Estratégia simplificada para largar a fralda de dia e de noite

O problema da fralda (ou melhor da ‘desfralda’) coloca-se muitas vezes na consulta do cirurgião pediátrico. Seja por algum receio de fazer a circuncisão ou outro procedimento peniano antes do desfralde, seja por alguma alteração dos rins o trouxe à consulta, seja porque existe uma preocupação real pela existência de uma enurese (perda involuntária de urina), ou seja só porque sim, é frequente questionarem como ajudar o menino ou a menina a deixar a fralda. Claro que não há uma regra que sirva para todas as crianças, mas existem algumas regras básicas que regem o meu pensamento e que procuro partilhar com os pais que me procuram.

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[imagem: pottytraining-boys.net]


1) A criança tem que estar preparada. Perceber quando uma criança tem maturidade para deixar as fraldas dava todo um post, mas tentarei resumir. Para iniciar o desfralde, a criança tem que andar e sentar-se com segurança no pote ou no redutor. Pote ou redutor seria outro post. Em casa temos os dois, porque quer o JM quer agora o MM sempre gostaram de variar. Mais, a criança tem que ter capacidade (falo de desenvolvimento neurológico mesmo) para perceber que tem vontade de fazer xixi (isto é, o sinal eléctrico de bexiga cheia tem que viajar até ao cérebro e a criança tem que saber descodificar esse sinal) e ter capacidade de comunicar essa vontade (seja através da fala ou gestos). Finalmente, tem que ter vontade (drive interno) para deixar as fraldas. Ela tem que sentir que deixar as fraldas é um passo importante para ela, que passará a ‘ser grande’. Sem motivação interna, não há prémio nem castigo que consiga colocar a criança a fazer xixi no pote.

2) É preciso disponibilidade dos pais. Passar das fraldas ao pote, exige uma aprendizagem. Não serve só o ritual de na escolinha colocarem a criança no pote a horas certas. É importante que os pais continuarem esse hábito em casa. Numa fase inicial, os pais têm que sentar a criança no pote de duas em duas horas e esperar que ‘chova’. Idealmente, quando estiver em casa, nem fralda-cueca a criança deve usar, o que obriga a uma disponibilidade para mudar a roupa várias vezes por dia. E, fora de casa, fazer tudo por tudo para levar a criança a uma casa de banho com a frequência necessária e sempre que ela pedir. Ou seja, não facilitar e, «desta vez, faz na fralda».

3) Alinhar uma estratégia com calma e bom senso. Apesar de ser sempre um daquelas metas que os pais querem que os seus filhos cruzem quanto antes (de preferência antes dos ‘filhos dos outros’), tentar fazê-lo à pressa e a qualquer custo pode ser prejudicial. Reforço esta ideia: a criança deve ter maturidade necessária e depois os pais vão ajudar. Os pais (em casa), as educadoras (na escolinha) e os familiares que fiquem com a criança por períodos devem ter a estratégia alinhada. A que eu prefiro é tirar a fralda e sentar no pote a horas fixas (inicialmente, duas em duas horas e depois vamos espaçando mais). A cada xixi ou cocó no pote há uma grande festa. NÃO CASTIGAR. Há crianças que desenvolvem obstipação, porque retêm a urina e, com ela, as fezes. Associam ao «sujo», «porco», ao castigo. Quando há uma inundação, é porque o esticamos a corda mas não há drama, não há castigo, é uma pena mas vamos tentar não falhar na próxima.

4) Deixar a fralda da noite é o objectivo final. A capacidade que cada bexiga tem para aguentar várias horas sem ‘descarregar’ varia muito. Se é verdade na idade adulta, também o é nos mais pequenos. Alguns meninos aguentam facilmente sem ir à casa de banho todas as horas que estão a dormir (8-10 horas), outros têm que esvaziar mais cedo. Umas crianças têm mais dificuldade em acordar para fazer o xixi a meio da noite, outras confundem com sonhos e acham que estão acordados sentados no pote mas na verdade estão deitados na cama… Mais tarde ou mais cedo, este despertar para ir à casa de banho aparecerá (os mecanismos neurológicos acabaram por se formar), mas até isso acontecer existem algumas estratégias que podemos seguir:

  • Não dar nenhum tipo de líquidos apartir das 18h00. Isto inclui não dar sopa (apenas os legumes), nem água. Para a criança não sentir sede apartir desta hora, há quem aconselhe dar-lhe muita água (até um litro durante todo o tempo que estão na escola).
  • Esvaziar a bexiga mesmo antes de ir para a cama. Aliás, a rotina: fazer xixi, lavar mãos e dentes e ler um livro. É a melhor rotina de ‘desaceleração’ para quem quer ter um bom sono.
  • Como referi várias vezes em cima, nunca censurar os deslizes. Lembrem-se que a criança que não desperta não tem culpa disso. Fazer um reforço positivo, premiando cada noite seca (ou mesmo uma semana seca) pode ser uma estratégia válida, mas também não convém exagerar. Reparem que estaremos a reforçar/valorizar algo que a criança não controla. Quando a bexiga der o sinal certo ao cérebro para despertar, o seu filho vai acordar e vai querer fazer xixi fora da cama.
  • Ter calma. A enurese nocturna (vulgo xixi na cama) não é um problema médico até aos 6 anos. E mesmo nesta idade, é normal que o pediatra desvalorize. Dependerá da frequência de vezes que faz xixi na cama, do impacto que tem na vida da criança, de quanto já se empenhou em resolver o problema.
Nota final: Existem algumas doenças que se associam a enurese (perda involuntária da urina), seja esta diurna ou nocturna, que só o seu médico ou pediatra assistente poderão diagnosticar e tratar antes de poder iniciar o desfralde com sucesso. Principalmente no caso da enurese nocturna, que muitas vezes não existe uma causa orgânica identificável, existem fármacos (o famoso Minirin), alarmes e também psicoterapia pode ajudar. Pessoalmente, acho errado avançar para estas soluções antes de esgotadas as estratégias mais inócuas (apresentadas em cima). De qualquer forma, reforço a ideia que cada crianças é uma criança, pelo que a estratégia deve ser adaptada a cada caso em particular. Idealmente, os pais deveria discutir o problema com o médico ou pediatra assistente.
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[imagem: reviewxpro.com]

O impacto do divórcio nas crianças e adolescentes

Por vezes é preciso de falar de coisas sérias. E é com coisas sérias que retomo os convidados especialistas cá do blogue. O divórcio é cada vez mais frequente. As razões são múltiplas, mas as consequências sobre as crianças são quase sempre as mesmas. A Dra. Filipa Teiga é psicóloga clínica da APAC (Barcelos) e do Gabinete de Fisioterapia, Saúde e Bem Estar (Porto). Ela coloca os pontos no ‘i’s e tenta combinar algumas estratégias para minimizar os danos colaterais. 

O impacto do divórcio nas crianças e adolescentes
Filipa Teiga

O divórcio, como uma situação de perda, está aliado a um processo de luto. Segundo a primeira teoria apresentada por Kubler Ross, o divórcio engloba cinco etapas, sendo estas: Choque, Negação, Caos Emocional, Aceitação Intelectual e Recuperação.

  1. Choque – O momento em que um elemento do casal quer o divórcio, mas o outro não. Deste modo, a situação não parece real para o próprio que vive um período de transe e adormecimento.
  2. Negação – Após tomar consciência da realidade, até então desconhecida, apercebe-se que a mesma se revela extremamente negativa e violenta para a aceitar, por isso prefere negar a sua existência. A dor é demasiado intensa para ser observada, utilizando como estratégia de fuga e defesa, a negação. Nesta fase existem oscilações de humor significativas.
  3. Caos Emocional – Considerado o “caldo” de várias sensações, que passam da euforia à depressão. Tomam consciência do término da relação e abrem-se novas perspetivas.
  4. Aceitação Intelectual – Começo da aceitação da nova realidade. Existe uma maior estrutura, novas rotinas são implementadas e o futuro começa a ter novos horizontes.
  5. Recuperação – Surge a tranquilidade. É possível observar o passado com serenidade sem sentimentos negativos.

Neste processo, a negação é sem dúvida uma das fases de maior complexidade, principalmente para as crianças. A fantasia da união, que surge nesta fase de negação, traduzindo a ilusão de que os pais vão reatar, é muitas vezes reforçada pelos próprios pais, através dos seus comportamentos, como irem a festas de família ou partilharem os mesmos espaços com o objetivo de diminuir o sofrimento da criança. Contudo, estas situações vão criar mais ilusões e consequentemente desilusões, bem como atrasar o seu processo de luto, aprisionando-o na negação. As crianças prendem-se a esta fantasia como um bálsamo para a sua dor, pois dessa forma camuflam a realidade nefasta e acreditam que em breve tudo não passará apenas de um “sonho mau”.

Neste sentido, para impedir que a fantasia da união ocorra ou persista, é fulcral que a criança perceba a irreversibilidade do divórcio, para isso os pais têm o dever de desmistificar e acalmar a criança para que esta possa prosseguir e realizar o processo de luto de forma adequada. Os pais devem privilegiar a verdade e ainda não manipular a relação da criança com o ex-cônjuge. Devem evitar frases como: “Se a tua mãe não tivesse saído de casa, estávamos felizes”, “Se o teu pai estivesse aqui, teríamos possibilidades para te dar a bicicleta”, “O teu pai agora não quer saber de nós, já não se preocupa”, “A tua mãe agora não pode gastar dinheiro contigo porque tem outra família”, “A tua mãe não tem tempo para te ligar porque tem que cuidar da nova família”.

É fundamental que lhe transmitam maior segurança e amor, bem como dedicar-lhes o tempo e a atenção que necessitam para apreender esta nova realidade. Devem explicar que as rotinas vão ser alteradas, mas assegurar acima de tudo que vão estar sempre protegidos!

Os pais terminam a conjugalidade, mas não a parentalidade! Por isso devem reforçar a ideia de que se separaram um do outro, mas não da criança ou jovem. Os pais devem procurar substituir as frases negativas por: “Vamos mudar algumas rotinas, mas até vai ser mais giro, vais ver”, “A partir de agora sou eu que te vou buscar à escola, porque a mãe está a trabalhar”, “Tudo se vai resolver, não tens que estar preocupada, os pais vão estar sempre aqui para tudo”, “Vamos gostar sempre de ti da mesma forma”, “Independentemente de estarmos separados um do outro, nunca estaremos de ti”, “Vamos proteger-te sempre”.

Estas estratégias devem ser sempre asseguradas, independentemente da idade da criança. O adolescente torna-se, mais impulsivo e distante, podendo até perder a noção de “lar” ou enveredando por comportamentos delinquentes, o que exige que os pais garantam um ambiente mais estruturado e sejam mais assertivos nesta partilha de sentimentos e pensamentos. A escuta ativa das crianças e adolescentes é primordial para o seu bem-estar emocional.

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[fonte: dicascaseiras.com]

Os custos emocionais para os pais podem intensificar-se na fase do divórcio, conduzindo a uma diminuição significativa da sua disponibilidade e atenção às necessidades dos filhos. O medo que as crianças sentem do abandono dos pais, a destruição do seu porto de abrigo, a culpabilização que muitas vezes depreendem do estado emocional dos pais, são efeitos nefastos no seu desenvolvimento. A parentalidade disfuncional tem um papel dominante no desenvolvimento de comportamentos de risco dos filhos, perante uma diminuta supervisão, um ambiente desestruturado e inconsistente no que concerne a regras e limites impostos, um distanciamento entre pais e filhos, discussões e críticas negativas, podem contribuir para comportamentos delinquentes e antissociais.

Como consequência, as crianças e jovens ficam expostos e mais propensos a perturbações psicológicas, por vezes de forma profunda para toda a vida. Deste modo, o divórcio terá, a longo prazo, uma influência bastante significativa, alterando a visão dos filhos de pais divorciados relativamente a relações futuras; uns investem numa procura incessante pelo parceiro ideal que partilhe um compromisso sério e estável, outros recusam envolver-se em compromissos sérios para evitar o sofrimento de uma “relação falhada”.

As sequelas emocionais são, sem dúvida, as mais significativas, descrevendo marcas que permanecem e demoram a curar.

Por fim, é importante compreender que o divórcio altera significativamente a dinâmica familiar, tendo os pais, muitas vezes com o auxílio de especialistas, um papel fundamental no estabelecimento e manutenção da estabilidade emocional e comportamental das crianças e adolescentes.

Ainda as vacinas e um disclaimer

Por vezes escrevo posts que têm um impacto maior e surgem muitas dúvidas. Também é nestas alturas que aparecem aqui no blogue muitas caras novas, que merecem uns esclarecimentos:

1. Eu sou cirurgião pediátrico. (Não sou pediatra.) Este blogue começou pelo meu gosto por escrever histórias que vou vendo acontecer «entre casa e o hospital», onde os protagonistas são os meus filhos «e os filhos dos outros». Se chegaram agora, sejam bem-vindos. Sintam-se à vontade.

2. A informação médica que vou deixando aqui no blogue pretende dar aos pais ferramentas para saberem um bocadinho mais sobre como funcionam os seus filhos, a que sinais e sintomas devem estar atentos em caso de doença, terem alguns truques para lidar com problemas que vão surgindo e andarem actualizados quanto às boas práticas. No fundo, ajudar a não estragar.

3. Para não perder rigor científico, muitas vezes uso palavras difíceis de interpretar. Por exemplo, o que são factores de risco? Será que o meu filho está em risco e deve fazer esta vacina? Ler este blogue não subsitui consultar o médico que segue a sua criança. A informação que aqui é dada deve ser discutiada com o pediatra ou outro médico, que melhor conhecem a família. Eu sou apenas um cirurgião pediátrico.

4. Sobre a vacina BCG, a Direcção Geral de Saúde, mudou as indicações desta vacina. Ela já não é universal, mas apenas para populações de risco. “Será que a minha criança precisa ou deve fazer esta vacina?” O melhor mesmo é consultar o seu médico. Depende de muitos factores, nomeadamente onde e com quem vive.

5. Alguns leitores questionaram-me sobre outras vacinas: hepatite A, principalmente. Sobre elas não falei, porque não havia novidades, mas estão no documento emitido pela comissão de vacinas. Estão lá todas as vacinas extra-plano. Também estão lá as explicações/justificações para as suas recomendações. São coisas demasiado técnicas. Algumas difíceis de perceber. Quanto mais explicar…

Posto isto, muito obrigado por lerem este que vos escreve. Leiam, deixem comentários, façam perguntas. A gerência responderá na medida das suas capacidades.

Novidades Bexsero e outras vacinas extra-plano

Com a confusão dos últimos meses, fui adiando este texto que suponho ser do interesse da maioria dos leitores do blogue. Saiu uma nova recomendação da Sociedade Portuguesa de Pediatria sobre vacinas. Existem algumas novidades importantes em relação às as vacina ‘extra-plano’, ou seja, aquelas que não fazendo parte do Plano Nacional de Vacinação (PNV). têm que ser os pais a decidir se devem vacinar os seus filhos e a pagar se assim o desejarem. Fiz um resumo das recomendações principais.

  • Sobre a Bexsero® (Vacina contra Neisseria meningitidis serogrupo B), a vacinação é recomendada a todas as crianças dos 2 meses aos 2 anos, nos esquemas já disponibilizados aqui. A vacinação das crianças mais velhas passa a ser apenas recomendada se existirem fatores de risco para doença invasiva pelo meningococo (défices do complemento, asplenia, tratamento com imunossupressores) ou se houver necessidade de controlar um surto doméstico ou da instituição de acolhimento/internamento.
  • Ainda sobre a Bexsero®, e para minimizar os efeitos secundários mais frequentes como a febre e dor local (queixa frequente dos pais), a comissão de vacinas da SPP recomenda a administração de paracetamol.
  • Sobre a vacina contra o HPV (Gadarsil®), que já está incluída no PNV mas apenas para as raparigas (apartir dos 10 anos de idade), a comissão de vacinas «recomenda, a título individual, a vacinação dos adolescentes do sexo masculino como forma de prevenir as lesões associadas ao HPV.» Razão principal «a carga da doença por HPV é relevante no sexo masculino e não existem rastreios implementados para a prevenção dos cancros associados a HPV (leia-se ânus, do pénis, da cabeça e pescoço), pelo que a forma de reduzir individualmente o risco de doença, para além da proteção indireta (leia-se preservativo e/ou abstinência), é através da vacinação».
  • Sobre a vacina contra o rotavirus (Rotateq® e Rotarix®), «a comissão de vacinas mantém a recomendação de vacinação de todas as crianças saudáveis», mas reforça «a monitorização da epidemiologia da infeção por RV, da efetividade e dos efeitos secundários das vacinas deve continuar.» Como já esclareci aqui, o risco aumentado de invaginação preocupa-me..
  • Sobre a vacina contra a varicela (Varilrix®, Varivax®), a «comissão de vacinas não recomenda vacinação de rotina de crianças saudáveis fora de um programa nacional de vacinação.» Mas, no caso de adolescentes sem história prévia de varicela, deve-se vacinar, porque a doença pode ser mais grave. O mesmo acontece para crianças que contactam habitualmente com doentes imunodeprimidos, para protecção destes últimos.
Porque estes são temas levantam sempre muitas dúvidas, recomendo vivamente a leitura cuidada do documento emitido pela SPP. Podem descarregar aqui. E, já agora, deixo o esquema do PNV actualizado.

Vírus Zika (atenção grávidas)

Existe uma preocupação crescente à volta de um vírus praticamente desconhecido em Portugal: o Zika. O vírus pode infectar os humanos através da picada de um mosquito. Um mecanismo semelhante ao dengue. De facto, os países afectadas são semelhantes. Segundo a Direção-Geral da Saúde (DGS), há casos notificados em quase todos os países da América Central e da América do Sul, mas também em Cabo Verde. Em Portugal (até 15 de Janeiro) havia 4 doentes afectados, todos oriundos do Brasil.

«Os sintomas e sinais clínicos da doença são, em regra, ligeiros: febre, erupções cutâneas, dores nas articulações, conjuntivite, dores de cabeça e musculares.» O problema mesmo são as grávidas. A infecção pelo Zika pode provocar alterações no feto, nomeadamente microcefalia. Há vários casos reportados já. A DGS aconselha as mulheres grávidas que tenham permanecido em áreas afetadas a consultarem o seu médico assistente e mencionem a viagem. Todos os outros viajantes deverão contactar a Saúde 24 (808242424) apenas se apresentarem sintomas até 12 dias depois da viagem.

A Centers for Disease of Control and Prevention (CDC), equivaalente à DGS americana, desaconselha a viagem de mulheres grávidas para as zonas afectadas e mantém um mapa actualizado das mesmas.

Podem saber mais no website da Organização Pan-Americana da Saúde (OMS), na página da CDC para o Zika e no explicador do Observador.

6 pecados dos pais em relação aos desporto

Dada a paixão louca do meu mais velho pela pratica desportiva, tenho andado atento a um novo tema: a educação para o desporto e, dentro deste, à psicologia do desporto: lidar com a frustração (mas também com o sucesso), manter o entusiasmo, incentivar o espírito de equipa, etc. O JM gosta mesmo muito de desportos. Tem futebol na escola, vai uma vez por semana à natação e ainda pratica hóquei em patins ao fim-de-semana. Sempre que tem hipótese salta para a bicicleta, desce rampas de skate e pede férias ‘no surf’. Como pais, sentimos que devemos deixá-lo experimentar os desportos todos a seu belo prazer, mas (1) não queremos que ande sempre a saltar de moda para moda, (2) sentimos que a natação é ‘obriigatória’ para quem vive junto ao mar e (3) queremos que o desporto seja uma actividade construtiva/positiva do seu dia-a-dia, que lhe traga benefícios físicos e de carácter.

No Yahoo Parenting, encontrei um texto que serve bem para início de conversa. O texto foi escrito por dois irmãos, Lisa e Patrick Cohn, que mantêm um blogue chamado Youth sports psychology e são basicamente os 6 erros (eles chamam-lhes pecados) praticados pelos pais de jovens desportistas. Passo a uma tradução livre e resumida dos mesmos.

[fonte: multiplemayhemmamma.com]
1. Os pais acham que os filhos preferem vencer acima de tudo. É mentira. Entre perder e jogar o tempo todo ou vencerem mas jogarem pouco tempo, as crianças preferem o que dure mais tempo, o que envolva mais amigos e mais diversão. Como muitas vezes dizemos (e parece que deixámos de acreditar): «ganhar ou perder, o que interessa é participar».

2. Os pais acham que equipas mais exigentes (mesmo que pela distância, pelo custo monetário ou pelo tempo despendido) são as que garantem mais sucesso às crianças. É mentira, as equipas mais exigentes com as crianças não preparam os melhores atletas, porque a taxa de desistência por cansaço é maior. As viagens podem ser extenuantes. A obsessão com ‘a melhor equipa’ pode amedrontar ou até desmotivar a criança que só se quer divertir.

3. Os pais tendem a alimentar as superstições. É errado. Alimentar crenças como ‘só ganho se tiver vestida aquelas meias verdes ‘ transfere a responsabilidade do sucesso (ou insucesso) para algo exterior às capacidades da criança. Os pais devem focar e criar confiança nas capacidades que a sua criança tem, independente da cor das meias.

4. Os pais tendem a lembrar as crianças dos erros que cometeram. Embora a intenção possa ser nobre, não se deve insistir no que correu mal no jogo anterior. Antes, deve-se insistir no que correu bem. A criança tem já por si dificuldade em ultrapassar os seus erros e as suas frustrações. Lembrá-los disso faz com que bloqueiem, preocupados em evitar o próximo erro, em vez de progredir com espontaneidade nos passos em que são certeiros.

5. Os pais não confrontam os treinadores que gritam e humilham. Não devemos tolerar isto. O feedback negativo do treinador mina a auto-confiança das crianças e a consequência é muitas vezes a desistência. Há pais que têm receio de represálias sobre as crianças e se retraem de chamar os treinadores à razão. As crianças não são adultos pequenos.

6. Os pais focam-se demasiado em objectivos como bolsas e vitórias. Mas isto é colocar a pressão nas crianças pela razão errada. As crianças devem ser incentivadas a praticar desporto pelo prazer do momento. Isto significa concentrarem-se na próxima jogada, arriscarem, sentirem-se felizes e confiantes, get in the zone.

Estes seis pontos foram escritos face à realidade americana, mas penso que facilmente se transpõem na nossa realidade. Se em Portugal pecamos, é por excesso. Um dia caí no erro de assistir um treino de futebol dos escalões mais novos Boavista. Foi numa das primeiras visitas que fiz com o JM ao estádio do Bessa. O que vi não foi um treinador a gritar e a humilhar as crianças. Foram pais a berrarem para dentro do campo, furiosos com os filhos e com os colegas dos filhos, a insultarem o treinador e outros pais que assistiam ao treino, várias ameaças de pancada. Virei costas. Não ficámos para ver.

Como é uma área que ando a explorar recentemente, gostava mesmo de saber o que acham destes ‘pecados’ e que dicas dariam sobre o tema.

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As melhores medidas para aliviar a dor da erupção dentária

oi publicado um artigo muito interessante na revista BMC Oral Health. Trata-se de um ensaio clínico que comparou 5 técnicas diferentes para aliviar a dor da erupção dos primeiros dentes. O estudo envolveu 270 crianças e pelo meio há alguns achados importantes.

Primeiro de tudo, sim existe um aumento da temperatura corporal com a erupção dentária nos bebés, mas não, esta não chega a ser uma verdadeira febre. De facto, o aumento da temperatura médio registado foi 0,16ºC, o que é quase insignificante. (Isto já tinha sido aqui falado).

Segundo, o que parece insignificante aos olhos dos médicos não o é aos olhos dos pais. «There were considerable discrepancies between body temperature reported by the mothers and recorded by the dentista.» A razão porque é que aos pais parece que a criança tem febre, quando o termómetro diz que não tem será um tema para estudar mais em profundidade (até porque continuará para já a ser um tema de desacordo entre pais e pediatras*). Eu arriscaria que pode ter a ver com o facto de outros sintomas que geralmente associamos à febre aparecerem também com a erupção dentária. Segundo o estudo, «hipersalivação  (92%), distúrbios do sono (82,3%) e irritabilidade (75,6 %).» são os mais frequentes.

Terceiro, sobre as 5 medidas não farmacológicas (isto é, excluindo medicação) que foram estudadas – 1) colo/conforto, 2) gelo local, 3) massagem das gengivas, 4) anel para dentição 5) alimentos para mastigar, o estudo conclui que as medidas mais eficazes na redução do desconforto associado à erupção dentária são os  anéis para dentição, o colo e a massagem das gengivas (por esta ordem de eficácia). No estudo, foi utilizado um «plastic teething ring (Panberiz, Bushehr, Iran)». Pesquisando no google images, será qualquer coisa como isto:


[fonte: dreamstime.com] 

Estão fartinhos de saber o que são estes ‘brinquedos’. Eles funcionam como uma massagem da gengiva realizada pelo próprio bebé. Alguns até se podem guardar no frigorífico, para o frio aliviar ainda mais a gengiva inflamada (apesar de isto não ter sido estudado aqui). Mas se o bebé não pegar no brinquedo, os pais podem massajar a gengiva com um dedo (bem lavado) ou uma escova de dentes macia – o método que ficou em terceiro lugar. Mas lembrem-se sempre: dar muito colinho. As medidas de conforto que ficaram em segundo lugar são com certeza as mais baratas e fáceis de dar a um bebé que chora.

*Poderão querer ler o que a Dra. Isabel Lesquita (dentista) e o que o Dr. Hugo Rodrigues (pediatra) escreveram sobre o tema.

De volta a casa

1. Antes de mais, impõe-se uma explicação para tão longa ausência. Os últimos meses foram de grande agitação. Nada dramático, mas suficientemente confuso para me manter arredado da escrita, em particular do blogue. Surgiu uma oportunidade de voltar ao meu hospital de origem, o Hospital Geral de Santo Antonio, o agora denominado Centro Hospitalar do Porto, na cidade do mesmo nome. Os mais atentos poderão estar a par que o Centro Hospitalar do Porto inaugurou recentemente o Centro Materno-Infantil do Norte. É um projecto ambicioso, que pretende dar um tratamento integrado à Mãe e à Criança, com todas as valências que a Medicina pode oferecer à grávida e ao seu feto, e progressivamente ao bebé, à criança e até ao adolescente. É um projecto que tem tanto de ambicioso como aliciante, pelo que não podia deixar escapar este desafio!

Deixar o Hospital de Braga não foi uma decisão fácil. Foram três anos de muito trabalho, mas com uma equipa excelente e com a qual muito aprendi (e espero também ter ensinado alguma coisa). A Medicina, em particular a Cirurgia Pediátrica, não é só ciência e conhecimento. Muito é afecto, intuição e trabalho de equipa. E esta não se confina aos cirurgiões pediátricos, estende-se aos pediatras e médicos de outras especialidades, enfermeiros, auxiliares e adminitrativos. A forma como se coloca o interesse do doente em primeiro lugar naquele hospital não deixa nada a dever aos grandes centros hospitalares do Porto ou Lisboa. Eu diria que, antes pelo contrário, os centros mais pequenos conseguem, muitas vezes, proporcionar um serviço mais próximo. Mas não quero entrar em demagogias. Tudo depende do médico, do doente e sua patologia e das circunstâncias de cada um deles. Curiosamente, a proximidade das pessoas do Minho foi uma óptima surpresa e fez com que fosse muito bem recebido no hospital, quer pelos profissionais quer pelos familiares dos doentes que tratei. Nunca me tinha acontecido, mas considero que algumas crianças e seus pais se tornaram mesmo Amigos, daqueles que vou ter saudades e, espero um dia, reencontrar com os respectivos filhos e netos.

De qualquer forma, senti que o meu papel em Braga estava cumprido. Há três anos, fui com a vontade de acabar o meu Doutoramento (que o fiz em Abril de 2014), de progredir como cirurgião recém-especialista e como professor. Trabalhei muito estes últimos 3 anos (como nunca, mesmo) para atingir esses objectivos, quase sempre, em prejuízo da família. Por mais que tente, a família, que deveria ser o elo mais forte, acaba por ser o mais prejudicado, o elo mais fraco. Como nunca deixei de viver no Porto, poder agora trabalhar na mesma cidade, deixa-me mais perto de casa. Mais perto dos meus filhos e, de certa forma, mais perto dos filhos dos outros.

2. Como em qualquer fase de transição, houve burocracias para resolver, tarefas para passar, projectos para concluir e um sem número de pequenas coisas que me foram consumindo o pouco tempo que me sobra, para além do trabalho propriamente dito. É deste pequeno tempo que vive o blogue e, por isso, ele foi ficando nesta situação letárgica. À espera de melhores dias.

Parece-me que estes chegaram finalmente. Comecei a trabalhar novamente no (meu) Porto, no Centro Materno Infantil do Norte, em Novembro 2015. Um mês e pouco para aterrar e conseguir novamente sentar-me a escrever.

[fonte: apload.pt]

Cinco dicas para não perder as crianças

Cá em casa (mas fora de casa), já vivemos uns minutos de terror sem saber do JM. Foi numa loja apinhada de turistas. Foram minutos que pareceram horas, numa aflição que não desejo a ninguém. É que no meio de uma multidão, aquelas cabecinhas ficam submersas num mar de corpos de gente muito maior que eles. É assustador, pelo que mais vale prevenir do que remediar. Deixo-vos cinco dicas muito básicas, mas que podem fazer a diferença.

1. A primeira dica é mesmo não perder as crianças de vista. Para isso, ajuda a utilização de roupa colorida e facilmente identificável, principalmente chapéus. Se forem num grupo de amigos ou com os irmãos, chapéus ou bonés todos iguais e coloridos são uma boa forma de eles se identificarem, caso se distraiam e saiam do grupo por momentos.

2. Explicar-lhes a importância de andarem sempre juntos dos pais, principalmente em locais muito concorridos. Aos mais velhos, instruí-los que qualquer passo dado fora do alcance visual dos pais dever ser reportado antecipadamente ‘às instâncias superiores’ (isto é, aos pais).

3. Simular/treinar o que eles devem fazer se se perderem. E bastam duas instruções muito simples: 1) ficar no mesmo lugar. E, do mesmo lugar, 2) pedir ajuda a alguém fardado (polícia, funcionário de loja, animador do hotel, etc.) ou alguém com filhos. Deve-se colocar a criança perante a hipótese de se perder e perguntar, o que farias?. Pedir para ela repetir as instruções.

4. Ter um contacto telefónico que a criança mais velha possa mostrar a quem lhe presta auxílio ou, se a criança for mais pequena, se perceba que é o seu número de emergência. Em ambos os casos, a pulseira da campanha ‘estou aqui’ da PSP. Cada uma das pulseiras tem um número, ao qual corresponde um registo na base de dados da PSP, onde os pais deixam os números de contacto preferenciais. Nos últimos anos, tenho colocado a pulseira aos meus pequenos e acho até didático. O JM começou cedo a identificar o 112 gravado na pulseira como o número de emergência. É grátis. Basta ir ao estouaqui.mai.gov.pt, fazer o registo (ao contrario dos anos anteriores, este ano o registo faz-se antes de receber as pulseiras) e depois levantá-las na esquadra pretendida. Cá em casa, já temos as nossas.

 

Se não quiser/não poder levantar a pulseira ou se fôr para um país fora do espaço europeu, pode fazer uma pulseira com o número de telefone de contacto (pode ser com papel e fita cola, uma placa gravada, ou apenas com marcador directamente sobre a pele). Há quem coloque o número no forro do casaco, na mochila, etc, embora, nestes casos, obrigue a que a criança se lembre onde está o contacto e o mostre à pessoa que a socorre, o que pode não ser fácil (especialmente num momento de ansiedade).

5. Não entrar em pânico e racionalizar. Esta é a mais difícil para os pais. As crianças distraem-se com as coisas mais simples. Tente voltar ao último local onde viu o seu filho ena última vez e daí procure as coisas que o poderiam atrair para longe de si: balões, um espectáculo de rua, guloseimas, brinquedos. (No caso do JM foram umas escadas rolantes…) Se a perdeu mesmo, peça ajuda.

Não falei das trelas para crianças, porque não tenho experiência nenhuma com elas e já nem me lembro da última vez que vi um. Estou certo que são infalíveis, desde que colocadas, o que (aposto) não acontecer sempre que saiem à rua. Ainda assm, gostaria de saber se alguém as usa ou se têm outras dicas que possam ser útieis nestas situações.

Enfermeiras ilustram os sonhos de prematuros numa unidade de cuidados intensivos

A equipa da Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do Children’s Healthcare of Atlanta (EUA) teve a ideia audaz de imaginar os sonhos dos meninos e meninas prematuros que tinham a seu cargo. O resultado é o conjunto de fotografias que se segue. Cada uma conta uma história de coragem destas crianças que lutam pela sobrevivência. Cada uma é um sinal de esperança para os seus pais. Inspirador.