Piscinas e natação (III)

Qualidade da água das piscinas
Bernarda Sampaio

Antes de optarmos entre piscina água doce/salgada, convém nos apercebermos que o mais importante é o controlo da qualidade de água, na salvaguarda da saúde pública, minimizando as reações alérgicas e orgânicas (dermatoses, otites, sinusites, conjuntivites, micoses) e o desenvolvimento de doenças transmitidas pela ingestão de água com microorganismos patogénicos (subprodutos da desinfeção, toxinas e micropoluentes orgânicos).

O controlo da qualidade da água requer uma acção integrada a diferentes níveis:

  1. tratamento da água, incluindo filtração e desinfeção para remover ou inactivar microorganismos ou substâncias em suspensão
  2. da capacidade hidráulica do tanque, de modo a remover as massas contaminadas pelos utentes e permitir uma distribuição homogénea do desinfectante residual
  3. renovação frequente da água
  4. limpeza de superfícies, para remover os sedimentos depositados no fundo e os biofilmes das paredes.
[fonte: hellomagazine.com]

Os parâmetros de qualidade a serem medidos são o ph, a turvação, o teor de desinfectante residual e a temperatura, a cada 6h. Os parâmetros microbiológicos e químicos das piscinas públicas devem ser avaliados quinzenalmente. A temperatura deve ser próxima dos 24ªC para adultos e 26ºC para as crianças, mais que 29ºC causa desconforto e favorece o crescimento microbiológico. A concentração de desinfectante residual varia com o tipo de produto utilizado. A desinfecção da água pode ser efectuada através de meios físicos (ultravioletas), meios químicos (cloro, bromo, ozono) ou através da Ionização electrolítica – a água atravessa um tambor onde estão eléctrodos que a bombardeiam com iões de prata e cobre. A desinfeção com produtos clorados pode ser efectuada através de cloro gasoso, hipoclorito ou por salinização, que permite a obtenção de cloro por processos naturais. No entanto todos estes processos alternativos necessitam da adição mínima de uma concentração residual de desinfectante (bromo ou cloro).

Os estudos que associam o efeito nefasto do uso de produtos clorados a  maior risco de bronquiolite ou agravamento de asma/doenças alérgicas em crianças quando comparados com o uso de outros produtos na desinfeção ainda necessitam de ser mais fundamentados. No entanto é sabido que quanto menor for a concentração residual em cloro, mas dentro dos valores considerados apropriados para a correcta desinfeção da água, melhor, pois minimiza as reações alérgicas tópicas. Actualmente os defensores do uso de piscinas de água salgada assumem que as grandes vantagens são a redução no uso regular de químicos tóxicos, a inexistência do desagradável odor a cloro, pois a desinfeção é por salinização e a mais frequente renovação da água.

Penso que por tudo o exposto o que devemos reter é que o mais importante é a qualidade da água e a prática correcta das medidas de higiene preconizadas, como duche antes da entrada na piscina, uso de touca, uso de fraldas impermeáveis e limpas em crianças sem continência de esfíncteres, lavagem de mãos após ida à cada banho ou muda de fraldas e não frequência na piscina em caso de doença.

Use a piscina para fins recreativos com os seus filhos, divirta-se e divirta-os a eles, mas sempre tendo em atenção os perigos relacionados.

Piscinas e natação (II)

10 Conselhos para Evitar os Afogamentos de Crianças
Bernarda Sampaio

  1. Perto da água, não perca as crianças de vista nem por um segundo. Não espere ouvir barulho. Uma criança não esbraceja nem grita quando cai à água: afoga-se em silêncio absoluto. Redobre a vigilância com as crianças mais novas ou com necessidades especiais, no caso destas o adulto deverá estar na água e as crianças ao alcance de um braço. 
  2. Nunca deixe uma criança com menos de 3 anos sozinha na banheira durante o banho; não atenda o telefone nem a porta. Despeje a água da banheira imediatamente após a utilização. 
  3. Despeje toda a água de baldes, alguidares e banheiras logo após a utilização.
  4. Dificulte o acesso das crianças aos locais com água: vede as piscinas e tanques e cubra os poços. Não tenha brinquedos próximos à piscina, nem use colchões ou brinquedos insufláveis.
  5. Escolha praias e piscinas vigiadas e cumpre a sinalização. Nas praias localize o nadador salvador.
  6. Coloque sempre coletes salva-vidas às crianças, mesmo que saibam nadar, em águas agitadas, turvas ou profundas e sempre que andar de barco ou praticar desportos naúticos.
  7. Em águas paradas, transparentes e pouco profundas e mesmo quando a criança está a brincar perto da piscina, coloque braçadeiras às crianças que ainda não sabem nadar bem.
  8. Ensine as crianças a nadar, mas mantenha a vigilância. O álcool pode interferir com o seu estado de vigília e com a sua capacidade de nadar. Alerte os adolescentes para este perigo.
  9. Ensine as crianças a nunca irem nadar sozinhas, a nadar paralelamente à margem e a não mergulhar de cabeça sem conhecer bem a profundidade da água ou se existem rochas ou desníveis no fundo, não mergulhar em pontões. Ensine as crianças a nunca atrapalhar outras crianças com brincadeiras perigosas (submersão da cabeça, empurrões para a água…).
  10. Aprenda a fazer reanimação cardio-respiratório, esse gesto pode salvar uma vida. Faça um curso de Primeiros Socorros! Se ocorrer um acidente por submersão e a criança parar de respirar, se possível alerte o nadador salvador, chame o 112 e dê indicações precisas sobre o local onde se encontra;se souber, inicie a reanimação cardio-respiratória e mantenha-a até à chegada da ambulância. 
[fonte: esellerpro.com]

A existência de uma boa vedação diminui para metade o número de acidentes por submersão nas piscinas. Para ser eficaz, a vedação não deve permitir a passagem de uma criança por cima, por baixo ou através dela. (ver recomendações técnicas para vedações de piscinas na APSI)

Os coletes salva-vidas e as braçadeiras facilitam a flutuação, mas não substituem nunca a vigilância activa do adulto. Estima-se que 85% dos afogamentos resultantes de acidentes com barcos poderiam ter sido evitados se a vítima utilizasse colete salva-vidas. As bóias e colchões insufláveis são perigosos e não devem ser usados por crianças. Viram-se facilmente e podem ser arrastados pelo vento.

Normas a ter em atenção na escolha de braçadeiras :

  • Devem ser adequadas ao peso da criança e estar de acordo com as normas de segurança
  • Ter pipos com saída de ar controlada
  • Ter duas camaras de ar independentes em forma de anel à volta do braço
  • Ter cores garridas
  • Em cada colocação acabe de enchê-las já no braço, para que fiquem bem ajustadas

Alguns conselhos na escolha de coletes salva-vidas:

  • Devem ser adequadas ao peso da criança e estar de acordo com as normas de segurança
  • Não devem ser insufláveis

Em férias, redobre a vigilância. O primeiro dia de férias e o final da tarde são as alturas em que acontecem mais afogamentos. Quando chegar, e antes de desfazer as malas, inspeccione o local onde vai viver nos próximos tempos, verificando o acesso a piscinas, lagos, tanques, poços, rios ou mar. Utilize embarcações aquáticas em segurança: respeite e faça respeitar as zonas de banhistas. Jovens com menos de 16 anos não devem conduzir embarcações pessoais como motos de água ou outras. Lembre-se que o colete salva-vidas deve ser sempre utilizado.

Piscinas e natação (I)

A Convidada Especialista desta semana fez uma pesquisa exaustiva sobre Piscinas e Natação, o que vem mesmo a calhar para este início de Verão. A Dra. Bernarda Sampaio é pediatra neonatologista no serviço de Neonatologia do Hospital de Guimarães. Trabalha também no Hospital Privado da Boa Nova. A Bernarda é Mãe de uma «princesa que fez agora 6 anos» e de um «príncipe maravilha que tem 13 meses».

Piscinas e natação
Bernarda Sampaio

A água é um dos locais mais aprazíveis para a diversão com os nossos filhos, no entanto os perigos iminentes a uma simples distração são muitas vezes esquecidos. Todos os anos, pelo menos 54 crianças são vítimas de afogamento (21 de Junho de 2011). O afogamento na criança, é um acontecimento trágico, rápido e silencioso, que pode acontecer em muito pouca água. (APSI)

Por esse mesmo motivo hoje falaremos sobre idade ótima para iniciar aulas de natação, estratégias preventivas de afogamento e abordaremos a temática piscina de água salgada versus de água doce.

Até Julho de 2010 a Academia Americana de Pediatria (AAP) não aconselhava a aprendizagem da natação até aos 4 anos. Aos 4 anos a maioria das crianças podem aprender movimentos básicos de locomoção na água e por volta dos 5/6 anos podem dominar o estilo “crawl”. As aulas de natação melhoram a competência da criança na água, embora não se deva confiar nas suas capacidades para se salvar antes dos seis. Estudos recentes revelaram que as crianças entre os 24 e os 42 meses que tivessem realizado um treino intensivo de natação de 8 a 12 semanas adquiriam capacidade de sobreviver a um afogamento se caíssem numa piscina. Até à data existem poucos estudos relativos à capacidade de prevenção de afogamento nesta idade com a aprendizagem da natação e não estão referidas as “aulas-chave” com melhores resultados. A AAP recomenda que todas as crianças devem aprender a nadar, a idade de início para a aprendizagem deverá ser os 4 anos, no entanto o início desta aprendizagem antes dos 4 anos deverá ser uma decisão parental tendo por base os seguintes factores: tempo de exposição à água, maturidade emocional, limitações físicas e problemas médicos (risco mais elevado de gastroenterites, dermatites, agravamento de doenças alérgicas, hipotermia; frio; e hiponatremia; intoxicação pela água;). A AAP não identifica vantagens no início de actividades aquáticas antes de 1 ano de idade. As crianças com menos de 3 anos que participem em actividades aquáticas deverão ter sempre um dos pais presentes na água, na proporção de um para um, num ambiente divertido, com professores qualificados, água tépida, purificada e com um número reduzido de submersões.

Não existindo recomendações específicas no nosso país da Sociedade Portuguesa de Pediatria, acho que o início das aulas deverá ser ponderado, entre pais e médico assistente, considerando os riscos e benefícios inerentes e a individualidade de cada criança. Obviamente parece-nos mais claro que uma criança filha de pescador/surfista, que frequente prolongadamente os mesmos locais que os pais, deverá adquirir mais precocemente movimentos básicos de sobrevivência na água que uma criança que viva num ambiente rural sem rios/lagos próximos…mas e os poços? E os tanques?

[fonte: poolinfosite.com]

É nos rapazes que se verifica o maior número de afogamentos, sendo a faixa etária mais “atingida” as crianças até aos 4 anos. Em termos gerais é nos rios/ribeiras/lagoas e tanques/poços que se regista o maior número de afogamentos, logo seguidos das piscinas. A praia é o local onde se verificam menos afogamentos. Nas piscinas, os afogamentos acontecem mais com as crianças dos 0 aos 4 anos, assim como, nos tanques e poços. Nos rios/ribeiras/lagoas acontecem mais com as crianças dos 10 aos 14 anos e nas praias com os jovens dos 15 aos 18 anos.

O menino ‘entalou-se’ – o que fazer?

O meu maior pânico enquanto pai é a obstrucção da via aérea, também chamado de engasgamento, sufoco, ‘o menino entalou-se’ (tão típico aqui do Norte). O MM entrou na fase de levar tudo à boca. Quando o JM passou pela mesma fase, não havia a profusão de peças de legos, rodas perdidas, migalhas de bolachas, entre outras coisas que o agora crianço de 3 anos espalha pela casa. Por mais que andemos sempre de olho no que está ao alcance do MM, os azares podem acontecer. Para mais, a introdução progressiva dos sólidos por vezes traz acessos de tosse mais ou menos assustadores.  O que fazer?

O primeiro passo é a prevenção. Não descurar nunca os pormenores, nomeadamente pequenas peças que caem ao chão ou se destacam facilmente dos brinquedos. Um dia a criança gatinha para baixo da mesa ou do móvel e vai apanhar aquele chapéu de um playmobil que andava perdido. Mesmo na introdução dos sólidos, não colocar o carro à frente dos bois. Pode parecer giro ver uma criança que come amendoins com 1 ano, mas é pouco provável que tenha destreza para mastigar bem antes de os engolir. Para não falar dos rebuçados e pastilhas elásticas que, mesmo aos 5-6 anos ainda muitos se atrapalham.

Quando a criança se engasgou, porque estava a comer ou levou à boca qualquer pequeno objecto que estimulou a tosse, a primeira coisa que devemos fazer é ver se a tosse está ser eficaz. Ou seja, se a criança aspirou inadvertidamente um líquido ou um sólido, o organismo combate o evento, expulsando o corpo estranho, través da tosse. Se a tosse é bem audível, se a criança faz boas inspirações entre cada acesso de tosse e se mantém consciente e reactiva, significa que a tosse está a ser eficaz. Neste caso, devemos incentivar a tossir no caso das crianças maiores. No casos dos mais pequenos (menores de 12 meses) não é consensual se se deve virá-los logo de cabeça inclinada para baixo ou sequer se se bate nas costinhas. Em teoria, estas manobras só serão necessárias se a tosse se tornar ineficaz.

Quando é que a tosse é ineficaz? Quando a tosse é silenciosa (não se ouve), a criança fica incapaz de falar, de inspirar convenientemente, podendo ficar cianótica (isto é «roxinha») e inconsciente. Isto pode acontecer logo que a criança coloca o objecto de obstrucção à boca (por exemplo, uma tampa de uma garrafa) ou pode advir de uma tosse eficaz que vai se tornando progressivamente ineficaz (por exemplo, por cansaço da criança). Se a tosse é ou tornou-se ineficaz, seguir este esquema simples:

A) Tosse ineficaz e criança consciente: 

  1. Inclinar a criança para a frente (no caso dos lactentes e crianças mais pequenas deitá-las mesmo sobre o braço ou os joelhos) e dar 5 pancadas no meio das costas com convicção (ver a figura; fonte: labspace.open.ac.uk). 
  2. Se não resultar, é preciso virá-los e fazer compressões: no caso dos bebés (menores que um ano) comprime-se a caixa torácica sobre o esterno (o osso no meio da grade costal, como na figura); no caso das crianças maiores que um ano, a compressão é abdominal e pode ser feita através da famosa manobra de Heimlich (ver na figura; fonte: labspace.open.ac.uk).
  3. Se voltar a não resultar, volta-se às pancadas nas costas e assim sucessivamente, até melhorar (passando ao item de cima, tosse eficaz) ou até piorar e a criança ficar inconsciente (ver ponto seguinte).

B) Tosse ineficaz e criança inconsciente: 

  1. Permeabilizar a via aérea, isto é, retirar qualquer objecto visível da boca e da garganta. Atenção! Retirar o que é visível e nunca colocar o dedo ‘às cegas’, porque podemos inadvertidamente empurrar o objecto para dentro.
  2. Abrir a boca da criança e fazer 5 insuflações. As insuflações no bebé fazem-se tapando a boca e o nariz do bebé com a boca do adulto (ressuscitador). Nas crianças maiores a boca do ressuscitador apenas tapa a boca da criança. O nariz deve ser tapado pelos dedos do ressucitador ao mesmo tempo que este inclina a cabeça da criança, levantando-lhe ligeiramente o queixo. Veja a diferença nas figuras (fonte: walgreens.com).
  3. Se não resultar, pedir ajuda e aqui entramos já no âmbito do Suporte Básico de Vida cujos pormenores, longe de caberem aqui no post, merecem a frequência de um curso para o efeito. Porque isto é muito fácil e claro lido no papel (no caso, no monitor), mas perante o pânico, só com algum treino se consegue reagir. Os cursos SBV são muito importantes porque dão esse treino e já existem muitos específicos para a Pediatria,
Guardem este algorítmo que roubei ao livro de prácticas do Conselho Português de Ressuscitação. Aproveitem e visitem a página Salvar Vidas onde podem procurar ajuda para a frequência ou organização de um curso SBV nas vossas empresas, escolas, etc.

Is your child ready for sports?

Na sequência dos posts publicados antes da viagem à China e que eram dedicados ao desporto, deixo esta recomendação de leitura: Is your child ready for sports? É um texto em Inglês muito interessante, porque explica que tipo de desporto a criança pode e consegue fazer em cada idade. Certas sequências de movimentos, cumprimento de tácticas ou planemento de uma estratégia vêm com o desenrolar dos anos. Nas crianças até aos 5 anos, a modalidade tem que ser levada a brincar, fazendo jogos e exercícios que os levem a treinar músculo, coordenação e equilíbrio quase sem darem por ela.  Claro que cada criança apresentará indícios de estar preparada para o ‘nível seguinte’ em diferentes alturas, pelo que os pais devem estar atentos a esses sinais. Daí achar útil a leitura do artigo.

Mensagem de um treinador de rugby

Ainda a propósito do post de Domingo, recebi esta mensagem que publico a título de ‘direito de resposta’. Gostei do interesse manifestado por este treinador em esclarecer-me sobre a diferença entre um desporto de contacto e a violência e a forma como se tentam evitar as lesões nos escalões mais jovens. Serviu para me deixar mais tranquilo com os treinos do JM.

«Sou, um grande apaixonado por rugby, tendo sido jogador no CDUP e sendo, agora, treinador no CDUP e na Selecção Nacional de Sub 17. Ao ver o seu post (e alguns comentários que lá são feitos), lembrei-me de lhe escrever e defesa deste desporto.

No que diz respeito a lesões (e sendo esta uma área onde é muito mais especialista do que eu) não considero (pela minha experiencia) verdade que o rugby seja, para as crianças, um desporto que leve a mais lesões graves que qualquer outro desporto. Na verdade, nos escalões etários entre os 6 e os 14 anos, o número de lesões contraídas durante os jogos ou treinos é extremamente diminuto (entre 2007-2010, em todas as provas organizadas pela Associação de Rugby do Norte, nestes escalões etários, não ocorreu nenhuma lesão que implicasse uma ida imediata ao hospital). Penso que se deve passar o mesmo com outros desportos. Para isto contribui o facto de, até aos 14 anos, os miúdos jogarem com um menor número de jogadores em campo e com algumas adaptações nas regras, que os “proíbem” de executar algumas das técnicas mais perigosas. E, tal como noutros desportos, só à medida que os atletas se vão desenvolvendo, vai havendo mais intensidade nos jogos é que começam a surgir os primeiros “toques”. Como em qualquer outro desporto.

Mas a violência não está presente. Nem se tolera que esteja. Nunca. Os valores do jogo, que existem de facto e são respeitados por todos, são completamente contrários a qualquer acção violenta. Tem, mesmo ao mais alto nível, exemplos jogadores profissionais com punições severas por terem, em campo, acções violentas para com adversários. Se há coisa que as entidades que gerem o rugby (Federação Portuguesa de Rugby, em Portugal, e International Rugby Board, a nível internacional), não deixam passar em claro é a violência.

E, depois, há toda a mística do jogo! O cultivar da diferença para os outros desportos (especialmente os mais profissionalizados). Envio-lhe, em anexo, um “Cartão Pedagógico” (devia ter um com o logo da Associação de Rugby do Norte, mas não o encontro). Foi uma iniciativa que desenvolvemos no Pós-Mundial 2007 (quando houve um enorme crescimento da modalidade), e que eram oferecidos, pelas organizações dos torneios, a todos os elementos (Pais&Mães; Jogadores; Treinadores) que se estivessem a comportar fora do “espírito do rugby”. Porque, o cultivar essa diferença, é para nós muito importante.

(…) Bem sei, também, que há apaixonados por todas as modalidades, e que, se calhar, encontra ainda mais defensores do Polo Aquático ou do Voleibol. Só achei por bem escrever-lhe, para afirmar que o rugby não é violento. É um jogo duro. Com contacto físico (que comporta riscos, bem sei).
Mas que tem regras muito claras e sobretudo, tem um espírito onde a violência não é, de todo, tolerada.

Espero que o seu filho se divirta, ao longo dos anos, a fazer desporto, qualquer que ele seja.»
Francisco Pereira Branco

Saber partilhar

A Convidada Especialista desta semana escreve uma breve nota sobre a partilha e sobre a importância do desporto no desenvolvimento dessa partilha (um bocadinho na sequência do post de Domingo). A Dra. Inês Portinha é pedopsiquiatra (médica especialista em Psiquiatra da Infância e Adolescência). Trabalha no Centro Hospitalar do Porto, é mãe do Afonso (9 anos), da Beatriz (5 anos) e da Leonor (4 anos). 

Saber Partilhar
Inês Portinha

Quando é que as crianças são capazes de dar sem receber e como é que os pais os podem ajudar nesta tarefa? As crianças até aos 2/3 anos vivem centrados no seu mundo e dificilmente partilham. Por isso, a importância da integração no infantário a partir dessa idade (até lá não há nenhuma vantagem em fazê-lo). Os educadores e os pais devem auxiliar a criança a partilhar e a fazer atividades em equipa. A atividade desportiva deve ser uma brincadeira, em que a criança exercita o corpo sem dar conta (ex: rastejar como um crocodilo, esticar os braços em bicos de pés para apanhar as estrelas). O Play Gym é um exemplo de uma modalidade adequada a estas idades. O desporto, portanto, também é uma forma de os ajudar a partilhar e brincar em grupo. Os especialistas aconselham que as modalidades competitivas devem ser iniciadas mais tarde (a partir dos 8 anos de idade). E assim, saber partilhar vai ajudá-los a crescer.

Amanhã sigo para a Pequim

Vou ao congresso anual do International Pediatric Endoscosurgery Group, o maior encontro de cirurgia minimamente invasiva em crianças. Apresentaremos três trabalhos sob a forma de poster, mas é a actualização de conhecimentos que mais me atrai neste congresso. Estarão lá os melhores cirurgiões pediátricos laparoscópicos do Mundo. É sempre um prazer e uma fonte de inspiração conversar com eles.

 Saio amanhã por volta do meio-dia para chegar na Quarta-feira às 8h30. O Google prevê temperaturas de 32ºC, durante o dia. Na Sexta-feira há uma ameaça de chuva, mas nada de especial. De qualquer forma, a maior parte dos dias serão passados no JW Marriott, onde decorre o congresso e onde me esperam salas devidamente climatizadas. Com jeitinho, terei o dia da chegada e a tarde de Sábado para visitar Pequim. Marquei um hotel de 2  estrelas que fica perto (fisicamente apenas) das 5 estrelas do JW Marriott. O Booking.com diz que o JJ Inns tem internet, o que permitiria que viesse cá dar conta de como correrá a viagem. Veremos.

Entretanto, a mala já está pronta. Detesto levar muita coisa, pelo que consegui comprimir tudo numa pequena mala de cabine. A tarefa de dobrar o blazer não é fácil, mas partilho a técnica que tenho utilizado. Funciona bem, embora precise de esticar ‘ao vapor’ na casa de banho.

Nota final: Obrigado pelas sugestões de visita que me deixaram aqui no blogue e no facebook. Juntamente com o guia da American Express, espero safar-me e (atentem à piáda fácil) não ficar de olhos em bico.

Atrésia duodenal

Hoje fomos notícia na TVI. A Gracinda foi a bebé mais pequena do mundo a ser operada por laparoscopia para correcção de uma atrésia duodenal. Como explica o Prof. Jorge Correia-Pinto (Director do nosso serviço), o duodeno faz a passagem do estômago para o intestino. Na atrésia duodenal, esta passagem está interrompida, devido a uma anomalia do desenvolvimento desta espécie de tubo de ligação que pode estar associado ou não a alterações do pâncreas. Estes acidentes do desenvolvimento embrionário dão-se muito cedo na vida intra-uterino (6-10 semanas de gestação) e podem ser detectados nas ecografias pré-natais.

[fonte: ohiofetalmedicine.org]

Quando nascem, os bebés com atrésia duodenal não conseguem passar o leite do estômago para o intestino, pelo que vomitam tudo. O raio X abdominal apresenta uma imagem muito característica de ‘dupla bolha’, que é suficiente para fazer o diagnóstico nas primeiras horas de vida. A bolha à esquerda (direita de quem olha) corresponde ao ar engolido dentro do estômago, enquanto a bolha à direita corresponde ao duodeno dilatado pelo ar que não consegue passar para o intestino.

[fonte: surgical-tutor.org.ok]

A correcção da atrésia duodenal consiste em fazer uma passagem do duodeno dilatado (proximal) para o duodeno que está logo a seguir à zona interrompida (duodeno distal). A duodeno-duodenostomia (assim se chama à técnica cirurgica utilizada) tem sido realizada por via aberta, isto é, com uma incisão transversa em  toda a extensão do abdómen do bebé. Muito recentemente, começou-se a fazer a mesma cirurgia por laparoscopia, isto é, utilizando apenas 3 ‘furinhos’ menores que 5mm. Para além da vantagem estética, a laparoscopia é menos dolorosa para o bebé e permite uma recuperação mais rápida do trânsito intestinal e das outras funções fisiológicas do organismo.

Não se esqueçam de ver a notícia. É um prazer ver a evolução tão favorável desta nossa princesinha…

Mãos suadas (continuação)

Lembram-se de vos ter falado de uma menina que sofria de hiperhidrose e a quem fizemos uma simpaticectomia toracoscópica? Encomendei-lhe uma redacção sobre o que teria mudado na sua vida depois de ter sido operada. Hoje, ela veio à consulta e trazia o T.P.C. feito. Não transcrevo todo o texto, porque algumas partes fizeram-me corar. De qualquer forma, vejam a ternura e a lucidez desta menina de 10 anos:

Eu suava muito por os meus pés e por as minhas mãos e também debaixo dos braços, e a avaliação dos meus cadernos da escola não era lá muito boa porque ficavam um pouco manchados (…) E eu não podia dar a mão a ninguém e por vezes eu sabia que cheirava um pouco mal dos meus braços e nos pé.

Vindo a passar da operação a avaliação dos meus cadernos diários foi muito melhor sem dúvida não mancha os meus cadernos e sim agora posso dar a mão a toda a gente e também posso me chegar a beira de toda a gente porque já não cheiro mal.

Percebem porque é que adoro o que faço?