo confiar na palavra das pessoas.» Esta conversa foi tão diferente de outras que tinha tido. Por incrível que possa parecer, num dos infantários que visitámos pediam que pagássemos todos os meses lectivos do ano até à entrada do JM, que se previa ser em Junho. As vagas eram poucas e muitos davam-se a luxos parecidos. Felizmente na Alcofinha criam-se laços entre pessoas. E esses laços jamais serão desfeitos.

JM no último dia na escolinha muito especial.

Rebenta a bolha

Há dias, introduzi aqui dois termos médicos – pneumotórax e derrame pleural – que deixei por explicar convenientemente. Não gosto de deixar pontas soltas. Para mais, conhecimento nunca fez mal a ninguém. Então cá vai uma brevíssima explicação.

O derrame pleural corresponde à existência de líquido na pleura, que é um revestimento que cobre o pulmão e a parede torácica. Ele aparece em contextos muito diferentes e o próprio líquido pode ser de natureza muito diferente (pús, sangue, soro, linfa). A causa mais frequente de derrame pleural na criança são as pneumonias. Mesmo assim, só muito raramente, elas precisam de tratamento cirúrgico. Se houver dificuldade respiratória pode necessitar de ser drenado, ou seja, pode haver a necessidade de aspirar com uma agulha ou introduzir um dreno, para retirar o líquido, de forma a deixar expandir o pulmão convenientemente. Só nos casos muito complicados, com formação de empiemas (o primo torácico dos abcesso) é que pode ser necessário uma limpeza cirúrgica do pús dentro da cavidade torácica. Em todo o caso, o mais importante é tratar a causa (e isso é um problema fundamentalmente médico).

[fonte: sedico.net]


O pneumotórax constitui a saída do ar de dentro do pulmão para o tal espaço entre o pulmão e a parede torácica. Dá uma dor súbita no lado afectado e é geralmente um problema cirúrigco. Os pneumotóraxes dividem-se em dois grandes grupos: traumáticos (isto é, por um acidente ou traumatismo) ou espontâneo (ou não traumáticos). Estes últimos podem ser primários (por uma alteração da estrutura dum pulmão não doente) ou secundários (a uma doença pulmonar de base, como a fibrose quística e algumas pneumonias. As alterações da estrutura que podem causar pneumotóraxes primários são as chamadas bolhas (como na figura abaixo), que, ao ‘rebentarem’ para o interior da cavidade torácica, enchem o espaço pleural de ar. Tal como acontecia com o líquido do derrame pleural, o ar também não deixa expandir o pulmão eficazmente. Logo, inicia-se uma dificuldade respiratória crescente, podendo haver a necessidade de colocação de um dreno torácico.

[fonte: blebinfo.co.uk]

Se a bolha demorar a ‘encerrar’ (isso vê-se pela drenagem contínua de ar pelo dreno torácico) ou se se derem vários episódios de pneumotórax do mesmo lado, o cirurgião pode pedir uma TAC (tomografia axional computorizada) e eventualmente realizar toracoscopia para procurar a tal bolha e retirá-la.

Otite externa (ou de mergulhador)

A convidada especialista desta semana vem responder por mim a algumas perguntas que tenho recebido no e-mail, sobre otites e piscinas. A Dra Teresa Mesquita Guimarães é pediatra no Hospital da Arrábida. Trabalha também no Hospital de Santa Maria e na Clínica EME Saúde (tudo no Grande Porto). O texto está excelente. Pode vir um bocadinho tarde, uma vez que o Verão parece querer ir embora e leva com ele as tardes passadas na praia ou na piscina. Mas as aulas de natação vão recomeçar e é preciso prepararmo-nos para evitar as mal-fadadas infecções nos ouvidos.

Otite externa
Teresa Mesquita Guimarães

Se os dias quentes de Verão passados na praia ou na piscina com as crianças podem ser muito divertidos (e cansativos), ter de lidar com uma otite externa pode ser um balde de água fria. Muitas horas na água, a brincar, nadar e mergulhar (sempre sem descurar a vigilância atenta dos mais pequenos) podem favorecer o aparecimento de inflamações e infecções nos ouvidos, que não estão preparados para estes excessos aquáticos!

[fonte: ipo.com.br]


O que é?
Mas afinal o que é uma otite externa? A otite externa, também chamada de otite do nadador (swimmer’s ear), é uma inflamação do canal auditivo externo. O ouvido divide-se em três partes: externo, médio e interno. O ouvido externo é formado pelo pavilhão auricular (vulgo orelha) e pelo canal auditivo externo, que se inicia na entrada do ouvido e vai até à membrana timpânica (tímpano), e é revestido por pele e cerúmen (cera) que tem um papel protector importante.

Com o contacto frequente e continuado com água, a cera do ouvido é removida e a pele do canal auditivo fica vulnerável à proliferação de bactérias e fungos. Além da humidade excessiva, outros factores como a limpeza agressiva (por exemplo com cotonetes) ou traumatismo do canal auditivo (com um corpo estranho) e a pele seca ou eczema, que originam comichão podem contribuir para macerar a pele do canal e favorecer o aparecimento de infecção.

[fonte: disataster-medicine.blogspot.com]
 

Como se manifesta? 
Geralmente, a criança queixa-se de dor, desconforto ou comichão num dos ouvidos, embora por vezes possa afectar ambos os ouvidos. A dor pode ser intensa, e habitualmente agrava ao tocar ou mexer na orelha – o que permite distinguir da otite média. Pode ser notado rubor (vermelhidão) e edema (inchaço) do canal e ocasionalmente secreção proveniente do ouvido, sensação de bloqueio ou perda de audição. Não é habitual surgir febre. Se a criança apresentar temperatura alta ou dor intensa associada a inchaço ou vermelhidão em redor ou atrás da orelha, deverá procurar cuidados médicos com brevidade.
A otite externa não é contagiosa, portanto não há risco no contacto com outras crianças.

[fonte: dallasentgroup.com]


Como se trata?
O tratamento da otite externa inclui 3 atitudes:
– manter o ouvido seco: a criança deverá evitar nadar ou colocar a cabeça debaixo de água no banho, impedindo que a água se introduza directamente no ouvido enquanto a infecção não estiver resolvida; não é recomendado usar cotonetes para secar ou limpar o ouvido, já que podem causar lesão ou irritação na pele do canal ou  mesmo uma perfuração acidental do tímpano
– medicação para a dor: deve utilizar os analgésicos habituais paracetamol (Ben-u-ron) e ibuprofeno (Brufen/Nurofen/Ib-u-ron) em doses correctas para controlar a dor
– tratamento tópico: com gotas auriculares que contêm geralmente antibiótico e/ou corticosteróides (que têm acção anti-inflamatória), prescritas pelo médico.
Por vezes, nos casos mais graves, é necessário prescrever antibiótico oral
A infecção deverá começar a dissipar-se em dois ou três dias, ficando normalmente tratada em cerca de uma semana.

Como se previne?
Os cuidados para evitar ou reduzir o risco de otite externa consistem basicamente em manter o ouvido o mais seco possível.
– Utilize dispositivos próprios para evitar a entrada de água no ouvido: os vulgares tampões protectores, de material macio e preferencialmente moldável de modo a adaptar-se à anatomia do canal (ex. silicone). Existem também umas fitas de tecido ajustável tipo bandolete (Ear Band-It) que são bastante eficazes.

[fonte: funswimshop.co.uk]
 

– Seque bem os ouvidos após as actividades na água e/ou banho: utilize uma toalha para limpar o exterior do ouvido; incline a cabeça de lado e faça movimentos com orelha em diferentes direcções para ajudar a drenar a água retida no canal auditivo; considere utilizar o secador de cabelo, em potência mínima e a uma distância segura da orelha, para evaporar os resquícios de água.
Embora existam produtos otológicos (gotas auriculares adstringentes como a solução de Burow), que provocam a evaporação de água e acidificam o pH do canal, impedindo o crescimento de bactérias, estes não estão disponíveis em Portugal. Alternativamente poderá utilizar uma fórmula caseira que se obtém misturando partes iguais de álcool a 70% e vinagre (ácido acético).
– Nunca introduza cotonetes ou outros objectos no canal externo do ouvido: o cerúmen tem uma função protectora e não deve ser removido nem limpo de forma excessiva
– Consulte um médico se a criança apresentar dor ou saída de líquido do ouvido: uma observação simples com otoscópio permitirá um diagnóstico e tratamento correcto, evitando complicações.