Evitar idas à urgência por causa dos hoverboards e dos skates

E a moda dos hoverboards teria que chegar à literatura científica. Um artigo recente na revista da Academia Americana de Pediatria analisou os ‘estragos’ deste novo brinquedo: Pediatric Hoverboard and Skateboard Injuries. Quando li este artigo torci o nariz. Colocar hoverboards e skateboards no mesmo saco? É quase ofensivo para o pai dum skateboarder empenhado como o JM. Mais, em boa verdade, são mais uma gigajoga que se move com movimentos mínimos e preguiçosos, com muito pouco exercício físico envolvido. Tecnicamente, são self-balancing, 2-wheeled boards (palavras dos autores do estudo) e estão longe dos hoverboards retratados no mítico Regresso ao Futuro.

 

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Mas voltemos ao artigo, porque está muito bem escrito. Os autores percorreram o National Electronic Injury Surveillance System americano e colheram os dados relativos a acidentes provocados por hoverboards e skateboards. Os resultados não são surpreendentes mas chamam a atenção para a necessidade de algumas precauções para quem tem filhos adeptos duma (ou das duas) destas modalidades.

 

Vamos aos resultados, Entre 2015 e 2016 (dados das entradas nos serviços de urgência EUA, recordo), terão havido 26854 lesões por hoverboards. A idade média das crianças ‘acidentadas’ foi 11 anos, quase tantos rapazes (52%) como raparigas (48%). 66% dos acidentes ocorreram dentro de casa. A maioria das lesões ocorreram nos pulsos (19%), antebraço (14%), e cabeça (14%). Algumas delas com fractura (40%).

 

Em relação aos skateboards, terão acontecido 121398 acidentes que motivaram ida ao serviço de urgência, entre 2015 e 2016. A idade média das crianças foi 13 anos. 52% das lesões ocorreram na rua. Mais uma vez, os pulsos foram as grandes vítimas em termos de membros (15%), houve 35% de traumatismos cranianos. 32% dos skateboarders tinha algum tipo de fractura.

 

De factos, o tipo e frequência das lesões provocadas pelos hoverboards e pelos skates são muito semelhantes e chamam para a necessidade de protecção, mesmo nas brincadeiras dentro de casa. O uso de capacete e a protecção dos pulsos são fundamentais. Podemos não conseguir evitar as quedas, mas evitamos muitas idas ao serviço de urgência.

 

JM protegido com capacete e proteção de pulsos

 

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Como detectar e tratar a displasia da anca do bebé?

Há muito tempo que não trazia um convidado especialista. O Dr. Nuno Alegrete é um ortopedista infantil meu amigo a quem encomendei um texto sobre a Displasia da Anca, por ser um tema que interessa muito aos pais de recém-nascidos. O Nuno é pai de pai de dois filhos: o João, com 14 anos, e a Sofia, com 11. Desde há mais de 15 anos que se dedica à Ortopedia Pediátrica, tendo, até há pouco, trabalhado no Hospital de S. João. Atualmente, exerce a sua atividade na Casa de Saúde da Boavista e no Hospital CUF Porto, onde é coordenador da Unidade de Ortopedia Pediátrica.

 

Displasia de desenvolvimento da anca

Nuno Alegrete

 

Displasia de desenvolvimento da anca (DDA) é uma expressão que designa um conjunto de alterações que interferem com a estabilidade da articulação da anca e a forma do acetábulo (cavidade onde se encaixa a cabeça do fémur). A expressão “luxação congénita da anca” representa uma perda total do contacto entre as superfícies articulares da cabeça do fémur e do acetábulo e é a forma mais grave do espectro de alterações da DDA.

É frequente os recém nascidos apresentarem alguma laxidez na articulação da anca e uma imaturidade no desenvolvimento do teto acetabular durante as primeiras semanas. Na maioria dos casos essa elasticidade tende a diminuir permitindo que o acetábulo se desenvolva adequadamente. Estes casos, necessitam apenas de vigilância clínica e a sua evolução não traz qualquer problema futuro.

Quanto às ancas luxáveis ou com displasias graves e persistentes, estima-se que a sua incidência se encontre entre os três e os cinco em cada mil nascimentos. Habitualmente apenas uma das ancas está afetada (cerca de 80% dos casos) e quando assim é, a anca esquerda é a mais atingida (3:1).

Por regra, a DDA ocorre em recém-nascidos sem qualquer outra patologia, sendo identificados alguns fatores de risco: género feminino (provavelmente resultante de maior sensibilidade à hormona materna relaxina segregada durante a gravidez), limitação da mobilidade fetal (primeira gravidez, oligoâmnios – pouco líquido amniótico, apresentação pélvica – bebés que se mantém sentados durante a gravidez, elevado peso ao nascer). Outras condições, como a presença de torcicolo congénito, metatarsus adductus e plagiocefalia também estão associadas com maior risco de DDA. A história familiar positiva é outro fator de risco a considerar, sugerindo que aspetos genéticos possam estar envolvidos na génese desta condição.
As características clínicas da DDA são muito variáveis, estando dependentes do grau de displasia e da idade do doente. O exame clínico das ancas nas crianças deve ser efetuado em todas as avaliações de rotina até à aquisição de um padrão de marcha estável (cerca dos dois anos).

 

Fig. 1- Diferença de comprimento dos membros inferiores
Fig. 2 – Desnível na altura dos joelhos
Fig. 3 – Assimetria de pregas em recém-nascido com luxação da anca esquerda
Fig. 4 – Limitação da abdução da anca esquerda

 

 

 

 

 

 

 

 

Como se diagnostica?

No recém-nascido, o exame deve ser efetuado com o bebé calmo e relaxado, deitado sobre uma superfície dura, abduzindo e aduzindo a anca repetidamente para detetar algum ressalto ou movimento anormal. Uma diferença no comprimento dos membros inferiores (fig. 1) ou na altura dos joelhos (fig. 2) quando as ancas estão fletidas, são sugestivos da presença de luxação da anca. A assimetria das pregas inguinais (fig. 3) e glúteas também deve ser valorizada, apesar de presente em cerca de um quarto dos recém nascidos. Um outro indicador de luxação da anca é a limitação da abdução (fig. 4). Existem ainda algumas manobras (Ortolani, Barlow) para determinar a estabilidade e a redutibilidade da anca. A DDA sem luxação pode não ter, por seu lado, qualquer tradução clínica e apenas os exames complementares de diagnóstico poderão fazer a sua identificação.

A ecografia (fig. 5) é a primeira técnica de imagem para avaliar a estabilidade e a morfologia da articulação da anca. É especialmente útil nos primeiros seis meses de vida e é fundamental para confirmar algum eventual achado do exame clínico ou para avaliar crianças com fatores de risco. Permite avaliar a profundidade do acetábulo (através da medição do ângulo alfa) e a tendência à subluxação da cabeça femoral (através da medição do ângulo beta), permitindo classificar as DDA em quatro graus (classificação de Graf), desde o normal até à luxação da anca. Atualmente, em Portugal, recomenda-se a realização de ecografia a todas as crianças com os seguintes fatores de risco: apresentação pélvica, história de oligoâmnios, história familiar, deformidades congénitas do pé, torcicolo congénito, síndrome polimalformativo e assimetria das pregas.

 

Fig. 5 – Ecografia da anca
Fig. 6 – Radiografia mostrando luxação da anca direita

 

 

 

 

 

 

 

A radiografia (fig. 6) é um exame que tem mais valor após o aparecimento radiográfico dos núcleos de ossificação das cabeças femorais (o que acontece por volta dos quatro a seis meses), permitindo determinar a sua posição e a forma dos acetábulos. Tratando-se de um exame estático (ao contrário da ecografia que é um exame dinâmico), não permite avaliar a instabilidade articular.
Outros exames, como a tomografia computorizada ou a ressonância magnética nuclear, raramente estão indicados.

 

Como se trata?

Quando se deteta uma DDA, o objetivo do tratamento é proporcionar uma anca adequadamente centrada, de modo a permitir um ambiente ótimo para o desenvolvimento da cabeça femoral e da cavidade acetabular.

Em crianças com menos de seis meses de idade o tratamento consiste na colocação de talas de abdução, sendo a tala de Pavlik a mais difundida. Esta tala é dinâmica, permitindo abdução e flexão, mas contraria a adução e extensão das ancas e deverá ser usada por um período de 2 a 3 meses, sendo a evolução clínica monitorizada com ecografia. A utilização de dupla ou tripla fralda foi aconselhada no passado para tratar a DDA no entanto, atualmente, está contraindicado o seu uso uma vez que, alem de não ter efeito terapêutico, pode promover a extensão das ancas criando uma posição desfavorável ao seu desenvolvimento.
Entre os seis e os 18 meses de idade, a redução da anca luxada pode obrigar a um período de tração aos membros inferiores, seguida de uma imobilização com gesso durante três a quatro meses. A redução cirúrgica é muito rara nesta idade, mas pode ser necessária caso haja falência da tentativa de redução fechada.

 

Fig. 7 – Criança com tala de Pavlik

 

Após os 18 meses de idade a regra é efetuar uma recolocação cirúrgica da anca, seguida de uma imobilização com aparelho de gesso. Todas as crianças submetidas a tratamento por DDA devem manter vigilância clínica e imagiológica até aos 6 anos de idade.

Como conclusão, recomenda-se atualmente que todos os bebés sejam submetidos a um exame clínico de rotina pelo seu pediatra ou médico assistente. Caso existam fatores de risco ou alguma dúvida no exame físico deverão efetuar uma ecografia de rastreio às seis semanas de vida. Caso persista a dúvida ou exista uma DDA identificada, devem ser referenciados a um Ortopedista Infantil para orientação de tratamento.

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Antecipar e evitar acidentes na neve

Vêm aí as férias da Páscoa, que, para mim, é a época perfeita para uma visita à neve. Mais, esta família cé unânime em concordar que são as melhores férias do ano. Por razões várias, este ano não conseguiremos fazer férias nessa altura, pelo que eu e o JM aproveitámos a viagem duns amigos professores de desporto com os seus alunos, por altura da minha licença parental, para fugirmos numas mini-férias (pai e filho). O JM foi a mascote dum grupo de trinta e tal alunos universitários e mostrou os seus dotes de exímio snowboarder. Sempre bem disposto e adepto de desportos radicais, ele expõe-se bastante ao risco.

 

Como cirurgião pediátrico, mas também como pai preocupado, tenho sempre um viés para a avaliação de risco, quando olho para qualquer desporto. Ou seja, perante uma nova actividade desportiva que os meus filhos querem experimentar, saltam-me logo à mente as potenciais lesões e as formas que teremos evitá-las ou pelo menos minimizá-las. No caso dos desportos de neve saiu um artigo interessante no Journal of Pediatric Surgery: The spectrum of pediatric injuries sustained in snow sports. Um grupo de Melbourne (Austrália), analisou os dados recolhidos nas três maiores estâncias, entre 2005 e 2015. Foram revistos um total de 6299 com crianças: 60,7% skiers e 38,5% snowboarders. A maioria das lesões (53.5%) deveram-se a quedas e afetaram predominantemente os joelhos (no caso dos skiers) e os punhos (no caso dos snowboarders). Mais dois achados óbvio, (1) o uso de capacete diminui com o aumento da idade e (2) as concussões cerebrais são menores em que usa capacete, quem em skiers quer em snowboarders.

Daqui se depreende que, para os snowboarders o capacete e as proteções de punho são obrigatórias. O JM gosta de acrescentar umas protecções dos joelhos, porque lhe dão conforto quando se ajoelha. Mas às vezes esquece-se dumas e de outras… À conta destes esquecimentos, este ano tivemos uma visita ao gabinete médico da pista com direito a passeio na mota de neve. Só um susto, felizmente. Mas à conta destes esquecimentos, descobri e já encomendei uma luvas com proteções de punho incluídas (fica aqui a dica).

 

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O que nos diz a ciência sobre actividade física e sucesso escolar?

Este artigo no Pediatrics chamou-me atenção para alguns pontos importantes sobre a educação dos nossos filhos. Trata-se duma revisão de 26 estudos publicados sobre a relação entre actividade física e sucesso escolar. Das conclusões principais, destacam-se:

  1. a actividade física livre entre os períodos das aulas (mesmo que apenas 10 minutos) contribuem para o aumento sucesso escolar;
  2. o impacto sobre a Matemática parece ser maior do que sobre a leitura e a escrita;
  3. a actividade física faz com que haja mais concentração no trabalho intelectual;
  4. o exercício físico escolar parece ser mais benéfico que o desporto extra-curricular.

 

Estas conclusões levantam uma série de reflexões. Numa sociedade que se depara com o aumento de diagnósticos de crianças com hiperactividade e/o défice de atenção das crianças, escolhemos encurtar o tempo que elas têm para brincar livremente no recreio e menorizamos o papel da disciplina de Educação Física. A ciência reforça aquilo que sabemos há algum tempo: exercício físico aumenta a capacidade de concentração. Não é preciso que este exercício físico seja sob a forma dum desporto organizado. Basta dar tempo e espaço para brincar entre as aulas.

 

Na mesma linha de pensamento, parece-me óbvio que as reformas que envolvem as outras disciplinas mais intelectuais (matemática, língua portuguesa ,principalmente) não deveriam ser feitas independentemente das alterações no tempo e tipo de exercício físico que é proporcionado aos alunos. Seria até desejável que em cada programa de cada disciplia juntássemos jogos e actividades físicas relacionadas com a matéria dada. Há várias ideias possíveis no website GetFitIn, no MathAndMovement e, claro, por esse Youtube fora.

Finalmente, o papel do desporto extra-curricular é importante, mas o que é feito dentro da escola é mais. É muito diferente, os miúdos terem que se deslocar (e os pais pagarem) a um clube para praticarem desporto ou as próprias escolas criarem os seus clubes. Mais, é bem diferente chutar estes momentos desportivos para o final do dia e espremê-los entre trabalhos de casa ou, inseri-los na vida escolar normal. Não sou eu que o digo, é a ciência.

 

[fonte da imagem: mathandmovement.com]

 

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O Que Sabem os Pais Sobre o Tratamento de Queimaduras?

Este é o título dum trabalho de investigação que uns colegas aqui do Porto fizeram e em que este blogue particiou de forma voluntária e digital. Entre 26 de Julho a 12 de Agosto de 2016, foi disponibilzado um inquérito online, «em dois blogs sobre temas pediátricos (http://www.eosfilhosdosoutros.com e http://blogpediatriaparatodos.blogspot.pt)». O questionário incluía informação demográfica, questões sobre tratamento geral de queimaduras e perguntas de verdadeiro/falso. Os resultados foram publicados na última edição da Acta Pediátrica Portuguesa.

 

Conseguiram/conseguimos respostas de 644 pais. Havia história de queimadura em 16,3% dos inquiridos, 89,5% das quais teriam ocorrido em casa. Em termos de abordagem, 51,2 % tratariam a queimadura com água fria. No entanto, 95,7% têm um conhecimento inapropriado quanto à duração (idealmente, 15-20 minutos) e apenas 1,6% cobriria a zona com película aderente (solução entendida como ideal pelos investigadores). Cerca de 3,7% optariam pelas formulações caseiras, incluindo gelo, mel, pasta dos dentes e gorduras. «Sexo feminino e história prévia de queimadura foram associados a maior conhecimento sobre o tratamento das queimaduras.»

 

«A nível mundial, oito em cada 100 000 crianças são hospitalizadas anualmente na sequência de uma queimadura (…) e constituem um verdadeiro problema de saúde pública, tendo importantes repercussões em termos de morbimortalidade e perda de qualidade de vida. (…) É de salientar que à luz do conhecimento dos autores este é o primeiro estudo efetuado em Portugal que avaliou o grau de conhecimento dos pais sobre os primeiros socorros das queimaduras.» Claramente, este é ainda limitado.

 

Os autores sugerem que «o pediatras e os médicos de família devem (…) abordar este tema na consulta de promoção de saúde infantil. Outra estratégia passará pela maior divulgação junto dos profissionais de saúde da norma da Direção Geral da Saúde sobre abordagem pré-hospitalar das queimaduras em idade pediátrica e no adulto.» Na parte que me toca, recordo o texto que escrevi sobre as queimaduras aqui no blogue, inspirado num fim-de-semana de chuva e frio cortante.

 

 

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Correr riscos é mais saudável

Há dias, também ouvi um outro podcast interessante. Foi no já conhecido TSF Pais & Filhos. O resumo de um debate sobre Segurança e saúde. Os convidados foram Sandra Nascimento, presidente da APSI (Associação para a Promoção da Segurança Infantil), Carlos Neto, professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana, Hugo Guinote, Diretor da Divisão de Policiamento de Proximidade, da Direção Nacional da PSP e Pedro Dias Ferreira, psicólogo da unidade de pediatria do Hospital de Santa Maria.

O debate foi muito interessante e tocou num tema ao qual sou muito sensível. A Medicina tem identificado cada vez mais riscos e causas para as mais variadas doenças e tipos de acidentes. Isto tem a consequência natural de tornar os pais preocupados e hiper-protectivos. Por outro lado, filhos hiper-protegidos torna-os mais vulneráveis a outro tipo de ameaças. Sabemos hoje que crianças menos expostas à sujidade do mundo exterior torna-as mais susceptíveis a asma e doenças alérgicas. Da mesma forma, crianças que brincam pouco ‘lá fora’ ganham menos destreza física, não aprendem a cair nem aprendem a medir o risco. Por isso, é que colocar os nossos filhos numa redoma pode ser tão ou mais prejudicial do que deixá-los ‘soltos por aí’. Este foi uma ideia com que praticamente todos os oradores concordaram.

 

Em tempos fui entrevistado sobre este tema, pelo Jornal de Notícias. Foi a propósito do livro “Deixe-os comer terra” de Marie-Claire Arrieta e Brett Finlay. O livro tem um título bastante explicativo, mas não é fácil para os pais (nem para os médicos) encontrarem o equilíbrio entre deixar os filhos aventurarem-se pelo meio do lixo e colocar-se em situações perigosas ou tê-los sempre sentadinhos e asseados em frente à televisão. Arriscar faz parte da vida e é uma aprendizagem que as crianças têm que ter. Pequenos riscos trazem pequenos sustos, que avisam a criança para evitar riscos maiores que lhe trariam amarguras maiores. Uma criança que não experimenta o risco pequeno, pode num dia que se apanhe em liberdade não saber medir e atirar-se para um risco muito maior, com consequências muito maiores.

 

Há muito que defendo a teoria do ‘risco controlado’. Ou seja, sempre com um olhar vigilante, ir deixandos os filhos experimentar uma aventuras mais arriscadas. Depois, vamos percebendo o que ela consegue ou não consegue fazer. Se aguenta ou não a queda que pode vir a seguir. No meio de alguns arranhões e muito choro, lá vão aprendendo a cair e a levantar, vão criando resistência e, com o incentivo certo, a tão necessária resiliência.

 

[MM a descer uma rampa a alta velocidade sem capacete; vídeo disponível no instagram]

 

 

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A minha vida de deputado

Pode até parecer que sai um bocadinho das temáticas deste blogue, mas verão que vem cá dar. Em Novembro do ano passado, candidatei-me e acabei por ser seleccionado para intregrar o Health Parliament Portugal (HPP) como ‘deputado’. O HPP é uma iniciativa da Jansen, da Microsoft, do Expresso e da Universidade Nova de Lisboa, com o Alto Patrocínio da Presidência da Assembleia da República. A ideia consistiu em juntar “jovens” (entre aspas porque era dos 21 aos 40 anos), para que, num ambiente parlamentar, discutissem algumas políticas de saúde. O trabalho foi organizado em comissões. Eu fiz parte da Comissão das Tecnologias de Informação.  A nossa comissão era muito multifacetada. Havia médicos, gestores, assessores de comunicação, psicólogos e farmacêuticos. Trabalhámos todos afincadamente. Inclusivamente, aproveitámos o trabalho na comissão para fazermos um trabalho de investigação em conjunto. Se são subscritores da minha newsletter ou me seguem no facebook devem ter sido persuadidos a preencherem um inquérito sobre literacia digital em saúde, que servia este propósito.

 

[Grupo de deputados do Health Parliament Portugal]

 

A experiência de participar no HPP foi gratificante. Aprendi muito. Talvez mais do que consegui contribuir. Cada comissão organizou as suas ideias e fez as recomendações que foram votadas por todos os deputados em plenário. O resultado deu origem a um livro que está disponível online. Uma ideia genérica que retive, e a que tomo como mais motivante, é que, apesar das diferenças ideológicas dos deputados envolvidos, houve sempre uma ampla base comum que tornou possível fazer propostas concretas. Talvez por isso, o Ministério da Saúde quis continuar o trabalho das comissões convidando-as para audiências e grupos de trabalho. De facto, dentro do Ministério nota-se também essa ampla base comum de consenso que se traduz num trabalho continuado. Independentemente dos governos que saem e ficam, parece haver um fio condutor que mantém a ‘máquina’ coerente.

 

[A Comissão de Tecnologias de Informação, no Primeiro Plenário (sede da Microsoft, em cima) e no Segundo Plenário (Fundação Gulbenkian, em baixo)]

 

E, para terem uma noção da evolução que têm tido as tecnologias da informação na saúde, basta visitar o portal do utente do SNS. Lá cada pessoa pode colocar os seus contactos de emergência, história pessoal de doenças, o testamento vital, ou outras informações que ache importante estar disponível a quem o atende num serviço de urgência. Também pode marcar consultas, ver o estado de inscrição para cirurgias, o boletim de vacinas e muito mais.  É muito útil para quem atende e é atendido. Por isso, se ainda não se registou, faço-o quanto antes.

 

Sobre o trabalho da comissão que integrei, dentro das tecnologias de informação, focámo-nos mais nos dados em saúde, na forma como estes são gerados, guardados e partilhados. Na prestação de cuidados de saúde, há colheita de dados constante: do peso e altura aos resultados de análises sanguíneas, passando por observações médicas, relatórios de meios complementares de diagnóstico, etc. Para o doente/utente é importante saber (1) que eles estão guardados em segurança; (2) que, quando estes dados são partilhados entre profissionais, esta partilha seja feita de forma segura e fiável e (3) que, quando eles são necessários, esses dados estarão efetivamente disponíveis. Ninguém quer que as suas análises venham trocadas, nem quer que os seus relatórios médicos sejam vistos por quem não deve. Também ninguém quer a andar a repetir exames, só porque as imagens não estão disponíveis. Fizemos várias recomendações nesta área.

 

Também, se se pede cada vez mais destreza digital aos profissionais de saúde  e aos utentes para marcarem consultas online, pedidos de receita sem papel, etc., achámos que era importante avaliar a literacia dos utentes do SNS. Alguns dos nossos resultados preliminares foram publicados. Perto de 90% dos inquiridos, disse utilizar com frequência a internet para procurar informação sobre saúde, mas apenas 20 por cento considera a informação que encontra credível. A credibilidade e a quantidade excessiva de informação foram os principais problemas apontados por 78% e 38% dos participantes, respetivamente. Mais, o nosso estudo revelou ainda que metade dos utentes acha que a informação transmitida pelos médicos nem sempre é percetível e esclarecedora. Claramente, é preciso melhorar a forma como utentes e profissionais comunicam e lidam com as plataformas digitais.

 

[Comissão das Tecnologias de Informação reunida com o Ministério da Saúde]

 

Resumindo, até porque podem ler na íntegra o relatório (e aconselho mesmo que o façam), trabalhar nesta comissão levou-me a aprender termos jurìdicos, a rever alguns conceitos da ética médica, descobrir métricas e outputs financeiros, descobrir muita da informática escondida nos nossos processos e até ler sobre blockchain. Aprendi imenso. Adorei a experiência e, até porque existe a vontade do Ministério da Saúde de continuar a ouvir-nos, espero poder continuar a contribuir com  a minha opinião. As políticas de saúde dizem respeito a todos. Para mais, é um dos legados mais importantes que deixamos aos nossos filhos: a sua própria saúde.

 

 

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Como ensinar uma criança a engolir comprimidos?

Há uns meses, o JM esteve doente. Como tinha que tomar um medicamento cuja dose só estava disponível em comprimidos, tentámos desfazê-los com água. O sabor era integrável e a sensação dos grãos na garganta despertavam-lhe o vómito. Alternativa? Aprender a engolir comprimidos.

 

Como bom pai, procurei no Doutor Google. Swallow, pills, children, search. Este artigo foi o mais útil que encontrei: Teaching your child how to swallow pills. Achei que ajudaria mais alguns se traduzisse e acrescentasse o que aprendi com as tentativas do JM.

 

  1. Mantenha a calma e incentive a criança sem entrar em comparações. Cada criança é um caso único. Não adianta comparar com outras crianças da mesma idade ou mais novas que já conseguem engolir comprimidos. Demonstre confiança nas suas capacidades. É normal que não consiga à primeira, nem à segunda, nem à terceira tentativa. Por vezes, demoram semanas até conseguir. Mantenha a calma e transmita calma.
  2. Comece com coisas pequenas e saborosas (por exemplo, uma migalha/pepita de chocolate) e vá aumentando de tamanho até conseguir um volume parecido com o comprimido. Reforço: é normal que não consiga à primeira, nem à segunda, nem à terceira tentativa. Mantenha a calma e reforce a confiança do pequeno.
  3. Sente a criança de costas direitas e cabeça virada para a frente. Elevar a cabeça ‘para empurrar’ pode parecer natural, mas dificulta a deglutição.
  4. Ofereça uns golinhos de água primeiro e peça para tentar engolir de uma só vez bocados grandes de água.
  5. Ponha o comprimido na língua da criança e peça para repetir o acto de beber água como tem feito até agora. Algumas crianças preferem beber com palhinha, porque isso as distrai do comprimido.
  6. Se a criança conseguiu engolir o comprimido, elogie. Se não conseguiu, elogie a tentativa. É preciso coragem para aprender coisas novas. Pode tentar novamente. Mas, se a criança está nervosa, faça uma pausa. Mantenha a calma. Tente mais tarde.

Esta metodologia resultou cá em casa. Admito que existam casos mais complexos. Para esses, sugiro uma visita a este website do Cohen Children’s Medical Center, onde são dadas mais dicas mediante as dificuldades específicas da criança.

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Evitar internamentos das crianças é também ser minimamente invasivo

Há muito que defendo que cirurgia minimamente invasiva não é só fazer incisões pequenas. Para além de evitar cicatrizes, minimizar a dor e os impactos fisiolǵicos de cada cirurgia, é importante reduzir a invasão, seja ela física, psicológica e (porque não) social. Assim, percebe-se facilmente que nós, cirurgiões pediátricos, seremos menos invasivos para as nossas crianças quanto menos vezes a as tivermos que internar ou quanto menor for o tempo do internamento (quando ele tem mesmo que ser). Daí a tentativa cada vez maior de transformar procedimentos cirúrgicos em cirurgia de ambulatório, ou seja, em cirurgia ‘de ir no próprio dia para casa’.

 

Apesar de não ser um conceito novo, a cirurgia de ambulatório para crianças enfrenta ainda algumas restrições/receios de alguns profissionais de saúde. Isso é particularmente visível na cirurgia do pescoço, pelo medo de complicações da via aérea. Mas, num hospital de crianças no Porto onde tive o prazer de me formar, a cirurgia de ambulatório era uma prioridade. Há muitos anos que no ‘extinto’ Hospital de Crianças Maria Pia fazia cirurgia cervical com saída no próprio dia. Isso representava conforto para as crianças, que podiam dormir em casa, no conforto da sua cama.

 

Esse conhecimento foi passado para o Centro Materno Infantil do Norte, onde os profissionais do Hospital Maria Pia se integraram. Cientes de que a cirurgia do pescoço em crianças continua a ser feita em regime de internamento na maioria dos hospitais (portugueses e estrangeiros), decidimos publicar a nossa experiência com uma das cirurgias de pescoço mais complexas: operação de Sistrunk para excisão do quisto do canal tireoglosso (um caroço no pescoço). Mais, para efeitos de ‘prova’ de que não havia diferença em termos de resultados ou complicações, quando as crianças eram operadas em regime de ambulatório ou em regime de internamento, fizemos um estudo comparativo. Esse estudo foi aceite para publicação no International Journal of Pediatric Otorhinolaryngology de Maio deste ano, pelo que a palavra vai se difundindo pela comunidade médica.

 

 

Results: A total of 36 patients were included, with age ranging from 1 to 14 years (mean 6.3 years). Sixteen patients underwent day surgery, and 20 stayed overnight (with less than 24 h postoperative discharge). The main reason to stay overnight was distance (greater than 60 km or 1 h driving) between the hospital and patient’s residence. All patients had histopathological confirmation of the diagnosis. None of the patients had a drain placed intraoperatively. There was only one readmission at 48 h postoperative; a patient who underwent day surgery came back with cervical edema, which resolved with non-operative treatment. Short-term complications included post-operative local wound infection (8,5%) and hematoma (2,9%), none of which required surgical treatment. Conclusions: Sistrunk procedure without drain placement is safe and can be performed in an outpatient setting.

 

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Porque é que não fiz a recolha de células estaminais dos meus filhos?

É muito frequente perguntarem-me se aconselho ou não a recolha de células estaminais do cordão umbilical. Amigos e leitores ‘grávidos’ interpelam-me com este assunto sempre que chega à altura de desembolsar umas centenas de euros (não estou a par dos preços) pela promessa da preservação das células estaminais, que um dia poderão salvar o seu bebé de um problema de saúde grave.

 

Antes de entrar na polémica, esclareço que não tenho razão nenhuma para desaconselhar a colheita das células do cordão umbilical. Não prejudica o bebé em nada. Agora, que destino dar a essas células é outra questão? Valerá a pena alugar espaço num congelador durante anos, com o desejo de que nunca venham a ser utilizadas? Ou devemos doá-las à ciência? A decisão cabe única e exclusivamente aos pais e eu geralmente relato o que eu fiz quando cheguei à altura de dar destino às células do cordão umbilical dos meus filhos.

 

Convém esclarecer que a tecnologia de recolha e de preservação de células estaminais continua ainda com algumas falhas: (1) não existe nenhuma garantia que a amostra recolhida na maternidade seja viável; (2) não há estudos suficientes que garantam que as células estarão em condições de ser usadas, quando/se forem descongeladas (principalmente, se se passarem vários anos desde a recolha); (3) as doenças da infância que potencialmente beneficiam do tratamento com estas células são raras e há muito poucas provas da sua aplicação autóloga (ou seja, no próprio doador); (4) mesmo nestas doenças, as células estaminais não são a primeira linha de tratamento (nem segunda, nem terceira opção…); mas sim tratamentos de último recurso e experimentais, quando tudo o resto já falhou. Pesando tudo, a probabilidade do nosso filho beneficiar deste investimento é infinitamente pequena. E esta ínfima possibilidade é muitas vezes o único argumento para a criopreservação em bancos privados. Acresce ainda que, ao preservar as células num banco privado, podemos perdê-las em caso de insolvência do mesmo.  

 

Por outro lado, se todos os pais doassem as células estaminais do cordão umbilical para um banco público, as células seriam devidamente estudadas, armazenadas e utilizadas mediante a sua qualidade e utilidade. Ou seja, algumas seriam colocadas à disposição da comunidade científica para os tais tratamentos experimentais, outras (de menor qualidade ou já a passar de ‘validade’) podem ser utilizadas em laboratório para melhorar o conhecimento sobre estas técnicas. Resumindo, os nossos filhos só vão beneficiar das potencialidades das células estaminais se criarmos e alimentarmos este banco público.

 

Foi com esta lógica que, em 2010, aquando do nascimento do JM, doámos as células do cordão umbilical à Lusocord. Na altura, os pais é que levantavam o kit de recolha no Centro de Histocompatibilidade do Norte e o devolviam depois do parto. Logo, qualquer pai ou Mãe podia doar as células do cordão ao banco público.

[JM com 11 meses, na entrega oficial de Certificados “Sou Dador desde que nasci” da Lusocord, na Ordem dos Médicos]

 

Entretanto, alguns percalços da gestão do banco fizeram com que a recolha, que antigamente podia ser feita em qualquer maternidade, passasse a ser feita apenas no Hospital de São João (Porto), numa primeira fase, e posteriormente alargada ao Hospital Pedro Hispano (Matosinhos), na Maternidade Júlio Dinis (Centro Materno-Infantil do Norte) e no Hospital Prof. Doutor Fernando da Fonseca (Amadora-Sintra). A grande diferença é que não é possível qualquer pai ou Mãe levantarem o kit de recolha e o devolverem. Logo, bebé que não nasça num destes quatro hospitais não pode doar as suas células para o banco público. Como os meus últimos dois filhos não nasceram em nenhum destes hospitais, não fizemos a recolha das células do cordão umbilical.

 

A Lusocord, entretanto baptizada de ‘Banco Público de Células do Cordão Umbilical’ tem crescido muito lentamente. Não chegou às 500 amostras em 7 anos. «Especialistas dizem que silêncio do Estado sobre criopreservação das células estaminais é cedência aos bancos de criopreservação privados.». Sem querer entrar em teorias de conspiração, acho incrível haver tantos pais a querem ajudar os seus filhos, e os filhos dos outros, e haver tão pouca publicidade ao banco público. Cabe a nós, médicos e pais, passar a palavra.

 

[Antiga publicidade da Lusocord, porque do novo BPCCU nem vê-la…]

 

Mais informações sobre o Banco Público de Células do Cordão Umbilical no website do Instituto Português de Sangue.

 

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