Guuuuuuuh

Pensei que fosse do conhecimento geral, mas ultimamente alguns amigos (e familiares) têm-se surpreendido com a capacidade de diálogo do MM (2 meses). De facto, a única forma que existe para desenvolver a linguagem (verbal e não verbal) das crianças é falar com elas. Desde quando? Há quem diga, que se deve falar quando ainda o bebé está dentro da barriga da mãe. Não respondo pela Mãe, mas falar para dentro de uma barriga não me parece uma coisa anatomicamente favorável. De qualquer forma, desde o nascimento que falamos muito com o MM. Fizemos o mesmo com o JM e, talvez por isso, ele hoje tenha um vocabulário e uma dicção invejável. Sou um pai babado, mas nada egoísta. E, apesar de haver cursos só dedicados a este tema, deixo-vos aqui alguns conselhos simples de como falar com um bebé nos primeiros meses. Podem não ser os melhores, mas são os que usamos cá em casa.

Um, olhar o bebé de frente. Nem sempre ele vai olhar de volta (principalmente durante o primeiro mês de vida), mas vai procurando a nossa cara. Quando falamos, articulamos palavras com a boca, mas toda a face se movimenta. Os olhos também falam, o nariz também fala, o sorriso também fala. A criança vai apreender os movimentos da face e vai tentar imitar. Um exercício giro é fazer caretas simples, como colocar a língua de fora ou sorrir vincadamente. O bebé acabará por tentar imitar a expressão. Primeiro de uma forma trôpega, depois largando autênticas gargalhadas.
Dois, falar pausadamente e articulando bem as palavras. Abebezar os termos só os torna mais confusos e difíceis de compreender. Refiro-me aos diminutivosinhos, queridinhos, com as bochechas apertadinhas, muito cutchi-cutchi. É diferente de trocar por sinónimos mais simples. Isto é, não está errado chamar pó-pó. As palavras simples e repetidas como pó-pó, mamã, bebé serão algumas das primeiras que o bebé vai identificar e reproduzir. Mas sempre bem articulado e deixando a criança ler a face, com calma, sílaba-a-sílaba, palavra-a-palavra.
Três, dar tempo ao bebé para responder. Independentemente da frase que lhe dissermos, é importante aguardar que ele responda. Pode ser um «guuuuuuuuh», pode ser um esgar da boca, ou um movimento dos braços. A resposta do bebé não tem que ser verbal. Provavelmente, nem será inteligível. Mas esta interacção bidireccional é importante para o desenvolvimento da linguagem, que (relembro) não é apenas verbal. Não interessa fazer um monólogo, quando queremos um diálogo. Mesmo que seja do tipo falador(a) é importante fazer pausas para que o bebé responda à sua maneira.

Quarto, repetir. Repetir o que o bebé diz (ou faz, linguagem não verbal), dá-lhe a sensação de que é correspondido. Isso estimula a que ele próprio repita a resposta. Mais, reproduzir ciclicamente sílabas como pá-pá-pá-pá, mã-mã-mã-mã, bé-bé-bé-bé, vai ajudá-lo nas tais primeiras palavras.

Posto isto, não é de estranhar a converseira louca que anda cá em casa. Mãe e pai a dizer «Guuuuuuuh», JM «AaaahGuuuuuuuh» e, no centro, o pequeno a orquestrar com um sorriso nos lábios.

Mais caroços (e furinhos) no pescoço

Como prometido, apresento-vos mais um conjunto de quistos congénitos que aparecem aos olhos dos pais como mais «um caroço no pescoço». Os quistos branquiais fazem parte de um conjunto de malformações (fístulas, sinus ou quistos) derivadas dos arcos branquiais. O quê? Os arcos branquiais são porções do que virá a ser a face e o pescoço quando o feto é ainda um ‘girino’ (termo não técnico). Quando elas se fundem para formar a carinha do bebé, podem deixar vestígios celulares onde não devem ou trajectos por fundir.

[fonte: answersingenesis.org]

As fistulas são trajectos anómalos entre as estruturas internas (geralmente a faringe) e a pele, manifestando-se como um orifício na pele, por onde pode sair serosidade ou pús. Os sinus são trajectos incompletos, isto é, são orifícios na pele que não comunicam até às estruturas mais profundas (fundo cego). Os quistos são tumefacções (isto, é papinhos) constituídos por células derivadas dos arcos branquiais, podendo ter (ou não) comunicação com fístulas ou sinus.

[fonte: pediatricsurgerymd.org]

Qualquer uma das formas de apresentação pode causar desconforto e/ou dor à criança. Para além disso, podem ser fonte de infecção levando à inflamação local, à saída de pús e eventualmente febre. Se não forem tratadas, estas patologias poderão agravar com a passagem do tempo, pelo que devem ser orientadas assim que houver um diagnóstico. A excisão (retirada) da lesão permite tratar e chegar a um diagnóstico definitivo. Só uma excisão completa permite a cura definitiva.

É apanágio da Cirurgia Pediátrica ter uma preocupação com o as cicatrizes que deixa, pois elas são para a vida toda. No pescoço, se a incisão for feita ao longo das pregas naturais da pele, a cicatriz fica sem tensão, o que facilita a cicatrização e o resultado estético (quase imperceptível).

Amigdalectomia: quando, como e porquê?

Mais um texto por um Convidado Especialista, o terceiro. Desta vez, sobre uma cirurgia que, apesar de ser feita na infância, não é realizada por cirurgiões pediátricos. Trata-se da amigdalectomia que, como poderão saber, é competência dos especialistas de Otorrinolaringologia (na gíria, ORL). O Dr. Ricardo Barroso Ribeiro é médico de ORL e apresenta-se como «tio e padrinho do Miguel», que (espantem-se!) nasce hoje. Trabalha no HPP-Boavista, Porto. O Ricardo é meu amigo e fez-me o favor de escrever este texto em forma de perguntas e resposta. Bastante elucidativo e prático.

Amigdalectomia: quando, como e porquê?
Ricardo Barroso Ribeiro

O que são as amígdalas? As amígdalas (amígdalas palatinas) juntamente com as adenóides (amígdalas faríngeas) e a amígdala lingual constituem o chamado anel de Waldeyer. Este anel constituído por tecido linfóide participa no sistema imunitário. Dada a sua localização privilegiada na porção inicial do trato respiratório e digestivo tem um papel activo na defesa do organismo. Participa activamente em sistemas imunológicos específicos, isto é, na produção de anticorpos específicos para determinados antigénios, que lhe são apresentados.

O que são as adenóides? Tal como explicado anteriormente também fazem parte no anel de Waldeyer. Localizam-se na nasofaringe (na parte de trás do nariz). Um aumento das vilosidades adenóides e/ou uma inflamação crónica das mesmas podem ter como resultado uma obstrução nasal crónica associados ou não, a rinorreia recorrente, otites sero-mucosas crónicas ou otites médias agudas.

[fonte: buckheadent.com]

Se se removerem as amígdalas e adenóides, as crianças ficam com menos “defesas”?Esta pergunta é controversa. No entanto, de uma maneira muito simplista, desde que a indicação cirúrgica esteja correcta, não há prejuízo para a criança em ficar sem amígdalas e/ou adenóides. Isto decorre de duas principais razões. A primeira é que por estarem sujeitas a fenómenos de inflamação crónica as amígdalas e as adenóides deixam de fazer correctamente o seu papel imunitário. A segunda é que noutras patologias, como distúrbios respiratórios obstrutivos durante o sono (apneias) malefício de um tamanho exagerado das amígdalas é muito superior a uma redução da função imunitária das amígdalas. Alguns estudos referem uma diminuição do número de anticorpos nos primeiros 10 dias após a cirurgia, mas depois normalizam. No entanto esta diminuição descrita não tem qualquer consequência no que diz respeito à diminuição das defesas do organismo.

Como se faz a amigdalectomia? A amigdalectomia consiste na remoção das amígdalas palatinas, o que é feito sob anestesia geral. Do ponto de vista técnico é relativamente simples e as complicações da cirurgia são raras, sendo que hemorragia per-operatória é a complicação mais perigosa. Pode ser feita apenas com instrumentos de dissecção e sutura da loca amigdalina (técnica clássica) ou com recurso a instrumentos de coagulação (radiofrequência; bisturi eléctrico bipolar ou monopolar). Existem algumas evidências que apontam para uma menor dor no pós-operatório, quando se utiliza a técnica clássica, mas todas as técnicas são adequadas.

Removem-se as amígdalas na totalidade? Na grande maioria dos casos, fazem-se amigdalectomias totais. Alguns sugerem a amigdalectomia parcial, nomeadamente quando a indicação é devido à suspeita de apneias durante o sono. Não há evidência que tal opção seja a mais correcta.

É necessário internamento? A cirurgia pode ser feita em regime de ambulatório, desde que seja possível fazer um tempo de recobro (recuperação) adequado e desde que os pais morem perto do hospital onde se efectuou a cirurgia (até 30 km) e tenham meios para se dirigirem ao hospital, caso aconteça alguma complicação. Quando não é feita em ambulatório, o internamento de uma noite está indicado.

Quando é que o meu filho pode ir à escola? Quais os cuidados no pós-operatório? A ida à escola depende das queixas da criança. Por norma, a analgesia com paracetamol é suficiente e dentro de 2 a 3 dias a criança já pode ir à escola com recomendação para fazer uma alimentação com dieta mole e morna/fria e com restrição para esforços físicos (que se deverá manter até aproximadamente 15 dias de pós-operatório).

A partir de que idade é que se faz a cirurgia? A idade mais frequente a partir da qual se faz a amigdalectomia são os 3 anos. No entanto esta pode ter que ser efectuada mais precocemente. Na criança (salvo raras excepções) a adenoidectomia (remoção das adenóides) está associada à amigdalectomia.

Quando está indicada a amigdalectomia na criança?São inúmeras as indicações para amigdalectomia e estão bem definidas. As mais frequentes dizem respeito a patologia infeciosa/inflamatória recorrente das amígdalas apesar de terapêutica médica adequada e aos distúrbios da respiração do sono, nomeadamente suspeita de síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS).

A ciência por trás do supositório

O MM já fez 2 meses e lá foi levar mais 2 ‘picas’. Não presenciei o acto, mas a necessidade de colocar um supositório para o rapaz dormir sem dores, recordou-me um mini-conflito que tive com a uma enfermeira do Centro de Saúde. Numa das vezes que levei o JM às vacinas, pedi um supositório de paracetamol, para prevenir a dor do pequeno. Entre choro e esperneanço, a Sra Enfermeira enchía-me os ouvidos com uma data de conselhos sobre como pegar no rapaz, como o colocar a arrotar, como o vestir, etc, Sabia que eu era cirurgião pediátrico? Sim. Ainda assim, tinha aquela autoridade moral que a idade traz e, como haveria de verificar, a ciência não confirma. Acenava pacientemente que sim, porque queria era ir-me embora dali. Mas, como dizia, pedia um supositório de Ben-U-Ron. Pergunta: «sabe colocar um supositório?» Eu: «(WTF?!) Qual a ciência?»

O que se seguiu é indigno para o rapaz, pelo que não entrarei em pormenores. Digo-vos apenas que a Sra. Enfermeira entendeu (e queria fazer escola) que a porção mais larga do supositório deveria entrar mais cedo que a parte fina. A parte larga, cortante, que os comuns dos mortais entendem como sendo o final do ‘foguete’ deveria ser a primeira parte a forçar o esfíncter anal da criança. Incrédulo e vencido pelo cansaço, nem discuti. Cheguei a casa e fui para a Internet. Encontrei a teoria da introdução invertida do supositório, inclusivamente, defendida por outros enfermeiros. Mas, porque raio as farmacêuticas continuavam fabricar os supositórios tal como os conhecemos? Parte fina e de ponta lisa para a frente que vai ficando mais larga, de forma abrir delicadamente o ânus, seguido de uma diminuição do diâmetro até até um corte súbito. Fui à literatura científica e desfiz o mito.

«Historically suppositories were inserted pointed end first but the publication of one study (Abd-El-Maeboud et al, 1991) changed nursing practice overnight. The authors suggested retention is more easily achieved if suppositories are inserted blunt end first because the squeezing action of the anal sphincter against the apex pushes (sucks) them into the rectum. (…) However, there has been a lack of critical appraisal of this research, which has never been replicated and has the limitations inherent with any small study. The research analysis used simple descriptive statistics, which further brings into question the validity and robustness of the research and the conclusions drawn. (…)In the absence of conclusive evidence to recommend one particular method of suppository insertion, it seems that a common-sense approach is required (Bradshaw and Price, 2006).»

Conclusão: houve gente que acreditou que a porção fina virada para baixo ajudaria a que o supositório fosse mais facilmente ‘empurrado’ para cima pelo próprio esfíncter anal. Eventualmente faria sentido, quando era o próprio a colocar. De qualquer forma, essa hipótese nunca foi provada, pelo que deve imperar o bom senso. E, para mim, bom senso parece ser colocá-lo como o fabricante preconiza, isto é, como mostra a figura.

[fonte: drugs.com]

A história acabou por aqui, porque, apesar de me ter a acompanhado de uma cópia do artigo a cada visita ao Centro de Saúde, para esfregar na cara da Sra. Enfermeira e vingar o rabiosque do JM. A senhora deve ter-se reformado e nunca mais nos cruzámos. De qualquer forma, julgo que este episódio deu origem à vontade de ter um blogue deste estilo. Se mais nada de útil tirei daquela vista ao Centro de Saúde, pelo menos isto lhe devo.

Um caroço no pescoço

Mais um pouco de embriologia. Sabiam que a glândua tiróide nasce na base da língua? Pois é verdade. É durante as primeiras semanas da vida embrionária que ela vai descendo até à sua posição final , que é logo abaixo da cartilagem cricóide (a maçã de Adão). Por vezes, o trajecto por onde ela desce não fecha completamente, o que justifica o aparecimento de um quisto entre a cartilagem cricóide e o soalho da boca. Este quisto é notado pelos pais como um ‘caroço no pescoço’. O seu nome técnico é quisto do canal tireoglosso. É um dos muitos quistos congénitos (isto é, que nasce com o próprio) que podem aparecer na criança.

[fonte: drtbalu.com]

Esta comunicação com a base da língua, faz com que estes quistos possam infectar, aumentando o seu tamanho, ficando ruborizado e podendo até drenar, isto é, deitar pús, através da pele. Não é uma imagem bonita. A solução é cirúrgica e o resultado final quase imperceptível. O cirurgião pediátrico deverá fazer uma incisão sobre uma das pregas do pescoço, de modo a cicatriz ficar sem tensão e invisível a quem olhe de frente para a criança. Depois, deve proceder à retirada do quisto e do trajecto até ao soalho da língua, incluindo o corpo do osso hióide.

[fonte: primehealthchannel.com]

Os diagnósticos diferenciais dos ‘caroços no pescoço’ são infindáveis. Se for mediano, isto é, na linha que separa o pescoço em duas partes iguais (direita e esquerda), peça à criança para deitar a língua de fora. O ‘caroço’ subiu? Então o mais provável é ser um quisto tireoglosso. O ‘caroço’ não subiu? Então o mais provável é ser um quisto dermóide, um tumor beningno constituído por inclusões de células da pele. A sua excisão é ainda mais simples, porque este quisto é bastante superficial.

A nós pais preocupa-nos muito a hipótese de ser ‘coisa ruim’, ou seja, tumores malignos. Felizmente eles são muito raros na crianças (exepto se a estas forem portadoras de alguma doença familiar que propicie o aparecimento de tumores malignos). Assim, quais os sinais de alarme para ‘caroços no pescoço’ (e também na face) que possam ser malignos?

  • os que são aderentes, sejam à pele, sejam aos tecidos profundos;
  • os que são muito duros (consistência pétrea);
  • os que não nasceram com a criança;
  • os que não variam de tamanho, isto é, aumentam (geralmente lentamente) mas não diminuem;
Não quer dizer que, aparecendo um ou mais destes 4 sinais de alarme, os pais se devam preocupar. Repito, os tumores malignos na criança são muito raros, principalmente no pescoço. Se já existia à nascença é provável que não seja maligno, mas sim um dos muitos quistos congénitos cervicais. Falarei dos outros que faltam um dia (prometo). Se apareceu de novo e é móvel (desliza por baixo dos dedos), tem consistência mole ou elástica e parece haver alturas que parece mais pequeno, podem dormir descansados, enquanto espera pela consulta. A probabilidade de ser benigno é muito provável e pode até não precisar de cirurgia.

Peito de pombo

Uma leitora deixou o seguinte comentário no post sobre o pectus excavatum:

«O meu filho tem o contrário, “peito de pombo” o que avô também tem e não tem qualquer restrição. No meu filhote nota-se um pouco mais porque ele é magrinho (13kg com 4 anos). Faz natação. É normal com o crescimento acentuar-se ou pelo contrário?»

Efectivamente, o peito de pombo, também chamado de peito em quilha ou, tecnicamente, pectus carinatum é a segunda deformidade torácica mais comum. Tal como no pectus excavatum, ela pode aparecer nos primeiros anos, mas é mais frequente notar-se perto da adolescência quando o crescimento é máximo. O problema parece estar no desenvolvimento anómalo nas cartilagens que unem o esterno às costelas, mas, neste caso, o esterno fica levantado (para à frente) condicionando ou não uma assimetria de todo o tórax. Assim, tal como no pectus excavatum, pode-se moldar (re-orientar) a deformidade artificialmente.

[fonte: allrefer.com]

Da mesma forma que no pectus excavatum colocamos uma barra a empurrar o esterno para fora, no pectus carinatum vamos colocar um dispositivo que force o esterno para dentro. Este dispositivo é como um colete de aço, desconfortável e mal tolerado pela maior parte das crianças. A maioria dos cirurgiões pediátricos aconselharão o seu uso apenas quando a criança (geralmente já adolescente) tiver uma real vontade de corrigir o defeito torácico e estiver disposta a passar pelo sacrifício.

Alguns hospitais têm dispositivos ‘universais’ que emprestam aos doentes, mas a maioria têm que ser adquiridos pelo próprio. A iSurgical3D faz coletes ‘à medida’, o que é especialmente útil, dada a grande variabilidade das assimetrias e os diferentes graus de gravidade. Com um scanning da superfíce do tórax, a iSurgical3D desenha um disposítivo adequado ao doente em causa, fazendo a pressão no local mais apropriado ao seu defeito. O dispositivo é caro (cerca de €500), mas a Segurança Social comparticipa, em caso de baixos rendimentos.

[fonte: isurgical3d.com]

Parece haver ainda um desconhecimento geral sobre as opções terapêuticas destas duas deformidades torácicas (pectus excavatum, pectus carinatum), mesmo entre profissionais de saúde. É comum chegarem-me doentes cujos médicos assistentes lhes disseram que não havia solução, outros que vêem neste defeito uma inevitabilidade ou uma solução cirúrgica macabra pela qual não quereriam passar. Nada disto é verdade e espero que estes dois post tenham servido para esclarecer isso. Por favor, continuem a colocar-me as vossas dúvidas. Infelizmente, estas doenças têm um grande impacto na auto-estima dos adolescentes, pelo que podemos e devemos ajudá-los.

Convulsões febris: o bicho-papão que faz tremer

Neste segundo texto dos Convidados Especialistas, falamos de convulsões febris. Uma situação assustadora, para quem vê e para quem a vive. Mas, mais importante do que saber o que é, interessa saber o que fazer perante uma convulsão. A convidada é a Dra. Sofia Ribeiro Fernandes é Pediatra e Mãe do Rodrigo (5 anos). Trabalha no Centro Hospitalar S. João, no Hospital CUF Porto e no Hospital Privado de Alfena. Dedica-se sobretudo à emergência pediátrica. E (agora palavras da própria Sofia) «com os braços estendidos abraça o mundo de cá e o mundo dos príncipes e princesas sem relógio e escreve-o através do blogue: Crónicas de Estetoscópio e Biberão

Convulsões febris: o bicho-papão que faz tremer
Sofia Ribeiro Fernandes

As convulsões febris não são mais do que a resposta do cérebro à febre. São comuns em crianças saudáveis com idades compreendidas entre os 6 meses e os 5 anos e acontecem geralmente no primeiro dia de febre. Aliás, muitas vezes, os cuidadores nem se apercebem que a criança estava com febre. São um bicho-papão, assustadoras, parecem quase indomáveis… Há perda súbita de consciência, acompanhada de movimentos bruscos dos braços e pernas, ou só dos braços, ou só de uma perna, ou pode haver uma flacidez do corpo todo. Parecem infindáveis, durar horas… Mas a maioria tem duração inferior a 5 minutos. A dança assustadora acompanha-se de um olhar vago e perdido e da ausência total de resposta a estímulos, nomeadamente à chamada pelo nome. Quando a dança pára, a criança fica com sono e pouco reactiva durante algum tempo (também a parecer infindável).

 [fonte: healthcentral.com]

As 6 dicas para enfrentar o bicho-papão 

Primeira Dica: Olhar para o relógio!– Dir-me-ão com quase toda a certeza que é impossível estar a olhar para o relógio, mas se se lembrarem… É importante para caracterizar a duração das crises e consequentemente o tratamento.

 Segunda Dica: Deitar a criança posicionada de lado, o que lhe permitirá respirar melhor e, em caso de haver vómito, não haver aspiração do mesmo, e numa superfície confortável e ampla de forma a que nessa dança irrequieta não se magoe.

Terceira Dica: Proibido colocar qualquer coisa na boca!

Quarta Dica: Está com febre?– é difícil avaliar a temperatura corporal na maioria das crianças, muito mais ainda se a criança estiver a convulsivar, por isso, se tiver febre, por avaliação quantitativa com termómetro ou avaliação pelos tão conhecidos termómetros de mão na testa (subjectiva, tal como as mãos e pés frios com o corpo escaldante), administrar um supositório de paracetamol na dose adequada ao peso. Se não tiver febre, não é convulsão febril, mas também um paracetamol em modo foguetão não fará desarranjos. Se não tiver supositório, não fazer medicação pela boca durante a convulsão, porque é altamente proibido.

 Quinta Dica: Porque a convulsão vai parar ao fim de alguns minutos, geralmente menos de 5 minutos, a criança vai ficar flácida como uma minhoca, com pálpebras sonolentas e pouco reactiva. É o chamado estado pós-ictal, que não é mais que o descanso fisiológico pós-convulsão e que deverá ser respeitado. 

Sexta Dica: É a primeira vez?– Importante ser observada por um médico para estabelecer o diagnóstico e esclarecerem as dúvidas porque pode voltar a acontecer em outros episódios de febre. Já não é a primeira vez?– Já são sábios no assunto, até porque já exploraram o bicho-papão até às entranhas, já o conhecem bem e não se esquecem de olhar para o relógio. Com certeza já têm uma arma poderosa chamada diazepam, uma bisnaga cor-de-rosa que se introduz no rabiote, às vezes precipitadamente (o que até se entende), a utilizar quando a crise dura mais do que 5 minutos. Neste caso, deverão ser observados por um médico se: a crise durar para além dos 5-10 minutos, a criança não despertar após 20-30 minutos pós-crise, os movimentos da crise foram diferentes dos das crises anteriores, ficar com dificuldade em falar, paralisia de um braço ou perna ou comportamentos que não tinha antes da crise e também se a dança voltar nas horas seguintes.

 São um bicho-papão destemido que faz tremer algumas crianças, os cuidadores e às vezes, até os que estão habituados a lidar com elas. Mas, na maioria dos casos, até aos 5 anos de idade, vão-se embora e não voltam mais…

[fonte: efepa.org]

Pectus excavatum

Estima-se que 1 em cada 1000 pessoas tenham pectus excatavum. Esta deformidade torácica é uma malformação das grade costal. Resumidamente, existe uma alteração no crescimento das costelas, o que condiciona uma depressão ao nível do esterno (o osso central que protege o coração) e, ao mesmo tempo, uma assimetria da caixa torácica, que acaba por afectar toda a postura. A maioria dos casos são evidentes nos primeiros anos de vida, mas só se tornam alvo de preocupação, na adolescência, altura em que o rápido crescimento torna a distorção mais evidente. É nesta altura que se procura o cirurgião pediátrico (ou torácico).

[fonte: mayoclinic.com]

As situações ligeiras podem ser disfarçadas com um exercício físico centrado no reforço da musculatura torácica, como natação, por exemplo. Só casos muito graves dão problemas respiratórios e/ou cardíacos, pelo que a maioria dos casos não tem qualquer tipo de sintomas. Assim, na maioria das vezes, a operação é vista como sendo estética. Faz, por isso, todo o sentido a evolução que houve, nos últimos anos, de passar a cirurgia correctiva por via aberta (que consistia basicamente em abrir o tórax a meio e reconstruí-lo) para uma via toracoscópica (com cicatrizes mínimas). Na abordagem toracoscópica (também chamada minimamente invasiva) é colocada uma barra de moldagem atrás da grade costal com auxílio de uma câmara de vídeo, que, por sua vez, entra por um furinho de 5 mm na parede torácica. Essa barra vai forçar as costelas a ganharem a configuração correcta e ela é retirada 2 a 3 anos depois. Esta cirurgia foi um salto qualitativo muito importante no tratamento desta doença e devemo-la ao Dr Donald Nuss que, com muita justiça, dá o nome à técnica (operação de Nuss).

[fonte: surgvideo.surg.sunysb.edu]

O Laboratório de Ciências Cirúrgicas da Universidade do Minho desenvolveu uma forma de criar as barras necessárias para a operação de Nuss e personalizá-las para cada doente. Apartir das imagens da TAC, que o cirurgião envia através da internet, uma máquina molda uma barra à medida daquele doente, individualmente. Antigamente (eu cheguei a ver) a barra era moldada manualmente, o que tomava tempo, ficava menos uniforme e obrigava a ter uma data de barras disponíveis, para ver qual se adaptava melhor. Com estas novas barras, à qual o grupo de investigadores se juntou uma forma de fixação mais user friendly, uma cirurgia que durava 1 – 1,5 horas é feita em cerca de 30 minutos. Este sistema inovador já valeu uma série de prémios à equipa de investigadores, destacando-se o START (Prémio Nacional de Empreendedorismo, promovido pelo BPI, Optimus e Universidade Nova de Lisboa) e o SpinUM ( Prémio de Empreendedorismo da Universidade do Minho) e deu origem à marca iSurgica3D que produz e comercializa este material 100% português.

Atenção, porque não quero ficar com méritos alheios. Apesar de pertencer ao mesmo laboratório (dentro da Escola de Ciências de Saúde da UM), não pertenço a este grupo de investigação específico. O meu pequeno contributo é como cirurgião pediátrico, na colocação destas barras. A cabeça por trás do projecto que, não por acaso, é meu orientador de doutoramento e meu director do serviço é o Professor Jorge Correia-Pinto. Podem ver e ouvi-lo no Next Big Idea (programa da SIC Notícias)  a explicar este projecto como deve ser.

Como uma força

Finalmente o há muito prometido post sobre as hérnias inguinais (as ‘forças’, na gíria popular). Como expliquei anteriormente, os testículos nascem dentro da barriga do feto e vão descendo até encontrar o seu lugar no escroto. O canal por onde desce chama-se canal peritóneo-vaginal e pode persistir aberto por muitos meses, após o nascimento do bebé. Se o canal permitir a passagem de líquido intra-abdominal, estamos perante um hidrocelo (comunicante). Se o canal permitir a passagem de uma porção de intestino ou gordura, estamos perante uma hérnia inguinal. O tratamento do hidrocelo comunicante e da hérnia do lactente e da criança é o mesmo e consiste na laqueação (isto é, encerramento) do tal canal peritoneo-vaginal. No entanto, os tempos para cirurgia diferem.

[fonte: dermatice.org]
A hérnia inguinal corre o risco de encarcerar, ou seja, o intestino pode prender no escroto impedindo que ele volte para dentro. Para além de dor intensa, o bebé desenvolverá um quadro oclusivo, porque o conteúdo intestinal deixa de progredir apartir daquele ponto. Começam os vómitos e a deterioração do estado geral é muito rápida. Assim, o diagnóstico de hérnia obriga a cirurgia que, apesar de não ser urgente, deve ser agendada nos próximos meses. Se entretanto o intestino descer até ao testículo, ele deve ser empurrado ‘de volta’. Muitos pais conseguem aprender a manobra da imagem e aplicá-la até à data do bebé ser operado.
[fonte: pediatricconsultant360.com]
No caso do hidrocelo, raramente ele evoluirá para hérnia e, muito menos, para hérnia encarcerada. Nesse sentido, pode-se esperar para ver se existe resolução espontânea do mesmo. Na Europa e nos EUA convencionou-se esperar até aos 2 anos, altura apartir da qual se acredita que já poucos canais fecharam por si. Como se pode ver na primeira imagem, o encerramento do canal pode ‘enquistar’ porções de líquido.
O hidrocelo é característico dos meninos, pois só estes têm escroto, mas as hérnias inguinais existem também nas meninas. Na menina, a hérnia resulta da persistência do canal de Nuck, uma estrutura homóloga ao canal peritoneo-vaginal dos meninos. Mais do que o intestino, estas hérnias são muitas vezes local de encarceramento do ovário. Por isso, têm também indicação cirúrgica assim que forem diagnosticadas. Mais uma vez, não é urgente, mas deve ser agendada para os meses seguintes.
Uma nota final para chamar a atenção para o facto de, quer o hidrocelo, quer a hérnia inguinal serem patologias que aparecem na adolescência e na idade adulta. No entanto, as causas destas são bem diferentes das da criança. O hidrocelo do adolescente não é comunicante, isto é, a acumulação de líquido não se deve à sua passagem pelo canal peritóneo-vaginal, mas sim a um aumento patológico da sua produção pela túnica vaginal (a camada mais interna do escroto e que reveste o testículo). O seu tratamento consiste na exérese cirúrgica desta túnica. No caso da hérnia inguinal do adulto, a causa é uma fraqueza da parede muscular que compõe o canal inguinal, permitindo que o intestino passe através desse canal (hérnia indirecta, mais parecida com a da criança) ou ‘fure’ a sua parede (hérnia directa). Geralmente, a hérnia do adulto tem uma componente mista – directa e indirecta – e o seu tratamento envolve a colocação de uma prótese (rede) para reforçar as paredes do canal inguinal.

O piolho – esse bichano tabu

Hoje estreamos uma nova rúbrica neste blogue. Para já, chamemos-lhe Convidados Especialistas. São convidados especiais que são também especialistas em áreas que não domino, mas que me parecem ser do interesse geral. E começamos da melhor forma com a Dra. Vânia Machado, que nos escreve sobre pediculose (os famosos piolhos). A Vânia é pediatra, mãe da Sofia (10 anos), do Pedro (6 anos) e do João (4 anos). Trabalha no Hospital de Braga e desenvolve a sua actvidade privada no SAMS Braga e no Hospital Privado de Braga. Dedica-se à Pediatria Geral e tem-se especializado em Alergologia Respiratória. Tem um blogue: Ecos de Cigarra da Mamã Formiga.

O piolho – esse bichano tabu…
por Vânia Machado

No corre-corre das rotinas da semana dos pequenitos, surgem pequenas atribulações – ainda bem que pequenas – que nos podem dar grandes canseiras. Uma delas é quando as suas cabecitas bem lavadas se tornam residência temporária de parasitas indesejados: os piolhos.

No imaginário materno, meninos com piolhos é sinónimo de meninos indigentes, famílias com parcos hábitos higiénicos, escolas insalubres.  Pois bem: atualmente o piolho aumentou o grau de exigência, ou antes, é lhe indiferente para que cabeça vai, desde que tenha cabelos… Por isso não se admirem se vier um recadinho da escola para examinarem as cabeças dos filhotes, nem o considerem ofensivo: acontece. O que importa nesses momentos temidos é não entrar em pânico, entrar antes em ação.

Primeiro, inspecionar cuidadosamente o couro cabeludo, com especial atenção na coroa da cabeça, nuca e atrás das orelhas. O piolho é perito em jogar às escondidas, e é necessário observar bem com luz do dia, perto de uma janela, mecha a mecha de cabelo. Se há um, há muiiitos… Se observarem pintinhas brancas, para ter a certeza que não é apenas uma caspinha, segurar o cabelo e tentar retirar: se estiver à solta não é lêndea, esta agarra-se bem ao fio. O ideal é fazerem uma breve pesquisa na internet para verem imagens dos ditos, para não escapar nenhum… Quando se identificarem os bichanos, segue-se uma corrida à farmácia para adquirir os apetrechos necessários para a sessão ghostbuster.

 

[fonte: queda-cabelo.com]

Atualmente o piolho habituou-se às desinfestações, pelo que não morre com qualquer mistela. Os produtos mais adequados têm na sua composição compostos que asfixiam o bichano (óleos), e que impedem que as suas patitas se agarrem ao cabelo, não sendo tóxicos para a criança: eles são o Itax, Paranix, Lipuk, Poux. Os mais práticos apenas necessitam de atuar em 15 min; convém verificar se trazem pentes com dentes metálicos (os de plástico não são tão eficazes).

Após a aplicação e durante o tempo de espera, convém explicar à criança o que se passa, sem assustar: tem uns bichinhos na cabeça que não fazem mal mas que se não se tirarem vão dar muita comichão (a verdade é que nem sempre dão, e não se fiem que o vosso filho não tem piolhos porque não coça a cabeça!).

As mais impressionáveis, podem colocar umas luvas e touca na cabeça. Confesso que só o fiz quando tratei do meu filho do meio, há 2 anos; desta vez foi mesmo com as mãos, apenas com o cabelo preso (é claro que convém aplicarmos também o produto, e no resto da família; se os restantes elementos não estiverem infestados, basta um produto à base de óleos repelentes, como o Nice n Care da loja Celeiro). Depois deve-se lavar bem, enxaguar e enxugar a cabeça.

O passo seguinte exige uma boa dose de paciência, tanto para a mãe como para a criança: o ideal é sentarem-se ambos no chão, entretendo o filhote com um livro, ter um recipiente para colocar os restos mortais dos bichanos, uma toalha clara para ir limpando o pente e lenços de papel. À medida que se vai separando o cabelo por secções, segurar o pente com firmeza e retirar os parasitas, sem se assustar com a quantidade deles, a maioria só se torna visível quando morre…Este processo dura cerca de uma hora… E deve ser repetido após uma semana. (Nos dias que se seguem após o banho convém retirar os restos de lêndeas e piolhos mortos).

Por fim, lavar bem os utensílios com água quente, a roupa que a criança vestia e chapéus podem ser lavados na máquina a 60 º. Não é necessário uma limpeza frenética de toda a roupa da cama e da casa, para sobreviverem os piolhos necessitam de cabelo, morrendo logo que o largam.

Para finalizar, 3 conselhos: um mimo extra no vosso cabelo (os produtos em cabelos pintados podem danificar o aspeto, e deixam o cabelo ressequido); evitar pensamentos obsessivos sobre o piolho (os produtos referidos são muito eficazes); o vosso filho pode coçar a cabeça nos próximos dias pela irritação do couro cabeludo provocada pelos produtos, mas informar na escola sobre o vosso achado (não é obrigatória evicção escolar após a desinfestação, mas se puderem que o vosso filho não vá um ou dois dias enquanto o problema dos outros se resolve…).