Estratégias para lidar com a saudade: uma experiência pessoal

O Convidado Especialista desta semana não é médico e tão pouco o conheço pessoalmente. O Jorge Montez é jornalista e viajante. Meteu na cabeça que havia de ir do extremo ocidental da Europa (Cabo da Roca) à cidade mais oriental do continente asiático (Vladivostok). Uma travessia da Eurásia, em um ano, (quase) sempre de comboio. Ouvi o seu relato numa entrevista na Antena 1, onde fiquei a conhecer este projecto e a saber que tem um filho, o Miguel (17 anos). Como esta não é a primeira vez que o Jorge se separa da família por longos períodos e distância, fiquei curioso em saber como lida com a saudade e com a distância. Primeiro, porque cada vez mais são os pais que partem à frente à procura de melhores oportunidades de emprego no estrangeiro; segundo, porque eu próprio farei uma viagem sem a família à China. Apesar de ser apenas uma semana, vai custar separar-me dos pequenos. Escrevi-lhe a pedir um testemunho e algumas dicas. O Jorge prontificou-se e escreveu este texto emocionado que partilho convosco. Para acompanharem as viagens do Jorge Montez, visitem o blogue da TSF, o Tanto Mundo e o Just a BackPacker (inglês).

Estratégias para lidar com a saudade: uma experiência pessoal
Jorge Montez

Talvez seja mesmo especialista da saudade. Não tinha pensado nisso antes de ter sido convidado para compartilhar a minha experiência, mas a verdade é que cada dia que passa se vai tornando mais difícil. E no entanto estou a fazer o que gosto, a atravessar a Eurásia numa viagem que começou no Cabo da Roca e que me levará a Vladivostok – a grande cidade mais oriental do grande continente.

O maior problema é que deixei para trás a Fátima, a mulher com quem partilho a minha vida há mais de 20 anos (e sei que ela me vai desculpar o que vou dizer a seguir) e – fundamentalmente – o Miguel.

O Miguel, de cabelos revoltos, olhar cheio de futuro e sorriso onde cabe o mundo, já tem 17 anos. Está bem longe dos tempos em que pela primeira vez o deixei por um longo período. Foi um dia depois de a mãe regressar ao trabalho após a licença de parto. Certamente não podia ter escolhido pior altura, mas parti. E os meses que então passei em Sarajevo foram particularmente duros.

Não apenas por causa do lugar em si – Sarajevo estava a sair da guerra e as tropas internacionais ainda não se tinham instalado no terreno – mas fundamentalmente porque partia com um sentimento de traição que me não largava. Estava a arriscar a vida por amor à profissão, deixando para trás o meu filho, então com três meses. E não havia internet nem telemóveis. Não lá. Por isso a estratégia de combater a saudade era manter bem presente a memória dos meus e estreitar relações com quem estava na mesma situação, como era o caso do oficial de operações do destacamento militar português no terreno.

E não me perguntem como, mas as nossas mulheres organizaram-se (uma em Lisboa outra em Setúbal) para nos fazer chegar prendas no Dia do Pai. Ainda hoje me emociono quando olho para a estampa azul da mão do Miguel.

Uns tempos depois de Sarajevo decidi abdicar de uma carreira como repórter no jornalismo e mudámo-nos com armas e bagagens para Viana do Castelo, onde durante 15 anos fui sempre um pai presente. Até que voltei a partir.

Hoje, é claro, tudo é diferente. Não apenas porque a viagem em que estou metido não implica riscos de maior mas também porque a comunicação é extremamente fácil. A minha família está à distância de um click e falamos quase todos os dias.

Depois da Europa, passei pela Turquia, Irão, Índia, Singapura, Malásia, Tailândia, Laos e Cambodja. Quando escrevo estas linhas é o Vietnam que me abre as portas. São já mais de sete meses de viagem. É muito tempo.

Como lido com a saudade?

A primeira estratégia é fazer deste um projecto de toda a família. Quando falamos via Skype discutimos alternativas, conto-lhes os pequenos episódios que vou vivendo e tudo aquilo que me espanta. Eles, por seu turno, vão-me pondo a par do dia-a-dia.

O Miguel, a sair da adolescência, não fala comigo diariamente. Mas por vezes temos longas conversas de auscultadores na cabeça para que sejam só nossas. E então é todo o mundo que se estreita – parecendo comprovar a Teoria da Relatividade.

E escrevo. Escrever é a minha vida e quando a saudade se impõe com uma veemência que não deixa lugar a outros sentimentos, escrevo sobre eles nos blogues que mantenho.

Escrevo-lhes cartas que são pessoais mas que sei que serão vistas por todos quantos o queiram. É, se quisermos, uma catarse. Quero que todos saibam o quanto os amo e o quanto lhes devo. Porque sem a sua força – a força que me dão – seria impossível ter já mais de 20 mil quilómetros de percurso.


E sempre que é preciso digo presente. Como no dia em que a Fátima me ligou porque o Miguel precisava da minha ajuda. Estava quase a atravessar a fronteira norte entre a Tailândia e o Laos. Larguei tudo e pus-me à procura de um lugar com conexão Wi-fi.

O Miguel estava envolvido num concurso “Eurodeputado Jovem” e precisava que eu o ajudasse com o discurso que tinha de proferir nessa noite. Precisava, fundamentalmente, que o ajudasse com as respirações. Passou-me o texto e durante não sei quanto tempo estivemos a trabalhar nas pausas.
A mais de 13.000 quilómetros de distância consegui dizer presente quando o meu filho precisou de mim. Foi o momento mais recompensador da viagem.

Ah!, e o Miguel ganhou, tendo o mérito de ser totalmente atribuído a ele, e em Agosto vai visitar Bruxelas. Estará a nascer mais um viajante?

Cabeçadas

Ontem, enquanto assistia a algumas acrobacias do JM em cima do sofá, lembrei-me que ainda não tinha aqui escrito sobre TCE. Os traumatismos cranio-encefálicos, vulgo cabeçadas, são das causas (senão mesmo a causa) mais frequente de visita à sala de pequena cirurgia. Um dia dedicarei um só texto às feridas, mas hoje limito-me à contusão cerebral propriamente dita.

As quedas, por mais aparatosas que sejam, por mais esmorrada que a criança se apresente, podem não ter importância clínica nenhuma. O crânio é uma estrutura muito rígida e, lá dentro, o cérebro é amortecido por uma camada de líquido (chamado cefalo-raquidiano). Mais, se houver um traumatismo de uma outra parte do corpo (braço, joelho, etc) antes, o amortecimento é ainda maior. O cérebro está muito bem protegido. Faz sentido que assim seja, pois, a par do coração, é uma das estruturas mais nobres que o organismo tem. 
Quando cai, a criança pode ter reacções imediatas muito diferentes. A maioria desata num pranto estridente, mas outras ficam muito paradas, outras mesmo inanimadas, outras ‘reviram’ os olhos (o que pode ser interpretado como uma falsa convulsão), outras vomitam. Apesar de estas reacções assustarem, elas têm pouca importância na avaliação do impacto da queda. Interessa mais se a criança ‘veio a si’ espontaneamente e o que acontecerá nas primeiras horas a seguir ao evento. Assim, e durante as primeiras 24 horas, eis os sinais de alarme que devem fazer com que os pais procurem um médico:

  1. vómitos que persistem após a queda;
  2. cefaléia intensa, ou seja, dor de cabeça generalizada (e não apenas a dor local)
  3. sono difícil de despertar após a queda (não confundir com o cansaço natural de quem chorou muito);
  4. convulsões;
  5. alterações do comportamento normal da criança: irritabilidade, perda de equilíbrio, alterações de humor, discurso incoerente, etc.

Para além dos sinais de alarme descritos, qualquer TCE em menores de 1 mês, ou de uma criança maior com um distúrbio hematológico ou neurológico conhecido, ou ferida com necessidade de sutura (as escoriações/raspões precisam apenas de desinfecção local) deverão ser avaliados imediatamente.

Os hematomas (extra-cranianos) per si não constituem motivo de preocupação médica. Aliás, eles são até enganosos. Um ‘galo’ exuberante corresponde a sangue que se acumulou entre a pele e o crânio. Assim, dificilmente haverá fractura óssea, pois, se houvesse, o sangue passaria através dela para dentro do crânio. Pelo contrário, quando passados um ou dois dias se sente uma pequena flutuação mole na região do traumatismo, é provável que haja uma fractura que passou despercebida. A própria existência ou não de fractura tem pouca importância, porque ela resolve sozinha. Interessa mesmo é saber se existem alterações lá dentro, isto é, hematomas intracranianos, edema, etc. Estes não aparecem no Rx (tantas vezes ‘exigidos’ pelos pais), mas sim na TAC cerebral, que, por implicar uma quantidade grande de radiação, é feita muito selectivamente (e na presença dos sinais de alarme descritos acima).

[fonte: parent24.com]

Para evitar os hematomas (extra-cranianos), o melhor tratamento é a compressão com saco de gelo. O frio é um óptimo vasoconstrictor. Ele ‘aperta’ os vasos sanguíneos, impedindo que se acumule o tal sangue. Nenhuma das cremes ou sticks para ‘desfazer’ os hematomas disponíveis nas farmácias se mostrou suficientemente eficaz para justificar a sua aplicação em crianças. Daí que o ‘não fazer nada’ seja, apesar de tudo, menos doloroso.

Invaginação intestinal

Todas as crianças (mais tarde ou mais cedo) têm cólicas abdominais. A cólica é aquela dor forte, terrível, que faz com que o bebé chore e se encolha (ou a criança mais velha se aninhe), inconsolável e que acaba por passar sozinha, passados uns segundos ou minutos. Na maioria das vezes, relaciona-se com a passagem de ar pelo intestino (vulgo ‘gases’), que, ao distendê-lo, accionam os receptores da dor e estes comunicam a dor ao cérebro. Como o ar passa, também a cólica passa. Pode voltar ou não, por vezes até ciclicamente, até à saída do ar pelo ânus (vulgo ‘pum’). Nessa maioria das vezes, é assim simples, mas há uma situação para a qual os pais deverão estar atentos: a invaginação intestinal.

Invagina-quê? A invaginação intestinal é a causa mais frequente de oclusão (obstrucção) intestinal no lactente. 1 a 4 bebés em cada 2000 terão uma invaginação, mais nos meninos que nas meninas.  A invaginação é um acontecimento anómalo no intestino, em que parte dele começa a ser empurrado para dentro da porção que o segue. A parte proximal (isto é a mais próxima da boca) começa entrar pela porção mais distal, como fosse uma manga de camisola a enrolar sobre si mesma. A imagem em baixo é bem explicativa.

[fonte: jamanetwork.com]

O intestino fica apertado e impede a progressão do seu contéudo (gás e fezes), originando o tal quadro de oclusão. A cólica abdominal da invaginação é muito típica e é o seu sintoma inicial mais frequente. Para além de violenta e inconsolável, ela segue-se de um período de estranha acalmia por parte do bebé, por vezes até letargia (isto é, como tivesse esgotado). Outros dos sintomas que aparecerão mais tarde são: os vómitos e uma diarreia com muco e sangue (descrita classicamente como ‘geleia de morangos’). Trata-se de uma urgência cirúrgica, pois o intestino ocluído pode isquemiar e necrosar (por falta de irrigação sanguínea).

Porque é que isto acontece? A idade mais frequente de aparecimento é entre os 3 e os 12 meses. 90% aparecem até aos 3 anos. Nestas idades, a mobilidade do intestino é maior e as placas de Peyer (placas de tecido linfóide, responsáveis pelas defesas imunológicas do intestino) são maiores, o que faz com que, por vezes, o intestino interprete estas placas como sendo uma massa extrínseca (vulgo fezes) e o tente eliminar, provocando a tal progressão do intestino sob si mesmo – a invaginação intestinal. Como de facto em 95% dos casos, este aumento das placas de Peyer é a causa da invaginação, compreende-se que haja um aumento sazonal desta doença e que esta que acompanhe o picos das viroses: Inverno com os vírus respiratórios, Verão com as gastroenterites. A primeira vacina contra o rotavirus (Rotashield) foi suspensa do mercado americano porque se relacionava com aumento da incidência de invaginação. (Voltarei a este assunto no futuro).

Por vezes, a invaginação intestinal sente-se na palpação abdominal. O diagnóstico pode e deve ser confirmado através de ecografia. O tratamento é relativamente simples. Consiste na injecção de ar, água ou material de contraste pelo ânus de forma a empurrar o intestino de volta para fora de se mesmo. Esta injecção é controlada através de raio X ou ecografia. Este resultado poético pode não ser conseguido e obrigar a uma cirurgia, (laparoscópica ou aberta). Há quem defenda que, nos casos recorrentes (8-12% dos casos já tratados voltam a invaginar) e nas crianças maiores (3-4-5 anos), deva ser feita logo cirurgia, pois permite ver se não existe outra causa responsável pelo tal efeito de massa extrínseca (origem ou lead point da invaginação intestinal), que pode ser: linfoma, divertículo de Meckel, pólipos intestinais, duplicidade intestinal, entre outros.

Brincadeiras ao Sol (III)

O quinto Convidado Especialista é o Dr. Fernando Vaz, oftalmologista e pai de 2 filhas, a Margarida (10 anos) e a Carolina (8 anos). É o Director do Serviço de Oftalmologia do Hospital de Braga, Coordenador dos Serviços de Oftalmologia do InstitutoCuf e do Hospital Cuf Porto. Subespecializou-se em Cirurgia Refractiva. Fala-nos dos óculos de sol.

Brincadeiras ao Sol (III)
Fernando Vaz

O Sol chegou. Finalmente. E com ele a eterna dúvida. Óculos de Sol para as crianças: Sim ou não? Claro que sim. Porquê? Desde logo porque é giro. Um miúdo de com óculos de aviador fica mais cool que o Steve McQueen E uma menina com uns óculos D&G fica mais chique que a Audrey Hepburn. Mas devem usar os óculos sobretudo porque, como diria o JM, é «muito importante».

Fernando Vaz com a filha Carolina, com 6 meses

Todos temos consciência que as alterações climáticas nos tornam mais vulneráveis às agressões do meio ambiente. A luz ou radiação solar tem no seu espectro luminoso vários componentes entre os quais a radiação ultra-violeta. São eles que podem causar dano no aparelho visual. Conforme o comprimento onda (por ordem decrescente) podem dividir-se os UV em UV-A, UV-B e UV-C.

Quais são então as lesões oculares relacionadas com a exposição à radiação UV? Dependem da intensidade da radiação (indíce de radiação UV) e pelo tempo de exposição. As lesões agudas são raras. A fotoqueratite, queimadura da córnea, gera dor, intolerância à luz e a diminuição transitória da acuidade visual. A maior parte destas lesões surgem pela exposição a aparelhos de solda ou situações de exposição prolongada aos UV-B como acontece por exemplo na neve. Por isso quando vamos esquiar é obrigatório o uso de óculos de sol. A longo prazo a radiação UV-B contribui para o aparecimento de cataratas e a degenerescência macular ligada à idade. Ambas as situações surgem pela sétima década de idade, e os efeitos cumulativos da exposição ao Sol são factor de risco.

Usamos os óculos escuros para melhorar o conforto visual na presença de luz solar. Isso é importante, certo JM? Mas como vimos a prioridade deve ser proteger a criança de 100% das radiações ultra-violetas (UV-A, UV-B e UV-C) e também devem filtrar a porção azul da luz visível. Essa protecção é ainda mais importante nas crianças porque estas passam mais tempo expostas à luz ambiente do que os adultos e o cristalino, lente natural que existe no nosso olho, das crianças filtra menos luz azul que o dos adultos. Assim 80% da radiação é recebida antes dos 20 anos de idade e 75% da radiação chega à retina antes dos 10 anos.

Por isso todos percebemos que é na infância que é mais importante a protecção à radiação solar. A protecção é obrigatória sobretudo quando o índice de radiação UV ultrapassa um valor superior a 10 (numa escala de 0 a 15).* Em Portugal isso não é frequente sendo a protecção é mais importante em ambientes de grande exposição: regiões próximas do equador, altitude (montanha) e zonas de grande reflexão de luz tal como a neve e o mar.

As filhas Margarida e Crolina (ou será Carolina e Margarida?)

As crianças podem usar óculos de sol em qualquer idade. Mas só o devem fazer quando sejam capazes de os manusear de forma autónoma e quando começa a ter actividade ao ar livre. Mais do que critérios de moda os pais devem certificar-se de vários aspectos relacionados com qualidade das lentes solares:

  1. Filtração de 99-100% da radiação abaixo dos 400 nm (toda a radiação UV). Se possível as lente devem ainda filtrar a radiação entre os 400 e os 500 nm (luz azul)
  2. Boa qualidade óptica para evitar a distorção das imagens.
  3. Coloração capaz de proporcionar conforto na presença de luz, sem ser demasiado escuras para não adulterarem as cores naturais dos objectos e/ou a acuidade visual. A escala de cores oscila entre 0 e 4. Para as condições de luz em Portugal, deve escolher-se uma coloração 2-3. Deve dar-se preferência à cor cinzenta ou ao castanho (âmbar)
  4. A armação e lentes robustas (policarbonato é o ideal) para evitar riscos relacionados com a fractura das lente e/ou armação. A estrutura dos óculos deve estar livre de bordos ou projecções capazes de provocar traumatismo das estruturas oculares.
  5. Estrutura dos óculos deve proteger olhos e palpebral pelo que a armação deve ser grande.

Quando compramos um par de óculos de sol, devemos confirmar a presença do símbolo CE e da inscrição do standard a que obedece a fabricação.Na Europa (e em Portugal) existe um standard próprio (EN-1836 de 1997) que exige o seguinte: identificação do fabricante; número de categoria do filtro; adequabilidade para conduzir. Estima-se que cerca de 30% dos óculos de sol vendidos anualmente sejam ilegais e portanto saiam fora do controle de qualidade imposto pela legislação europeia.

Um par de óculos de sol não tem de ser caro para oferecer uma boa protecção para as radiações UV. Na maioria dos casos o elevado preço de uns óculos de sol tem que ver com a marca. Não é necessário comprar armações nem lentes com o logótipo de marcas conhecidas. O importante é verificar a eficácia das lentes na sua principal função que é a de filtrar todos os raios UV e evitar lentes que não tenham essas especificações ou em que elas não sejam fiáveis pois isso pode ser nocivo para o olho. Em condições de grande luminosidade a pupila diminui de diâmetro para, tal como o difragma de uma cãmara fotográfica, diminuir a luz que entra no olho. Lentes que não filtrem os UV mas sejam escuras, diminuem o reflexo da pupila e permitem a entrada de maior quantidade de UV no olho.

Por isso pais e mães as crianças podem e devem usar óculos de sol mas só em situações particulares tal é obrigatório. Vamos então lá pôr os filhotes a usar mais os óculos de sol. Eles vão gostar de se ver ao espelho e vão sentir conforto. E vão estar protegidos.

NOTA: * O índice diário de radiação UV pode ser consultado no website do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Os negritos foram colocados pelo administrador do blogue. Leia também as Brincadeiras ao Sol I e II.

Brincadeiras ao Sol (II)

O post relativo aos óculos de Sol está prometido para amanhã. Entretanto, e para responder a algumas perguntas que me têm feito, tenho a necessidade de acrescentar algumas notas relativas aos cremes protectores.

(1) Os cremes de filtro físico são mais estáveis e não implicam reacções químicas para surtirem efeito. Assim, podem ser aplicados no momento em que há exposição solar (isto é, ao sair de casa ou já na praia). Como expliquei no post anterior, a película branca que fica na pele da criança significa que o efeito reflector dos sais de zinco e/ou titânio está presente. Logo, haverá a necessidade de aplicar mais creme assim que a camada branca deixar de se ver. Não há um tempo exacto para o fazer, terá que ser o ‘olhómetro’ dos pais a avaliar.

(2) Os cremes de filtro químico são diferentes. Exigem reacções químicas ao nível da pele que levam o seu tempo. Por essa razão, os fabricantes recomendam aplicar cerca de 30 minutos antes da exposição solar e, posteriormente, reforçar a aplicação de creme a cada 30 minutos. De facto, conheço poucas pessoas que o façam. A verdade é que a maioria dos cremes de protecção solar para crianças são mistos, isto é, contêm filtros químicos e os tais filtros físicos mais estáveis, que aumentam o seu índice de protecção UV para os tais 30-50 e mantêm a protecção para lá dos 30 minutos. Mas, se os fabricantes pedem reforços de 30 em 30 minutos, quem sou eu para dizer o contrário.

(3) Quanto à necessidade de trocar todos os anos de cremes protectores solares, mais uma vez, são as recomendações das marcas fabricantes e eu não recomendarei o contrário. Sendo um creme 100% mineral, isto é, apenas com filtros físicos, eles são suficientemente estáveis para aguentar de um ano para o outro, se houver o cuidado de não os submeter a temperaturas muito altas (esquecendo-os ao Sol, por exemplo). Quanto aos que contêm filtros químicos, as moléculas não são tão estáveis, pelo que as propriedades protectoras do creme podem perder-se de um ano para o outro. Lá em casa, compramos cremes novos para as crianças e para a Mãe. Eu fico com os restos do ano anterior, porque confio na componente de filtro físico, que (repito) existe em praticamente todos os cremes de factor 30 e 50 para criança. E são esses que sempre usei, sem escaldão.

(4) Depois da exposição solar é preciso mais cuidados com a pele? Claro! Primeiro, hidratar o organismo com grandes quantidades de água e minerais. As frutas e os legumes têm ambos os componentes. Segundo, hidratar a pele, aplicando creme ou leite de corpo. Se aparecer vermelhão (vulgo escaldão), pode ser uma queimadura de primeiro grau. Deverá ler este post aqui e ir comprar creme gordo. Exemplos de cremes gordos: Nívea lata azul (Alemão) , Creme Gordo Barral (fábrica portuguesa comprada pela empresa italiana Angelini, mas disponível em qualquer supermercado) ou Creme Gordo ATL (grupo EDOL, 100% português, mas apenas disponível em farmácias e para farmácias).

Brincadeiras ao Sol (I)

Se é verdade que sair de casa e apanhar ar faz bem (aos pais e aos pequenos), também o é que a exposição ao Sol acarreta riscos e, logo, cuidados acrescidos. Para além das queimaduras solares, os raios UV provocam alterações degenerativas na pele que levam ao envelhecimento precoce da mesma e, no limite, ao aparecimento de cancro. Os autores mais fundamentalistas, proíbem qualquer exposição ao Sol a menores de 2 anos e ponto. Não sejamos inocentes, todos nós brincámos ao Sol e poucos de nós estamos na disponibilidade de privar os nossos filhos dessa alegria (mesmo nos menores de 2 anos). Não falo aqui do ‘tostar ao sol’, esparramado numa toalha como fazem os adultos (erradamente, diga-se), mas sim daquelas brincadeiras no jardim, na piscina insuflável, numa ida à praia, que, em dias de Sol tão bem sabem. Então, o que podemos fazer para reduzir os malefícios da exposição solar sem cair em exageros?

Para além das recomendações clássicas: evitar alturas em que o Sol está mais alto (as horas em que as suas radiações estão mais perpendiculares à Terra são as horas mais perigosas), usar chapéu com abas largas ou boné (pois protege a face e os olhos), oferecer água (para evitar a desidratação), usar roupas frescas (pois elas próprias servem de filtro às radiações solares), é importante o uso dos cremes protectores solares. Antigamente, nenhum protector solar estaria recomendado a crianças menores de 6 meses. Apesar da Associação Americana de Pediatria ter já emitido um parecer contrário em 1999, muitos médicos (e claro está, muitas páginas na Internet) mantêm essa proibição. As crianças menores que 6 meses podem (e a meu ver devem) sair à rua nos dias de Sol. Não devem ser expostas directamente ao Sol, mas, uma vez que é praticamente inevitável isso acontecer, é bom protegê-las com um protector solar. Assim, nas zonas expostas deve ser colocado um creme protector 100% mineral.

Passo a explicar. Existem dois tipos de cremes protectores: uns de filtro físico (ou mineral) e outros de filtro químico. Os primeiros são constituídos por partículas de zinco e titânio e funcionam como película reflectora,  ou seja, é como revestir a zona exposta ao Sol por um espelho que reflecte raios solares, impedindo que eles penetrem nas camadas mais profundas da pele do bebé. Dada a sua composição, estes cremes protectores minerais são difíceis de espalhar e deixam uma camada branca indisfarçável. Não é o mais apetecível para os pais, mas, se a pele do bebé não ficou branca, o creme não está lá em quantidade suficiente.

Os outros tipos de cremes, com filtros químicos, exigem que haja a absorção de uma substância química pela pele e se proceda a uma reacção que altere essa substância numa outra com capacidade de absorção das radiações UV. A necessidade de colocar 20-30 minutos antes da exposição solar prende-se com esta necessidade das reacções químicas acontecerem previamente. De qualquer forma, estas reacções parecem não acontecer (ou acontecer de forma pouco eficaz) em crianças menores de 2 anos, pelo que o uso destes protectores nestas idades não funciona (ou pode não funcionar tão bem). Acresce a isto o facto de a absorção de substâncias químicas poder levar à irritação da pele das crianças mais pequenas ou das que têm peles mais sensíveis. Existem cremes que, para além de filtros químicos, incluem filtros físicos, para alargar a sua protecção. Resumindo,

  • Bebé <6 meses: proteger com creme 100% mineral nas zonas expostas e evitar ao máximo a exposição directa ao Sol.
  • Bebé entre os 6-12 meses: proteger com creme 100% mineral todas as zonas expostas.
  • Criança entre 12-24 meses: proteger com creme 100% mineral ou creme misto (filtro físico e filtro químico). Lembre-se que tem que ter zinco ou titânio na sua composição, pois (como visto acima) são estes que compõem a barreira reflectora mais eficaz.
  • Apartir dos 2 anos: creme misto ou de filtro químico.
Como existe algumas dificuldade em conseguir perceber quais são os 100% creme minerais, deixo aqui as imagens de alguns. Geralmente só se encontram nas farmácias ou parafarmácias, mas são a melhor escola até aos 2 anos.

 

 
 

Quatro notas finais: 1) Nenhuma crianças em qualquer idade (refiro-me também às ‘crianças’ adultas) devem passar longos períodos ao Sol, pois existe sempre alguma penetração dos raios UV, cujos efeitos nefastos acumulam ao longo do tempo. O acto de ‘forçar’ o bronzeado, para além de fora de moda é um acto destructivo para a pele e com riscos altíssimos de desenvolvimento de cancro. A exposição ao Sol deve ser sempre momentânea: um jogo de futebol, uns mergulhos na piscina, um passeio junto ao mar. Em todos os outros momentos, o Sol pode e deve ser aproveitado à sombra ou com uma peça de vestuário fresca vestida e (mais uma vez) protegendo as zonas expostas com creme protector solar. Para informações completas e exaustivas sobre consequências e modo de prevenção da expsoição solar em crianças, aconselho este artigo do Pediatrics (em inglês).

2) Os índices de protecção UV indicam o grau de absorção destas radiações por cada um dos cremes protectores. Escolher um com factor menor que 30 escolher um protector fraco. Qual é o objectivo? Se o objectivo é proteger-se (a si e aos seus filhos) escolha um protector 30 ou 50

3) Não havendo um estudo comparativo entre diferentes tipos de protectores solares, não estou em condições (científicas) de recomendar um protector em relação a outro. No entanto, se a pele do seu filho é sensível e/ou atópica evite cremes perfumados. O perfume é conseguido à custa de álcoois (ou derivados) que costumam ser irritantes para a pele.

4) As brincadeiras ao Sol (II) vem na terça-feira, pela mão de um Convidado Especialista, que nos virá falar de óculos de sol: quando comprar, como comprar, etc.

Soltar a língua

É comum aparecerem-me na consulta meninos e meninas com atrasos da linguagem. Vêm com indicação do terapeuta da fala que é preciso soltar a língua. São meninos e meninas com o que nós chamamos anquiloglossia, mas cujo tratamento muito provavelmente não influenciará no problema da fala que a criança tem.

[fonte: doktergaul.com]
 

A anquiloglossia é o termo técnico para descrever a língua presa, isto é, aquela que não se exterioriza livremente. Na maior parte das vezes o problema é um freio (ou trave) curto que se implanta demasiado até à ponta da língua, ‘travando’ a protusão (movimento para fora) da língua. Nas formas mais graves, a ponta da língua não consegue sequer ultrapassar a arcada dentárias, mas existem formas mais ligeiras que, se nota apenas um entalhe quando a criança põe a língua de fora.

[fonte: wikidoc.org]
 

Não há um consenso sobre a importância clínica desta patologia. Um artigo de revisão muito recente do International Journal of Pediatric Otorrinolaringology, analisou tudo o que tem sido publicado nesta área e chega à conclusão que a anquilogossia pode relacionar-se com dificuldades na amamentação e existe evidência (ainda que fraca) que a sua correcção melhora a capacidade de sucção dos recém-nascidos. Já quanto aos problemas da fala, parece não haver estudos suficientes que provem que a anquiloglossia se relaciona com problemas da articulação da fala. É uma polémica que se manterá por mais algum tempo. Eu arriscaria a dizer que aquelas situações mais graves, em que a língua não ultrapassa a arcada dentária, são de tal formas limitativas que dificultariam na fala. O que acontece é que essas são operadas mais cedo, antes de se desenvolverem os problemas da fala. Quanto às formas mais ligeiras, acredito que o problema seja meramente estético, isto é, se a língua ultrapassa a arcada dentária não afecta a articulação de palavras ao ponto de dar alterações da fala. Logo, se vêm à consulta por atrasos na linguagem, provavelmente o problema não será do ‘travão’ da língua. O estudo não prova que não exista essa relação, apenas diz que os estudos que existem são insuficientes para provar essa relação.

Estético ou não, a anquiloglossia pode e deve ser corrigida assim que for diagnosticada. Quanto mais precocemente detectada, mais simples será a cirurgia. Nos primeiros meses, bastará um corte do freio (conforme mostra a figura). Este pode ser feito no próprio consultório médico ou com uma pequena sedação inalatória no bloco operatório. Quanto mais velha a criança, mais grosso e vascularizado é o freio, o que obriga a plastia e/ou electrocoagulação.

[fonte: mayoclinic.com]
 
Nota provocatória final. Um dos meus antigos chefes tinha uma piada muito engraçada em relação à língua presa. Dizia ele que estava formalmente contra-indicado cortar o freio da língua às meninas, porque estaríamos a soltar a língua de mais uma mulher, com as consequências que isso poderia ter para a sociedade, no futuro. 😀

Erupção dentária dos dentes de leite

Este é o nosso quarto texto dos Convidados Especialistas. A nossa convidada é a Dra. Isabel Mesquita, médica dentista, madrinha do MM e potencial sogra do JM, já que tem duas filhas lindíssimas: a Matilde de 6 anos (que já apareceu aqui) e a Carolina de 3 anos. A Dra. Isabel trabalha na Clínica Dr. Sérgio Quintans (Maia) e Clínica Ostris (Paços de Ferreira). Escreve-nos sobre o aparecimento dos primeiros dentinhos (de leite ou decíduos).

Erupção dentária dos dentes de leite
Isabel Mesquita

Apesar de tentarmos definir, prever e ordenar o nascimento dos dentes de leite das crianças, cada bebé tem o seu tempo. Há quem nasça já com dentes (dente natal), há bebés com um dente nos primeiros 30 dias de vida (dente neonatal), e há bebés (como a Matilde, a minha filha mais velha que podem ver na fotografia) cujos primeiros dentes apareceram aos 13 meses, já ela cirandava pela casa toda.

Este assunto não deve constituir uma preocupação para os pais. Habitualmente, os dentes acabam por aparecer mais tarde ou mais cedo e diferenças até 12 meses em relação aos valores referência podem acontecer sem que isso possa ser considerado um problema. A ordem e o tempo que se seguem são apenas valores médios, que podem não servir de referência para os vossos bebés. Normalmente, as meninas amadurecem mais cedo mas, mais uma vez, olhem para a fotografia da Matilde.

Nos casos dos dentes natal e neonatal, e porque são precoces, não completam o processo de mineralização e são, por vezes, dentes mais frágeis, mais propensos a cáries, com má formação de esmalte e dentina. Podem nascer com uma forma alterada, amarelados e com formação escassa de raiz. Mas esses são casos raros e excepcionais. Os valores médios são os que se seguem mas nunca esqueçam que o vosso bebé é único por isso não se preocupem.

  1. Incisivo central inferior-6 meses
  2. Incisivo central superior-7 meses
  3. Lateral superior-9 meses
  4. Lateral inferior-10 meses
  5. Primeiro molar inferior-12 meses
  6. Primeiro molar superior.14 meses
  7. Canino inferior-16 meses
  8. Canino superior-18 meses
  9. 2º molar inferior-20 meses
  10. 2º molar superior-24 meses

Há um outro aspecto que convém ter atenção. Depois do nascimento de um determinado dente deve seguir-se o seu homólogo. Ou seja, e como exemplo, depois do nascimento do molar inferior direito deve seguir-se o nascimento do molar inferior esquerdo. Mais uma vez, cada caso é um caso, mas se houver uma diferença de 3 meses ou mais entre a erupção de um dente e o seu homólogo, convém consultar um especialista para ver se não há nenhuma obstrução ao nascimento do dente.

Por volta dos 6 anos há a erupção do primeiro molar definitivo (molar dos 6 anos) e começa um novo ciclo de erupção dentária. Esta nova fase é mais complexa, com muitas mais variáveis e exige outros cuidados.  A minha Matilde vai fazer 7 anos e continua com a dentição de leite bem firme. É a única lá na escolinha e não há problema nenhum. Nunca esqueçam que a vossa criança é única.

Sobre a dose televisiva

A American Association of Pediatrics (AAP) desaconselha televisão para crianças menores de 2 anos (mesmo quando ela só ‘toca’ de fundo). Esta posição vem desde 1999 e foi reforçada em 2011 com novas evidências científicas. Baseia-se em 3 premissas: (1) as crianças menores de 2 anos precisam de crescer afectivamente/socialmente através da interacção com outros seres humanos e não máquinas; (2) as crianças menores de 2 anos não têm capacidade de perceber os programas (mesmo os rotulados de educativos) sem a ajuda de um adulto; (3) devemos evitar vícios sedentários que estão na génese de uma menor actividade física e de um isolamento social de muitos adolescentes.

É bom ter estas premissas em mente, de forma a dosear a quantidade de horas que os nossos filhos (mesmo mais velhos que 2 anos) estão em frente à televisão. Mas, como em tudo, julgo que é preciso bom senso. Primeiro, há canais de televisão que não são muito diferentes daqueles giratórios que se colocam em cima dos berços. Lembro-me de utilizar muitas vezes o BabyTV para hipnotizar o JM. Aquela música serena acompanhada ora de peixes a nadar calmamente por um aquário cheio de corais, ora aquelas manchas multicolores a mudar de forma lentamente foram bons hipnóticos, quer para o pai, quer para o filho. Não vejo como possam fazer mal à criança.

Mais tarde, já o JM se sentava e brincava com os pais e, de vez em quando, ligávamo-lo à televisão. Umas vezes para podermos tratar da vida doméstica, outras porque tinhamos mais que fazer do que estar a interagir com a criança. A vida moderna deixa-nos pouco tempo para estar em casa, mas depois cria-se quase uma obrigação estarmos todos os minutos dedicados às crias. Houve momentos em que a televisão deu muito jeito para eu poder ler um artigo de uma revista, trabalhar um bocadinho no computador ou fazer um telefonema mais longo. E (crime de lesa pátria!) o JM ainda não tinha dois anos. Abençoado Panda e abençoados DVDs dos Metallica que muito ajudaram a manter o equilíbrio cá em casa. E ele beneficiava com isso também.  Pais equilibrados e felizes educam crianças equilibradas e felizes (ou pelo menos tentam).

JM, 7 meses, ligado à ‘máquina’.

Depois veio o iPad cá para casa. Os tablets são mais interactivos que as televisões. Para além dos jogos didácticos, o youtube é uma televisão que implica escolhas. Nem que seja o vídeo seguinte. Este aspecto da interactividade dos tablets versus passividade da televisão é muito apreciado num recente parecer da Académie des Science (France)Mais, o iPad é transportável para qualquer divisão cá de casa, o que permite ter um olho no que estamos a fazer e outro no que ele anda a ver. Para além disso, o rapaz encontra coisas incríveis que nos fazem rir. Cá em casa, o iPad, que ele reclama como «o meu iPad», tem vindo a substituir a televisão.

Aprecio a disponibilidade mental das pessoas que não têm televisão em casa. (Vejam o exemplo da Magda.) Cá em casa gostamos muito dela. Dá-nos séries, filmes, notícias e alguns programas de entretenimento. Também não vamos privar o MM à televisão, só porque tem menos de 2 anos. Para mais, o irmão mais velho ligá-la-ia na mesma para ver os desenhos animados que tanto gosta, independentemente de ele estar na sala. Uma coisa é importante: a televisão não educa e não subsitui os pais. Diria até que isso é tão verdade para menores como para maiores de 2 anos. Durante a vida deles, teremos muitas vezes que restringir a televisão, como teremos que restringir os telemóveis e os computadores. E teremos que explicar, explicar, explicar: o que estão a ver, o que estão a fazer, o que estão a procurar. Imperará o bom senso.

Atrésia do esófago

Já começou o curso de cirurgia endoscópica em recém-nascidos de que vos falei há dias. A cirurgia minimamente invasiva em bebés tão pequenos exige muito treino em laboratório. É a isso que nos dedicamos no laboratório de ciências cirúrgicas da Universidade do Minho. Uma das cirurgias mais difíceis, mas onde os benefícios destas novas abordagens se sentem mais é na correcção da atrésia do esófago.

Uma em cada 3500-4500 crianças nasce com uma interrupção do esófago – tubo que liga a boca ao estômago. Logo, são crianças que não se podem alimentar. O diagnóstico pré-natal é muito difícil, pelo que geralmente esta anormalia é descoberta à nascença: ou porque a sonda de aspiração não passa até ao estômago durante o exame inicial, ou porque a criança se engasga na primeira vez que se tenta alimentar.

A única solução é cirúrgica e consiste em restabelecer a comunicação do esófago, suturando a porção proximal (a de cima) à porção distal (a de baixo). Na maioria dos casos existe ainda uma comunicação (fístula) entre o esófago proximal e a traqueia, que também tem que ser encerrada. A correcção da atrésia do esófago pode ser realizada por via aberta (toracotomia) ou por ‘furinhos’ (toracoscopia). Esta última tem-se mostrado vantajosa para o doente, em termos de estabilidade hemodinâmica, analgesia (menos dor) e recuperação pós-operatória (mais precoce). Para o cirurgião, a toracoscopia permite uma maior visualização das estruturas em causa, mas o pouco espaço que existe para trabalhar torna-a tecnicamente mais difícil. Existe aqui uma imagem (não aconselhada a impressionáveis) que dá a noção das proporções de que estamos a falar. Daí, a importância do treino em laboratório.